**Capítulo 1: O Elevador Avariado**
A chuva em Lisboa não lava nada; só deixa a sujidade mais escorregadia. Era o que eu pensava enquanto encarava o letreiro “Avariado” colado com fita-cola nas portas de aço do elevador. Estava escrito com uma caneta permanente no verso de um folheto de pizza. Era a terceira vez este mês.
Fiquei ali, agarrado às rodas da minha cadeira, a sentir o frio húmido do rés-do-chão a infiltrar-se no peso morto das minhas pernas. O meu nome é Marco. Há três anos, era capataz numa equipa de construção, a erguer os edifícios desta cidade. Media um metro e noventa, tinha cem quilos de músculo e uma mulher que ria como os sinos da igreja num domingo de manhã.
Depois, veio o bêbado na A-1. Agora, a Sara está debaixo da terra, e eu estou nesta cadeira, a viver de subsídios de invalidez num prédio onde os canos do aquecimento fazem um barulho de tiros a noite toda.
“Merda”, murmurei, batendo com a palma da mão no apoio da cadeira.
O som ecoou nos azulejos amarelados. Tinha duas opções: esperar pelo Zé, o porteiro que cheirava a aguardente e desinteresse, ou arrastar-me pelas escadas acima, de costas. O movimento envolvia travar as rodas, puxar o rabo para o degrau e arrastar a cadeira de cinquenta quilos atrás de mim. Era humilhante. Era doloroso. Era a minha vida.
“Estás zangado outra vez.”
A voz veio das sombras debaixo da escada.
Girei a cadeira. Era o miúdo. O Leandro.
Ele morava no 3B, mesmo em frente ao meu apartamento. Não sabia muito sobre ele, além de nunca ver os pais. Era uma criança abandonada, talvez com nove ou dez anos, magro como um palito. Sempre usava o mesmo casaco cinzento, com as mangas desfiadas sobre os nós dos dedos.
“Não estou zangado, Leandro”, menti, com a voz rouca. “Só cansado. O elevador está avariado.”
Ele saiu da escuridão. Parecia pior que o habitual. A pele tinha um tom translúcido, como papel antigo. Olheiras profundas, violetas, sob os olhos. Tremia, apesar de estar vestido com várias camadas.
“O Zé só vai arranjá-lo na terça”, disse o Leandro, aproximando-se com os ténis a arrastar no chão. “Está a ver o jogo.”
“Terça”, resmunguei. “Ótimo. Maravilhoso.”
Olhei para as escadas. Pareciam o Evereste.
“Posso ajudar-te”, disse o Leandro.
Quase me ri. O miúdo parecia que um vento forte o derrubaria. “Obrigado, mas a menos que tenhas um jetpack nesse casaco, não podes.”
Ele não sorriu. Nunca sorria. Apenas me encarava com aqueles olhos pálidos e perturbadores. Cinzentos, mas não um cinzento normal—pareciam fumo preso em vidro.
“Não digo para te carregar”, sussurrou. Meteu a mão no bolso. “Digo que… posso consertar-te.”
“Sabes consertar um elevador?”
“Não”, respondeu. “Posso consertar-te a ti.”
O ar no rés-do-chão pareceu cair dez graus. O zumbido da máquina de vending parou subitamente. Por um segundo, só se ouvia a chuva a bater na porta do prédio.
“De que estás a falar, miúdo?”, perguntei, mais seco do que pretendia.
Ele aproximou-se. Abriu a mão. Estava fechada em punho.
“A minha avó”, começou, com a voz a tremer, “ela sabia coisas. Coisas antigas. Dizia que o mundo é uma balança. Se tiras algo, tens de devolver algo.”
“Leandro, estou gelado. Se queres contar uma história de fantasmas, guarda-a para o Halloween.”
“Não é uma história”, insistiu. Abriu a mão.
Na palma, estava uma moeda. Mas não era um euro ou um cêntimo. Era pesada, de um prata escuro, quase negro nas ranhuras. Não era redonda—parecia feita à mão. A superfície tinha símbolos que não reconheci—espirais e linhas que pareciam relâmpagos.
“Ela deu-me isto antes de morrer”, sussurrou o Leandro. “Chamava-lhe a Última Sorte. Dizia que todos nascem com um balde de sorte. Alguns derramam o seu. Outros… têm-no roubado.”
Olhou para as minhas pernas paralisadas.
“O teu foi roubado, Marco.”
Senti um nó na garganta. Odiava pena, especialmente de um miúdo. “Guarda isso, Leandro.”
“Eu ainda tenho um pouco”, disse, ignorando-me. “GuardeFiquei ali, segurando a moeda, e pela primeira vez em anos, senti o peso de algo maior do que a minha dor—a certeza de que, mesmo nas sombras, a luz encontra um caminho.





