O sol da primavera entrava pelas altas janelas do ginásio da escola, pintando manchas quentes no chão encerado. O ar vibrava com excitação e nervosismo enquanto as crianças ensaiavam para a apresentação anual de primavera. No canto mais afastado, Ana Santos, de apenas cinco anos, sentava-se curvada numa cadeira de metal fria. Suas mãozinhas seguravam a barra do vestido amarelo desbotado; um vestido que tinha sido da sua mãe quando ela era criança. O tecido estava gasto, a saia um pouco curta e o rendado das mangas começava a desfiar. Para Ana, era a coisa mais óbvia do mundo.
Ao seu redor, outras meninas giravam em vestidos novos, azuis e cor-de-rosa brilhantes que sussurravam ao se moverem. Ana tentou sorrir antes, mas os cochichos começaram mesmo antes de subirem ao palco. “Isso é de brechó?”, perguntou uma menina alto o suficiente para todos ouvirem. “Parece coisa do armário da avó”, zombou outra. Um menino perto da mesa dos lanches acrescentou: “Não chega muito perto. Pode cheirar a naftalina.” A facada das risadas fez Ana se encolher no seu canto, apertando a cadeira contra a parede, tentando se tornar pequena.
Ana observava os outros ensaiarem, com o coração pesado. Queria desaparecer, que seu vestido se transformasse magicamente em algo bonito e novo. Foi então que percebeu. Vítor Mendes, alto e de ombros largos, estava perto do fundo do ginásio. Seu terno sobressaía entre os casacos e moletons dos pais. Ele era o convidado de honra do evento, um multimilionário que financiava atividades extracurriculares e tinha doado o novo parque infantil lá fora. Mas em vez de olhar para o palco, seus olhos estavam fixos nela.
Vítor atravessou o ginásio devagar, sem chamar atenção. Chegando perto de Ana, ajoelhou-se para ficar à sua altura. “Pareces carregar o peso do mundo”, disse suavemente. “O que se passa, menina?” Ana balançou a cabeça, os olhos fixos no colo. “O meu vestido é feio”, sussurrou. “Todos riem.” Vítor inclinou a cabeça. “Feio? Eu não vejo feio. Vejo uma menina corajosa que veio hoje. Pronta para cantar pela sua escola.” Ana olhou para ele, insegura. “Mas é velho. Não é como os delas.” Ele se inclinou mais um pouco. “Queres saber o que a minha mãe me dizia? Ela dizia: ‘A roupa não te torna especial. Tu é que tornas a roupa especial.’ E agora, tu fazes deste vestido o mais importante de todos aqui.”
Ana piscou, absorvendo as palavras. “Mesmo sendo velho?” “Principalmente se for velho”, respondeu ele. “Significa que tem história. E tu, Ana, agora fazes parte desta história.” Do outro lado do ginásio, as meninas que tinham caçoado antes olhavam, cochichando novamente. Uma delas sorriu com ironia: “Porque é que o milionário está a falar com ela?” O comentário pairou no ar, afiado como vidro. Os olhos de Vítor desviaram-se para elas só um segundo antes de voltar para Ana. “O que achas de mostrarmos como é a confiança?”, disse. “Uma dança, eu e tu, para provar.”
Ana hesitou, olhando em volta. “Todos vão olhar.” “Melhor”, disse Vítor com um sorriso. “Que vejam o que acontece quando acreditas em ti mesma.” Ana pegou na mão dele, pequena e quente na dele, e deixou-se levar para o centro do ginásio. Os murmúrios silenciaram. O pianista voluntário da escola, captando o momento, começou a tocar uma valsa suave. Os passos de Ana eram pequenos, inseguros, mas Vítor mantinha o movimento lento e firme. “Respira”, murmurou. “Segue-me. Estás a fazer tão bem.”
A meio da música, os ombros de Ana começaram a relaxar. Seus olhos ergueram-se dos sapatos e encontraram os dele, e até conseguiu um sorriso tímido. Pela primeira vez naquela tarde, esqueceu-se do vestido desbotado. Quando a música acabou, Vítor ajoelhou-se novamente e sussurrou: “Foi perfeito. Nunca deixes que alguém te diga que vales menos por causa do que vestes. Eles só dizem isso quando têm medo que sejas mais.” Alguns pais aplaudiram de verdade. Mas as risadinhas dos colegas voltaram assim que ela se sentou. Vítor percebeu a mudança no rosto dela, como a faísca de orgulho ameaçava apagar-se.
Mais tarde, enquanto as crianças cantavam e recitavam poesias, Vítor saiu discretamente do ginásio. Já tinha um plano em mente. Naquela noite, ligou a uma amiga que tinha uma boutique de roupa infantil personalizada no centro. “Preciso de um vestido”, disse. “Um vestido de princesa, que faça uma menina sentir-se dona do palco, e preciso dele até sexta.”
Na manhã seguinte, Ana voltou à escola. As provocações não tinham parado. “Olha, menina vintage”, gritou um menino. “A minha avó tem cortinas como o teu vestido.” Ana mordeu o lábio e continuou a caminhar, repetindo as palavras de Vítor na cabeça. “Tu fazes a roupa especial.” Ajudava um pouco.
Ela não sabia que, numa pequena oficina do outro lado da cidade, costureiras já mediam seda e tule, cosiam pérolas miúdas no corpete e dobravam camadas de cetim cor de aurora. Não sabia que Vítor tinha escolhido o tecido ele mesmo, imaginando-lhe a cara ao vê-lo. Só sabia que alguém, alguém importante, a tinha visto para além do vestido. A tinha visto a ela. E talvez, apenas talvez, na próxima vez que subisse ao palco, não precisasse de se esconder no canto.
Sexta-feira amanheceu brilhante no pequeno bairro de Lisboa. Ana acordou com o som da mãe, a senhora Santos, a cantarolar na cozinha. O ar cheirava a aveia e canela. Vestiu novamente o vestido amarelo desbotado, o tecido familiar sob seus dedos. Era o único que tinha para a apresentação daquela tarde. Suspirou, lembrando-se das risadas do início da semana.
Na escola, o ginásio era um turbilhão de decorações. Fitas em tons pastel pendiam dos aros de basquetebol e as cadeiras dobráveis estavam dispostas para os pais e convidados. As crianças agitavam-se em trajes coloridos, vestidos de folhos, camisas impecáveis e sapatos reluzentes. As mesmas meninas que tinham gozado com Ana segunda-feira cochichavam e olhavam na sua direção. “Parece que a menina vintage continua com o mesmo vestido”, disse uma, sem baixar a voz.
Ana manteve a cabeça baixa e procurou um lugar perto da parede. Foi então que o viu, Vítor Mendes, entrando com a diretora, a senhora Pereira. Hoje usava um terno cinza elegante. Mas o que chamou a atenção de Ana foi a grande sacola branca de roupa que levava no braço. Ele passou os olhos pelo salão, detendo-os nela com um pequeno sorriso cúmplice.
Vítor atravessou o ginásio, parando só para cumprimentar alguns pais. Chegando perto de Ana, ajoelhou-se à sua altura. “Bom dia, princesa Ana”, disse suavemente. “Tenho uma coisa para ti, mas só se fores corajosa outra vez hoje.” Os olhos de Ana abriram-se muito. “O que é?” Vítor olhou para a sacola. “Um pouco de magia”, respondeu. “Vem comigo.”
Saíram para o corredorAna seguiu Vítor para o corredor, onde ele abriu a sacola e revelou um vestido cor-de-rosa deslumbrante, que brilhava como os seus olhos cheios de esperança.