**16 de Outubro, 2024**
Quarenta e sete motards “sequestraram” vinte e duas crianças de um lar de acolhimento e levaram-nas através do país antes das autoridades as interceptarem. Foi o que os noticiários disseram.
Foi o que a operadora da PSP gritou ao enviar seis viaturas atrás de nós. Foi o que a diretora do lar, a Dona Margarida, berrou ao telefone quando percebeu que as crianças tinham desaparecido.
Mas não foi isso que aconteceu.
Chamo-me Rui Costa. Sou assistente social em Lisboa e trabalho no sistema de acolhimento há dezanove anos. Já vi desespero de todo o tipo.
Mas nada me preparou para o que encontrei no Lar Esperança Brilhante naquele outubro.
Vinte e duas crianças. Dos seis aos dezassete anos. Todas no sistema. Todas esquecidas. E todas prestes a passar mais um Natal num sítio com ratos na cozinha e bolor nas paredes. O Estado ia fechá-lo. Há três anos que “iam” fechá-lo.
Eu tentava há oito meses transferi-las para melhores condições. Ninguém as queria. Problemas de comportamento. Necessidades médicas. Trauma. Custo. O sistema desistiu delas.
Foi então que o meu amigo Marcos me ligou numa quinta-feira de novembro. Estava desesperado o suficiente para ouvir. Marcos era do Clube dos Veteranos do Ultramar. Cinquenta homens. Todos militares. Todos condecorados. Todos à procura de um propósito depois de voltarem para casa.
“Irmão, soube da tua situação com aquelas crianças. O clube quer ajudar.” A voz dele era séria. “O que achas de levá-las uma semana à Serra da Estrela?”
Ri-me. Um riso amargo. “Marcos, estas crianças nem autorização têm para ir ao cinema. O Estado nunca aprovaria uma viagem dessas.”
“Então não pedimos autorização,” disse ele. “Pedimos perdão depois.”
Foi assim que começou. A coisa mais bela, ilegal e insana em que me meti. O Marcos e o clube planearam tudo. Alugaram um parque de campismo no Gerês, vazio no inverno. Contactaram médicos, psicólogos e terapeutas que se ofereceram para ajudar. Arranjaram doações. Brinquedos. Roupas. Comida.
E depois foram buscar as crianças.
18 de novembro. Sábado de manhã. Seis horas. Quarenta e sete motards chegaram ao Lar Esperança Brilhante. O som era incrível. Como um trovão. Como um exército a chegar. As crianças acordaram e correram para as janelas. Algumas gritaram. Algumas choraram. Nunca tinham visto nada igual.
Encontrei o presidente do clube, um homem chamado Joaquim, à porta. Setenta anos. Barba branca. Peito cheio de medalhas. Entregou-me uma pasta. “São autorizações. Formulários médicos. Contactos de emergência. Fizemos isto o mais legal possível.”
A Dona Margarida desceu as escadas de roupão. “O que está a acontecer? Quem são estas pessoas?” Respirei fundo. “Estes senhores vão levar as crianças a acampar. Uma semana. Tudo pago. Totalmente supervisionado.”
Ela ficou roxa. “Absolutamente não! Não podem simplesmente levar crianças do Estado para outro distrito! Vou chamar a polícia!”
“Chame,” disse o Joaquim, calmo. “Mas enquanto o faz, vamos perguntar às crianças se querem ir conhecer a Serra da Estrela. Se disserem que sim, levamo-las. Pode tratar da papelada depois.”
Reunimos as vinte e duas crianças na sala comum. Desde a pequena Leonor, de seis anos, com o seu coelho de peluche, até ao Francisco, de dezassete, que já passara por catorze lares.
O Marcos avançou. “Chamo-me Marcos. Estes são os meus irmãos. Somos veteranos. Andamos de mota. E queremos levar-vos numa aventura.”
A Leonor levantou a mão. “Vão magoar-nos?” Partiu-me o coração. Era o que elas tinham aprendido. Adultos estranhos significam perigo.
