Quando cheguei a casa naquela quarta-feira, a minha vizinha, Dona Carminho, estava na varanda com os braços cruzados e um olhar mais irritado que o habitual. “A tua casa faz um barulho do diabo durante o dia, Marcos!”, queixou-se. “Há alguém a gritar lá dentro.”
“Isso é impossível,” respondi, equilibrando os sacos das compras. “Vivo sozinho. E estou no trabalho o dia todo.”
Ela abanou a cabeça com força. “Pois, mas alguém está lá. Ouvi vozes ao meio-dia. Um homem. Bati à porta, mas ninguém respondeu.”
A insistência dela deixou-me desconfortável, mas forcei um sorriso. “Deve ter sido a televisão. Costumo deixá-la ligada para assustar ladrões.”
Mas, ao entrar, o ar parecia diferente—como se a casa estivesse a segurar a respiração. Deixei as compras na cozinha e percorri os quartos. Tudo estava no seu lugar. Janelas fechadas. Nenhum sinal de arrombamento. Nada fora do comum. Convenci-me de que a vizinha tinha ouvido mal e deixei o assunto de lado.
Naquela noite, mal consegui dormir.
Na manhã seguinte, depois de andar de um lado para o outro na cozinha, tomei uma decisão. Liguei ao meu chefe, disse que estava doente e fiquei em casa. Às 7h45, abri o portão da garagem, saí com o carro o suficiente para os vizinhos verem, desliguei o motor e empurrei o carro de volta para dentro. Entrei pela porta lateral, corri para o quarto e escondi-me debaixo da cama, puxando o edredão para me cobrir. O meu coração batia tão forte que temi que me denunciasse.
Os minutos arrastaram-se. O silêncio pesava sobre a casa. Por volta das 11h20, quando já duvidava da minha sanidade, ouvi o som inconfundível da porta da frente a abrir.
Lento. Cuidadoso. Familiar.
Passos atravessaram o corredor com a confiança casual de quem achava que ali pertencia. O arrastar dos sapatos no chão—um ritmo que reconhecia mas não conseguia identificar. Fiquei sem respirar.
Depois, os passos entraram no meu quarto.
Uma voz masculina—baixa, irritada—murmurou: “Sempre a deixar tudo desarrumado, Marcos…”
O sangue gelou-me nas veias.
Ele sabia o meu nome.
E a voz era estranhamente familiar.
Fiquei imóvel, petrificado, enquanto a sombra das suas pernas se movia pelo quarto—e parou ao lado da cama.
Debaixo da cama, mantive-me em silêncio, com o pó a cobrir-me a garganta a cada respiração curta. O homem mexeu nas gavetas, revirou objetos como se conhecesse cada centímetro da minha casa. A voz dele, calma mas zangada, puxava por uma memória que não conseguia alcançar.
Uma gaveta fechou-se com força. “Sempre a esconder as coisas em sítios diferentes, Marcos…”
Arrepios percorreram-me a pele. Como é que ele sabe isso?
Dirigiu-se ao armário, abrindo-o. As cabides tilintaram. Da minha posição, via apenas as suas botas—couro castanho, desgastado mas engraxado. Isto não era um ladrão apressado. Ele agia como quem regressa a casa depois de muito tempo.
Precisava de vê-lo melhor. Movi-me devagar para a borda da cama. Ele pegou numa caixa azul que eu não reconhecia, abriu-a e murmurou algo num sotaque que não identifiquei.
Foi então que o telemóvel vibrou no meu bolso.
O som foi quase impercetível, mas para mim foi como uma explosão. Ele parou. Eu prendi a respiração.
Lentamente, ele agachou-se. As botas viraram-se para a cama.
Os dedos dele apareceram, puxando o edredão para espreitar por baixo.
Rolei para o outro lado e levantei-me a correr. Ele avançou, derrubando um candeeiro enquanto eu recuava. Quando se endireitou, vi o seu rosto com clareza.
Parecia-se comigo. Não era igual—o queixo mais largo, o nariz ligeiramente torto, o cabelo mais denso—mas a semelhança era suficiente para me dar um nó no estômago. Ele olhou para mim com uma mistura de irritação e resignação.
“Não devias estar aqui,” disse com calma.
“Quem és tu?”, exigi, agarrando o candeeiro como arma.
“Chamo-me Adriano,” respondeu, levantando as mãos. “Não queria que descobrisses assim.”
“O que estás a fazer na minha casa?”
“Tenho estado aqui. Só durante o dia. Tu estás fora horas. Nunca reparas.”
O meu pulso acelerou. “Estás a viver aqui há meses?”
“Sim,” admitiu em voz baixa. “Não quis magoar-te.”
“Entraste na minha casa!”
“Não entrei à força.”
“O que é que isso quer dizer?”
Hesitou, olhando para o corredor. “Tenho uma chave.”
Um calafrio percorreu-me. “Onde arranjaste uma chave da minha casa?”
Ele engoliu em seco e respondeu com uma simplicidade devastadora. “Do teu pai.”
“O meu pai morreu quando eu tinha dezanove anos,” disse, ainda com o candeeiro na mão.
Adriano acenou. “Eu sei.”
“Então como é que ele te deu uma chave?”
Ele soltou um suspiro e sentou-se na cama, sem mostrar medo. “Porque ele também era o meu pai.”
Por momentos, as palavras não fizeram sentido. Pareciam impossíveis, como uma peça de puzzle que não encaixava. Olhei para ele, à espera de um sinal de mentira. Mas a expressão dele mantinha-se firme.
“Estás a mentir,” insisti.
“Não estou.” Abriu a caixa azul. “O teu pai deixou isto. Queria que um dia descobrisses.”
Dentro estavam cartas amarelecidas, todas escritas pelo meu pai. A primeira era dirigida não à minha mãe, mas a uma mulher chamada Elisa. Ao ler, o peito apertou-me. As cartas revelavam uma relação escondida, um filho, uma vida que o meu pai nos tinha ocultado.
Um filho chamado Adriano Mendes.
“Porque é que ele não me disse?”, murmurei.
Adriano encolheu os ombros com estranha ternura. “Talvez quisesse proteger a tua mãe. Ou a ti. As famílias são complicadas. Ele fez o que achou certo.”
“E porque vieste agora? Porque entraste às escondidas?”
Esfregou a testa. “Não devia ter sido assim. Há seis meses perdi o emprego. O meu apartamento ficou inseguro. Não tinha para onde ir. Tentei falar com familiares, mas ninguém acreditou. Esta casa… era a única coisa que me ligava a ele.”
Tentei absorver as palavras. Nada justificava o que ele fizera, mas o desespero na voz era real.
“Poderias ter falado comigo,” disse.
Adriano soltou uma risada amarga. “Aparecer à tua porta e dizer ‘Olá, sou o teu irmão que nunca soubeste que existia’? Não achei que acreditarias.”
Ficámos em silêncio tenso. A raiva deu lugar à confusão, à mágoa e a uma estranha empatia.
“Não podes ficar na minha casa,” afirmei.
“Eu sei.”
“Mas também não tens de desaparecer.” EngoliE, assim, com o tempo, descobrimos que a família pode ser encontrada nos lugares mais inesperados.





