— Meu Deus, quase me mijei de rir naquela reunião! — Carla atirou os sapatos no canto e desabou no sofá, sem nem tirar o blazer. — Imagina? Ser acusada de desvio de dinheiro na frente do departamento inteiro! E você, que é uma contadora experiente, auditada pela “Grande Consultoria”!
Mas ela falava para o vazio. Para o armário da cozinha, para o gato Bento e para a garrafa de espumante que estava por abrir. Porque pessoas cansam, mas armários guardam segredos.
Tudo começou, como sempre, numa segunda-feira.
— Carla, entra aqui — disse Ana Vitória pelo telefone, sem entonação. Assim só falam robôs ou sogras decididas a começar uma guerra.
O escritório dela parecia um freezer, só que mais frio: dava para sair de lá sem autoestima e sem carreira.
Carla entrou. Acenou breve, profissional. Atrás da mesa, a sogra. Pela janela, a vista de Lisboa e os cacos da sua confiança.
— Temos um problema… — Ana Vitória franziu os lábios. — Há uma discrepância nos relatórios do último trimestre. Quase cem mil euros. E tudo assinado por você.
Carla sentou-se. Não na cadeira, mas na beirada — como se fosse o precipício. Não teve tempo de responder, apenas sorriu amargamente com o canto da boca — aquele sorriso nervoso que até no espelho dá vergonha.
— Está falando sério, Ana Vitória? — Carla tentou manter a calma. — Eu não sou estagiária. Respondo por cada número. Verifique o histórico de edições.
— Já verificamos — a interrompeu. — Tudo documentado. Assinaturas, cálculos. Você foi negligente. Ou… proposital?
— Isto é uma provocação? — a voz falhou. — Eu reviso tudo três vezes antes de assinar! Quem…
— Chega, Carla. Você está demitida. Por justa causa.
— E o Ricardo sabe? — suspirou.
— Claro. Ele concorda.
Naquele momento, Carla sentiu o chão sumir. Não esperava heroísmo do marido, mas que ele ficasse do lado da mãe? Depois de oito anos de casamento e dois empréstimos?
Ela levantou. Em silêncio. Antes de sair, só disse:
— Você, Ana Vitória, não quer uma nora. Quer um espelho para admirar-se e repetir: “Que inteligente, bem-sucedida, forte… e tão sozinha como uma árvore no campo.”
Não houve resposta.
Carla foi embora.
O que seguiu foi um pesadelo: aviso no correio, bloqueio nas redes, silêncio total do marido.
Ele evaporou. Como um gato que some do prédio. Nem chamada, nem mensagem. Apenas uma transferência de duzentos euros — “para comida”.
Obrigada, amor. Exatamente o que faltava no jantar: um pouco de humilhação frita na panela da decepção.
Três dias depois, o telefone tocou. Número desconhecido, voz conhecida:
— Carla, sou o António Duarte.
Ela quase derrubou a xícara. O ex-sogro. O mesmo que anos atrás deixou Ana Vitória e foi para o Algarve construir casas. Literalmente.
— Soube o que aconteceu — a voz era baixa, mas firme. — Quero nos encontrar. Conversar. Talvez oferecer trabalho.
Carla hesitou.
— Você acredita em mim?
— Não é sobre acreditar — respondeu. — É sobre justiça. E, talvez, sua chance de jogar.
Encontraram-se na Avenida da Liberdade. Café aconchegante, casaco cinza, olhar de aço temperado.
— Saí daquela família, mas não da cabeça dela — António tomou um gole. — Ana está fazendo das suas, como antes. Mas tenho um plano. Preciso de uma contadora de confiança. Você serve.
Carla riu — amargo, quase histérico.
— Acabei de ser humilhada, despedida, e meu marido, a propósito, achou melhor concordar.
— Mais razão para jogar — ele sorriu.
Naquela noite, Carla não dormiu. Revirou relatórios, lembrou cada alteração. Tinha certeza: fora armada. E sabia como.
De manhã, vasculhou e-mails antigos. E então — achou: uma cópia interna que nunca deveria constar no relatório final. Mas estava lá. Com sua assinatura. Que ela jamais colocou.
Foi uma invasão. E só uma mulher poderia arquitetar isso — com diploma em economia e coração de gelo.
— António — disse ao telefone. — Topo. E tenho algo interessante.
— Ótimo — nem perguntou o quê. — Só saiba: se fizermos isso, não há volta.
— Não quero voltar — respondeu baixo. — Sigo em frente.
No dia seguinte, vestiu o blazer e foi a um novo escritório. A empresa de António cheirava a ambição, café e canela.
Ela caminhava confiante. Não sentia raiva ou desespero — só adrenalina. Como se estivesse na largada, e alguém já contasse:
“Um… dois… vingança.”
— Então ela forjou sua assinatura? — António girava o pendrive como se fosse o pino de uma granada.
— Não — Carla fez uma pausa. — Ela a copiou. Scanner, editor, PDF… há mil jeitos. Você não sabe do que uma sogra é capaz?
— Vivi vinte anos com ela — ele riu. — Perdi cabelo e nervos. Mas você aguentou mais que eu. Cinco anos no reino dela é como prisão.
— Cinco e meio — corrigiu Carla, cerrando as mãos. E com cada lembrança — jantares cheios de indiretas, olhares que cortavam mais que faca — crescia nela um desejo: não só se vingar, mas fazer com estilo.
O trabalho agora era outro. António era dono de uma construtora, projetos ambiciosos, conexões valiosas. Ele a fez vice de finanças, apesar do “demitida por justa causa” no currículo.
— Sabe — disse ele num dia, no escritório vazio — eu queria que o Ricardo casasse com uma mulher inteligente. Só não pensei que inteligência seria problema.
— Quer que eu finja burrice? — Carla sorriu torto. — Como a Sara do outro escritório, que só servia café e ria na hora certa.
— Você é independente — ele balançou a cabeça. — Ana Vitória não gosta. Ela quer mulheres obedientes. Que concordem e a admirem.
— Posso admirar — Carla endireitou-se — especialmente se for um cheque de um Mercedes com meu nome.
Ele riu. Alto e genuíno.
Mas a alegria durou pouco.
Uma semana depois, António entregou-lhe arquivos. E-mails, transferências, documentos que ela nem sabia existir. Ana Vitória não só falsificava assinaturas… como desviava. Não milhares — milhões.
— Vê isto? — ele mostrou uma tabela.
— Offshores? — Carla franziu a testa.
— Seria sua sentença ao inferno, se tivesse ficado — ele sorriu. — Você agora é testemunha. Vítima. E, se quiser, cúmplice do meu plano.
— Já sou — respondeu seca. — Só que não é peça de teatro. É real.
O plano era simples: expor. Com estrondo. Para Carla entrar no escritório de Ana Vitória não como ex-funcionária humilhada, mas com documentos, advogado e, de preferência, câmeras.
Mas precisavam de provas.
— Tenho uma ideia — disse ela uma noite, no escritório vazio. — Preciso voltar ao arquivo antigo. Lá devem estar os originais. Ana Vitória guarda tudo, como colecionadora de maldade.
— Sério? — ele arqueou a sobrancel— Você não está sozinha, filha — ele colocou a mão sobre a dela, segurando-a como quem segura um tesouro que quase se perdeu, mas agora está a salvo, e juntos caminharam para o carro sob o céu de Lisboa, onde a vida, finalmente, lhes sorria.