O Joaquim ajoelhou-se à altura dela. “Não, princesa. Vamos proteger-te. Vamos acampar. Mostrar-te a Serra da Estrela. Andar a cavalo. Pescar. Dar-te a melhor semana da tua vida. Mas só se quiseres.”
“E se dissermos não?” perguntou o Francisco, desconfiado. Já tinha sido magoado demasiadas vezes.
“Então vamos embora e não nos vês outra vez,” respondeu Joaquim. “A escolha é vossa. Não do Estado. Vossa.”
As crianças olharam umas para as outras. A Rita, de doze anos, levantou-se. “Eu quero ir. Nunca saí de Lisboa.” Uma a uma, todas concordaram. Até o Francisco.
A Dona Margarida gritava ao telefone: “Estão a raptar crianças do Estado! Mandem a polícia!” Mas já estávamos a sair. Cada motard ficou com uma criança.
Algumas foram em carrinhas. Os mais novos tiveram lugares especiais. Todos com capacetes. Todos protegidos. Em vinte minutos, estávamos na estrada.
A caravana era enorme. Quarenta e sete motas. Oito carrinhas. Vinte e dois miúdos. E eu, na garupa do Marcos, a rezar para não ter acabado com a minha carreira.
A polícia alcançou-nos a quinze quilómetros da cidade. Seis viaturas. Luzes a piscar. Pararam-nos na autoestrada.
O agente aproximou-se do Joaquim. “Temos relatos de rapto de menores. Precisamos que devolva as crianças imediatamente.” Joaquim entregou-lhe a pasta. “Aqui tem autorizações assinadas pelo seu tutor legal.” Apontou para mim. “O senhor Rui é assistente social com autoridade. Temos informações médicas, contactos, itinerário. Isto é uma saída supervisionada.”
O agente olhou para os papéis. Olhou para as crianças. Estavam a sorrir. Felizes. Mais vivas do que em meses. “Isto é muito irregular,” murmurou. “Tenho de confirmar.”
Enquanto ele ligava, o Martim, de dez anos, aproximou-se. “Por favor, não nos faça voltar. Aquele sítio é mau. A comida tem bichos. Os chuveiros não funcionam. Nunca saímos de lá.” Chorou. “Só queremos uma semana boa.”
O agente olhou para ele. Para os motards. Para mim. “Quanto tempo?” perguntou.
“Uma semana. Voltamos no sábado. Todos seguros. Felizes. Alimentados. Com memórias para a vida.”
O agente fechou a pasta. “Nunca vos vi. Mas se acontecer algo a estas crianças, procuro-os pessoalmente. Entendido?”
O Joaquim fez continência. “Sim, senhor. Palavra de militar.”
Os sete dias seguintes foram mágicos. Chegámos ao Gerês ao anoitecer. Os motards tinham decorado tudo. Luzes de Natal. Cartazes de boas-vindas. Cada criança teve o seu quarto com lençóis limpos. O refeitório tinha um banquete.
Na primeira noite, a Leonor subiu para o colo do Joaquim. “Isto é o céu?” sussurrou. Ele ficou com os olhos húmidos. “Não, princesa. Mas é perto.”
A semana foi intensa. Cavalos. Pesca. Caminhadas. Histórias à volta da fogueira. Os motards ensinaram-nas a andar de mota em zona segura. A fazer fogo. Habilidades de sobrevivência. Mas, mais do que isso, ensinaram-lhes que importavam.
Cada motard passou tempo a sós com a sua criança. A ouvi-las. O Francisco falou ao Marcos da overdose da mãe. A Rita contou ao Joaquim do tio que a magoara. O Martim desenhou o pai falecido enquanto um motard chamado Tiago o ouvia.
Os psicólogosOs motards mostraram-lhes que, às vezes, a família não é a que nos é dada, mas a que escolhemos lutar por nós — e hoje, todas aquelas crianças sabem que nunca mais estarão sozinhas.





