Quando voltei da viagem, minhas coisas estavam no jardim com um bilhete: ‘Quer ficar? Vá para o porão.’ Então me mudei para meu esconderijo e parei de pagar. Meia ano depois, bateram na minha porta pedindo abrigo.

**Diário Pessoal – 5 de Março**

Chamo-me Mariana, tenho 29 anos, e há dois anos a minha vida deu uma volta que nunca esperei. Morava num apartamento arrendado em Lisboa, trabalhadora como programadora, ganhando um bom salário, e adorava a minha independência. Até que os meus pais me ligaram com aquela conversa que ninguém quer ter.

“Mariana, precisamos falar,” disse a minha mãe ao telefone, a voz tensa e cansada. “Podes vir cá hoje?”

Quando cheguei a casa deles, em Coimbra, os dois estavam à mesa da cozinha com papéis espalhados por todo o lado. O meu pai, o António, parecia mais velho do que os seus 58 anos, e a minha mãe, a Catarina, torcia as mãos como sempre fazia quando estava nervosa.

“O que se passa?” perguntei, sentando-me à frente deles.

O meu pai limpou a garganta. “Tive de deixar o emprego no mês passado. Os problemas nas costas pioraram, e já não consigo trabalhar na construção. Ando à procura de outra coisa, mas nada paga o suficiente.”

Senti um nó no estômago. Sabia que ele tinha problemas de saúde, mas não imaginava que estivesse tão mau.

“Não conseguimos pagar a hipoteca,” continuou a minha mãe, a voz a tremer ligeiramente. “Ainda trabalho no supermercado, mas é só meio período. Agora ganhamos à volta de 1000 euros por mês, e a hipoteca sozinha são 1500.”

Foi então que me pediram para voltar a morar com eles e ajudar com as despesas. Não queriam perder a casa onde viviam há 20 anos. Olhei à volta, para a cozinha onde comi o pequeno-almoço todos os dias em criança, para a sala onde vimos filmes juntos, para o quintal onde o meu pai me ensinou a andar de bicicleta.

Claro que disse que sim. “Eu ajudo.”

Então, desisti do meu apartamento e voltei para o meu quarto de infância. Foi estranho no início, mas montei o computador, arranjei uma boa ligação à internet e adaptei-me. O meu trabalho já era maioritariamente remoto. A situação acabou por correr melhor do que esperava. Ganhava bem como programadora—à volta de 70.000 euros por ano em salário, mas o verdadeiro dinheiro vinha dos bónus. Cada vez que um dos meus programas era vendido a uma grande empresa, recebia uma percentagem. Alguns meses, ganhava um extra de 8000 ou 10.000 euros.

Usei o meu salário fixo para pagar a hipoteca, as contas da casa, o seguro do carro e outras despesas da família. Não era um fardo. Mas havia algo que a minha família não sabia: guardava todos os bónus numa conta poupança separada. Nunca lhes contei. Nem aos meus pais, nem ao meu irmão mais velho, o João, que vivia do outro lado da cidade com a mulher, a Sofia, e os seus dois filhos. Amava a minha família, mas sabia o que aconteceria se descobrissem o meu rendimento real. Arranjariam maneiras de o gastar. O João estava sempre a pedir dinheiro.

“Ó Mariana, podes emprestar-me 400 euros? O Pedro precisa de uns ténis novos para o futebol.”

“Mariana, a mãe da Sofia precisa de uma cirurgia, e estamos com dificuldades para pagar.”

Ajudei quando pude, mas mantive os bónus em segredo. Em dois anos, juntei quase 150.000 euros. Estava a planear comprar a minha própria casa em breve.

Tudo corria bem, exceto pelos jantares de família. O João e a Sofia apareciam todos os domingos, e aquelas refeições eram um suplício. A Sofia nunca gostou de mim e fazia questão de o mostrar.

“Mariana, que camisola é essa?” dizia, olhando para mim como se tivesse saído de um caixote do lixo. “Vestes-te como se ainda fosses uma adolescente. Não te importas com a tua aparência?”

