Motociclistas Levaram Meu Filho com Deficiência ao Parque dos Sonhos Quando Outros Pais Disseram Que Estragaríamos o Dia6 min de lectura

**Diário de um Pai**

Os motociclistas levaram os meus filhos deficientes ao Mundo Mágico depois de outros pais dizerem para não irmos porque iríamos estragar o dia de todos. Os meus filhos, Rodrigo e Tiago, ambos em cadeiras de rodas, sonhavam há dois anos em conhecer o parque.

Dois anos a ouvir os colegas partilharem fotos e histórias enquanto ficavam em casa. Dois anos a poupar cada cêntimo que podia. Dois anos a planear um dia perfeito.

Finalmente, juntei o dinheiro. Comprei os bilhetes online. Organizei transporte adaptado. Liguei ao parque para confirmar a acessibilidade. Anunciei aos miúdos que iríamos no sábado, 14 de outubro. Eles marcaram cada dia no calendário com um grande X vermelho.

Rodrigo, de onze anos, com paralisia cerebral, treinava o seu maior sorriso ao espelho todas as manhãs. “Quero parecer feliz em todas as fotos, Pai,” dizia.

Tiago, de nove anos, com distrofia muscular, fez uma lista de todos os brinquedos que queria experimentar, mesmo os que sabia serem inacessíveis. “Posso só ver os outros a divertirem-se,” disse. “Já seria fixe.”

Na manhã marcada, publiquei no grupo de pais do Facebook, perguntando se alguém mais iria naquele dia, na esperança de que os miúdos fizessem amigos. As respostas destruíram-me.

“Por favor, reconsiderem. As filas já são grandes sem cadeiras de rodas a atrasar tudo.”
“É o aniversário da minha filha lá. Ver crianças deficientes vai perturbar o seu dia especial.”
“Não podem ir num dia para necessidades especiais? Não é justo para famílias normais.”

Uma mãe mandou mensagem privada: “Não quero ser má, mas o meu filho tem medo de cadeiras de rodas. Podem ir noutro dia?”

Chorei na casa de banho. Mostrei as mensagens ao meu marido, João. Ele esmurrou a parede do quarto e depois sentou-se na cama a chorar também.

Como explicar aos teus filhos que o mundo não os quer num parque? Como dizer-lhes que as suas cadeiras incomodam as outras famílias?

Mentimos. Dissemos que o parque estava fechado para manutenção. O rosto do Rodrigo desfez-se. O Tiago acenou em silêncio e foi para o quarto. Ouvi-o chorar atrás da porta.

Foi então que o João fez algo desesperado. Ligou ao seu velho amigo Rui, do secundário, agora num clube de motociclistas. Homens rudos que parecem assustadores mas angariam dinheiro para hospitais infantis.

“Preciso de ajuda,” o João disse ao telefone. “Os miúdos… os outros pais… só queríamos um dia bom.” Não ouvi a resposta, mas o João chorou mais. “Obrigado. Muito obrigigado.”

Três horas depois, três motas rugiram no nosso quintal. Três homens grandalhões em coletes de couro desceram. O Rui, que o João não via há dez anos, e mais dois que se apresentaram como Zé e Marco.

Eram exactamente o tipo de homens que aqueles pais do Facebook evitariam.

O Rui aproximou-se dos miúdos, que observavam pela janela. “Olá, chamo-me Rui. Estes são os meus irmãos Zé e Marco. Soubemos que queriam ir ao Mundo Mágico.”

Os olhos do Rodrigo arregalaram-se. “O pai disse que está fechado.”

O Rui olhou para mim. “Não está fechado. E vamos levar-vos. Todos nós. E se alguém tiver problemas com as vossas cadeiras, vai ter de lidar connosco.”

O Zé ajoelhou-se ao lado do Tiago. “Sabes o que é fixe num parque, miúdo? A melhor vista é da altura da cadeira. Vês coisas que os outros perdem.”

O Marco mostrou uma foto no telemóvel. “Esta é a minha filha, Leonor. Também está numa cadeira. Espinha bífida. Vai ao parque todo o mês. Diz que os funcionários tratam-na como rainha.”

