O luar da noite envolvia Lisboa com uma névoa fina e úmida, enquanto o ar fresquinho pairava sobre as ruas. As sombras dos postes dançavam sobre a calçada deserta. Ana, cirurgiã de profissão, e o marido, Marcos, voltavam para casa depois de um jantar com amigos. O silêncio era tão denso que um gemido fraco, vindo de um denso arbusto de jasmim, ecoou com estranha clareza.
“Ouviste?” perguntou Ana, parando de repente.
“Ouvi,” resmungou Marcos, sem diminuir o passo. “Deve ser algum bêbado. Vamos, está começando a chuviscar.”
Mas Ana já se desviava do caminho, pisando na relva molhada. Anos de instinto médico não permitiam que ela ignorasse alguém em sofrimento.
“Tenho de ver,” afirmou, firme. “E se estiver a passar mal?”
“Por que te metes sempre onde não és chamada?” irritou-se ele, sem sequer olhar para trás. “Não estás de plantão. Chega de bancar a heroína. Estou cansado, vamos.”
Ela não respondeu, já se adentrando nos arbustos. No meio da folhagem, um homem se contorcia, segurando o lado. A luz da lua revelava uma mancha escura e crescente em seu casaco. Ana ajoelhou-se, e seus dedos logo se cobriram de sangue quente. O ferimento era grave—faca, provavelmente.
“Chama uma ambulância!” gritou para Marcos, que permanecia na calçada com uma expressão de nojo.
Ele aproximou-se, relutante, mas em seus olhos não havia compaixão, apenas irritação.
“Lá se vai a nossa noite,” rosnou. “Polícia, interrogatórios, perda de tempo. Para quê te meter nisto?”
Virou-se e foi embora, deixando-a sozinha com o homem que morria. Naquele instante, uma barreira invisível ergueu-se entre eles.
“Acalme-se, não force,” disse Ana, com a voz suave mas firme da cirurgiã que tranquilizava pacientes antes das operações. “A ajuda está a caminho.”
O homem parou de gemer, respirando mais fundo enquanto a olhava com gratidão silenciosa. Quando a sirene se aproximou, Ana correu para guiar os paramédicos. O médico mais velho perguntou:
“Está com ele?”
“Não, apenas o encontrei. Também sou médica—cirurgiã.”
“Entendido, colega. Ele não tem documentos. Podes ir amanhã ao hospital da Avenida da Liberdade? Precisamos de um depoimento.”
“Claro,” assentiu Ana.
A ambulância partiu, deixando-a na quietude da noite. A casa ficava perto, mas ela caminhou devagar, adiando o retorno. A atitude de Marcos queimava-lhe por dentro.
Lembrou-se de como se conheceram—ele, paciente, fraturando a perna numa bicicleta. Charmoso e engraçado, conquistou-a rapidamente. Lembrou-se também da sogra, cujo olhar frio e palavras duras ecoavam agora: “Meu filho precisa de uma esposa que cuide do lar, não de correr para o hospital.” Na época, Ana rira. Hoje, parecia-lhe ingênua. Talvez a sogra tivesse razão.
Marcos esperava na cozinha, o rosto distorcido pela raiva.
“Divertiste a brincar de salvadora?” atirou ele. “Devias ter ficado lá. Que esposa és? O jantar não está feito, as camisas não estão passadas! Casei-me por quê?”
Ana sentou-se, exausta.
“Marcos, sou médica. Um homem estava a morrer.”
“Não quero saber!” rugiu ele. “Quero uma mulher em casa, não nas ruas! Estou farto do teu trabalho, das tuas prioridades!”
Cada palavra cortava como uma faca. Quando ele trancou a porta do quarto, Ana deitou-se no sofá.
Na manhã seguinte, não fez o pequeno-almoço nem passou as camisas. Em vez disso, olhou-se no espelho—maquilhou-se ligeiramente, lembrando-se de como era ser vista como mulher, não apenas como esposa.
No hospital, as colegas comentaram:
“Ana, hoje estás radiante! O Marcos pediu-te em casamento outra vez?”
Ela sorriu, envergonhada.
Ao almoço, o chefe de cirurgia aproximou-se.
“Ana, aquele homem que salvaste? Veio parar aqui. Não era nenhum sem-abrigo. Acordou, fez uma chamada—e apareceram jipes com advogados e seguranças. Era o Diogo, um grande empresário. Tentaram matá-lo. Salvaste um milionário.”
Ana sorriu ligeiramente. Pensou na ironia de contar a Marcos.
Mas à noite, ao voltar, a fechadura estava trocada. Marcos abriu a porta, frio, com as malas dela à vista.
“Pensei melhor,” disse, sem emoção. “Não somos compatíveis. Leva as tuas coisas e vai-te embora.”
Da sala saiu uma jovem—bonita, com um roupão de seda de Ana, acariciando uma barriga falsa.
“Esta é a Sofia. Está à espera de um filho meu. Quer estabilidade. E eu quero uma esposa em casa. Tu és sempre uma plantonista. Vai embora.”
Ana não disse uma palavra. Pegou nas malas e saiu.
Sem para onde ir, acabou no hospital. O Dr. Pedro, cirurgião sénior, viu-a e compreendeu.
“Fica aqui. O sofá está à tua espera. Talvez seja o começo de algo novo.”
Ela assentiu, grata.
Naquela noite, no jardim do hospital, encontrou Diogo, o homem que salvara. Ele percebeu-lhe o rosto marcado.
“Fui eu a causa disto?”
“Não,” respondeu ela. “O meu marido pôs-me na rua. Tudo o que eu tinha—desfez-se.”
Ele sorriu.
“Então permita-me felicitá-la.”
“Por quê?”
“Por se livrar de um homem que não a respeitava. Que a deixou sozinha com um moribundo. Que nunca viu a mulher em ti, apenas a serva. Ele merecia a tua lealdade? Salvaste-me a mim, e ele nem sequer ficou ao teu lado. Alegra-te, doutora. Estás livre.”
As palavras doeram, mas trouxeram clareza. Pela primeira vez, sentiu alívio.
Um ano depois…
A luz do bloco operatório iluminava o rosto concentrado de Ana. As mãos moviam-se com precisão.
“Doutora, mais rosas!” sussurrou a enfermeira. “O Diogo não para!”
Ana sorriu.
“Teimoso como uma mula.”
A chamada de emergência cortou o momento.
“Ana, urgente na sala 3! Ferimento por arma branca, estado crítico!”
Ela entrou na sala. O paciente—sujo, magro, ensanguentado—era Marcos.
Ele abriu os olhos, reconhecendo-a.
“Ana… salva-me… A Sofia mentiu… expulsou-me… Perdoa-me… Volta…”
Ela olhou para ele como faria com qualquer paciente.
“Pedro,” disse ao anestesista, “induz-o.”
O colega hesitou.
“Queres que chame outro cirurgião?”
“Por quê?” respondeu ela, calma. “Somos estranhos. Isto não é pessoal. É apenas um paciente.” Fez uma pausa. “E, sabes? Finalmente sou feliz. Não importa quem está nesta mesa.”
Ele olhou para ela, surpreso.
“Ana… estás grávida?”
Sob a máscara, ela sorriu.
“Sim. O Diogo ainda não sabe. Vou contar-lhe hoje.”
Pegou no bisturi, pronta para operar.
“Vamos lá, colegas. Temos um mendigo para costE, enquanto o bisturi cortava a carne, ela soube que a vida, como a cirurgia, às vezes exige cortar o que já não tem salvação para preservar o que realmente importa.