O João ria-se. “A Sofia só quer ajudar, mana. Ela percebe de moda.”

O pior era vê-la exibir roupas que comprava com o dinheiro que o João me pedia. Desfilava com um vestido novo de marca, falando da importância de “investir em peças de qualidade.” Eu acabava sempre por fugir para o meu quarto, alegando que tinha trabalho. Ouvia a voz dela a ecoar pelas escadas: “Lá vai ela outra vez, esconder-se na sua bolha. Nunca vai amadurecer se continuar a fugir da vida real.”

Mas mantive-me calada e continuei a poupar. Em breve, não teria de lidar com isto.

Até que decidi fazer uma pausa e fui passar o fim-de-semana à casa de campo da minha amiga Inês. Quando regressei no domingo à noite, vi demasiados carros na entrada e luzes acesas em todas as divisões. Brinquedos espalhados pela varanda. Abri a porta e deparei-me com o caos.

O Pedro e a Marta corriam pela sala, o João carregava caixas para cima, e a Sofia comandava tudo como se fosse dona da casa.

“O que se passa?” perguntei, parada à porta com a minha mala.

Todos pararam e olharam para mim. Os meus pais saíram da cozinha com ar culpado.

O João pousou a caixa. “Então, mana… houve uma mudança de planos. Perdi o emprego, e já não conseguimos pagar a renda.”

Olhei para as caixas e móveis. “Então… vão ficar aqui?”

“Só temporariamente,” disse o João. “Até arranjar algo novo.”

A Sofia aproximou-se com um sorriso falso. “Agradecemos muito que nos deixes ficar. Claro que vamos ter de fazer alguns ajustes. O teu quarto seria perfeito para as crianças. Podes mudar-te para o quartinho no fim do corredor.”

“Não vou sair do meu quarto,” respondi firme. “Trabalho a partir de casa. Preciso do meu espaço e de uma boa ligação à internet.”

O sorriso dela desapareceu. “Acho que as necessidades das crianças devem vir primeiro.”

“E eu sou quem paga a hipoteca e as contas,” retorqui.

A Sofia cruzou os braços. “Isso não te dá o direito de seres egoísta. Somos família.”

“Família que nunca perguntou se eu queria hóspedes,” respondi.

“Está bem,” disse ela, quando percebeu que eu não cedia. “Fica com o teu quarto precioso. Mas não esperes gratidão quando nem consegues ser compreensiva com familiares em dificuldades.”

Subi as escadas e fechei a porta. Foi o início do pesadelo.

A casa estava sempre barulhenta. O João passava os dias no sofá, a fazer meia dúzia de chamadas para empregos que nunca surgiam. A Sofia comportava-se como se nos estivesse a fazer um favor. O pior eram as interrupções no trabalho. As crianças batiam à porta a meio de videoconferências.

“Podias manter as crianças mais quietas durante o meu horário de trabalho?” perguntei ao João uma manhã.

“Elas só estão a ser crianças,” respondeu, sem levantar os olhos do telemóvel. “Tu não entendes porque não tens filhos.”

O ponto de rutura chegou dois meses depois. Cheguei a casa depois de fazer compras e a internet não funcionava. Fui ver o router e descobri que alguém cortara o cabo Ethernet com uma tesoura. Um corte limpo, perfeito.

Fiquei furiosa. Desci as escadas com o cabo na mão. “Quem fez isto?”

A Sofia estava no sofá a pintar as unhas. Olhou para o cabo e riu-se. “Ah, isso. O Pedro deve ter pegado nas tesouras e entrado no teu quarto. Crianças são crianças.”

“Isto não tem piada!” gritei. “Tenho um prazo amanhã!”

“Se estás tão preocupada”Então tranca a porta se és tão preocupada com as tuas coisas,” respondeu ela, encolhendo os ombros, e naquele momento percebi que, por mais que os amasse, a minha família nunca me veria como algo além de uma carteira ambulante, e decidi que era hora de seguir o meu caminho sozinha.

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