“Crianças com rodas,” repetiu o Rodrigo, sorrindo pela primeira vez naquele dia. “Gosto disso.”

Carregámos as cadeiras no carro. Os três motociclistas abriram caminho. Em cada sinal vermelho, o Rui virava-se para os miúdos e fazia sinal de positivo. Eles respondiam, a rir como se já estivessem numa montanha-russa.

Na entrada do parque, sentimos os olhares. Uma família com duas crianças deficientes e três motociclistas intimidantes. Éramos tudo o que aqueles pais temiam. O Rui pagou os bilhetes antes que protestássemos. “Convite nosso,” disse. “Os vossos filhos merecem o melhor dia de sempre.”

A primeira prova foi no carrossel. Uma mulher com três filhos olhou para a cadeira do Rodrigo e disse alto ao marido: “Devíamos ter ido ao outro parque.” O Zé ouviu. Aproximou-se, com os seus dois metros e cem quilos. A mulher recuou, agarrando os filhos.

Mas o Zé só sorriu. “Senhora, aquele rapaz chama-se Rodrigo. Esperou dois anos para andar aqui. Os seus filhos são lindos. Aposto que adorariam brincar ao lado dele. Crianças não vêem cadeiras. Vêem outras crianças.”

A filha dela, de cinco anos, puxou-lhe a camisa. “Posso ir ao lado dele, mãe? A cadeira dele é verde! O verde é a minha cor favorita!”

E assim, o gelo quebrou-se. A menina brincou ao lado do Rodrigo, a falar sem parar sobre cores. O Rodrigo estava radiante. No fim, ela abraçou-o. “És o meu novo amigo!” anunciou.

O Tiago queria experimentar os chás dançantes. O funcionário hesitou. “Não sei se as cadeiras…”

O Marco interveio. “Sou fisioterapeuta. Ajudo-o a entrar. Você só tem de ligar o brinquedo.” Era mentira. O Marco era mecânico. Mas ergueu o Tiago com cuidado, como se fizesse aquilo há anos. O Rui entrou com ele para o segurar.

Ver o Tiago a girar, a rir até chorar, valeu todos os comentários cruéis. Cada olhar julgador. Era só um miúdo a divertir-se. Não um diagnóstico. Não uma cadeira. Só um menino de nove anos tonto de tanto rodopiar.

No almoço, uma segurança abordou-nos. “Senhores, houve queixas…”
“De quê?” perguntou o Zé, calmo. “Estamos com estas crianças incríveis. Não fizemos nada de mal.”

O segurança olhou para o Rodrigo e o Tiago, com as t-shirts combinando que o Rui lhes comprara. Ambos com sorrisos e ketchup na cara, a contar as suas aventuras.
“Esqueça,” disse o segurança. “Bom passeio.”

O momento que me partiu foi no barco pirata. O Tiago não podia subir a rampa. Tentou disfarçar a decepção. “Espero aqui.”

O Zé olhou para os outros. Alguma comunicação silenciosa aconteceu. Depois, virou-se para mim. “Com a sua permissão?”

Anuí, sem saber ao quê. O Zé pegou no Tiago como se pesasse nada. “Vamos, miúdo. Vais andar nisto.”

Carregou-o por três andares de escadas. As pessoas abriram caminho, algumas a tirar fotos, outras a limpar lágrimas. O Tiago agarrava-se ao pescoço do Zé, sussurrando “Obrigado, obrigado, obrigado.”

Desceram a queda de água juntos. Na foto oficial, os dois estavam encharcados, a rir como loucos. O Zé comprou cinco cópias.

Ao fim do dia, os miúdos estavam exaustos mas eufóricos. Andaram em tudo, comeramNo fim da viagem de regresso, o Tiago adormeceu abraçado ao dragão de pelúcia que o Zé lhe ganhou, e o Rodrigo segurava a foto com o Rui na montanha-russa, dizendo: “Pai, hoje foi o melhor dia da minha vida,” e eu soube, finalmente, que a bondade existe mesmo nos lugares mais inesperados.

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