Menina de 6 anos aproxima-se de um motociclista em silêncio e sussurra um pedido—todos param e ele percebe que não era mais só um almoço, era uma guerra.6 min de lectura

**Capítulo 1: O Silêncio do Lobo**

A gente se acostuma com o silêncio.

Isso é a primeira coisa que não te contam quando você vira um irmão. Falam da irmandade, da estrada aberta, do respeito, do perigo. Mas não falam do silêncio. É um tipo específico de quietude—aquela que suga o ar da sala no instante em que as tuas botas cruzam a porta.

Estava sentado num canto do *Café do Zé*, num trecho poeirento da estrada entre Lisboa e o Alentejo. Um daqueles lugares que cheiram a café velho, azeite frito e lixívia. Um relicário de um Portugal que aos poucos vai desaparecendo, com tinta a descascar e letreiros desbotados.

Eu ocupava muito espaço. Um metro e noventa e cinco, cento e trinta quilos de homem barbado, de colete que grita “afasta-te” para noventa e nove por cento das pessoas. Os meus patches foram ganhos com sangue e quilómetros, e o couro amaciado pelo vento e pela chuva.

Quando entrei, as conversas não só pararam—morreram.

O casal no canto deixou de se tocar, os olhos fixos nos pratos.

O camionista ao balcão engoliu o que mastigava, a mão a trepar para o bolso, instintivo.

A Dona Maria, a funcionária, uma senhora que já viu tudo, acenou-me com a cabeça. Ela sabe que dou boa gorjeta. Sabe que não estou lá para arrumar confusão. Só quero a *posta de bacalhau* e um pouco de paz.

Mas para os outros? Sou estatística. Sou ameaça. Sou um crime à espera de acontecer.

Olhava para o meu café preto, a vapor se erguendo, tentando ignorar os olhares que queimavam a minha nuca. É uma vida solitária, às vezes. Construímos uma muralha de couro e ruído para nos proteger, mas, nos momentos de silêncio, questionamo-nos se não acabámos encurralados dentro dela.

E então, o sino da porta tilintou.

O ambiente não mudou—despedaçou-se.

Não era a polícia. Não era um rival à procura de problema.

Era uma menina.

Não teria mais do que seis anos. Vestia um vestido rosa já gasto, manchado de terra e algo que podia ser sumo de uva—ou talvez sangue seco. Os sapatos estavam gastos até à sola, os atacadores amarrados em três nós diferentes.

O cabelo, uma espuma de cachos louros, parecia não ter visto uma escova há semanas.

O café ficou em silêncio absoluto. Até o zumbido do frigorífico parou.

Ela ficou na entrada, a olhar em volta. Os olhos eram grandes, azuis, aterrorizados. Parecia um veado paralisado pelos faróis de um camião, a tremer com uma energia maior do que o seu corpo frágil.

Olhou para o camionista. Olhou para o casal.

Depois, olhou para mim.

O meu sangue gelou.

Normalmente, as crianças escondem-se atrás das pernas das mães quando me veem. Choram. Apontam. Perguntam porque é que o homem parece um urso.

Esta menina não se escondeu.

Inspirou fundo, o corpo a tremer, e começou a andar.

Atravessou o chão de azulejos, passou pelo casal assustado, passou pela Dona Maria paralisada.

“Menina, não incomodes o senhor,” sussurrou a Dona Maria, a voz trémula. “Vem aqui, querida, deixa-me dar-te um leite com chocolate.”

A menina ignorou-a. Nem pestanejou.

Chegou à minha mesa. O nariz dela mal passava da borda.

Parei de respirar. Não me mexi. Não queria assustá-la, mas sabia que a minha simples existência costuma ser suficiente. Deixei as mãos em cima da mesa, visíveis, palmas para cima.

Ela olhou-me fixamente, a avaliar. Depois, enfiou a mãozinha suja no bolso e atirou um punhado de moedas para a mesa, ao lado da minha *fatia de bolo de bolacha*.

O tilintar no silêncio soou como um tiro numa biblioteca.

Uma nota de cinco euros amarfanhada. Duas moedas de cinquenta cêntimos. Um tostão de um cêntimo, brilhante.

**Capítulo 2: O Contrato**

Ela olhou-me nos olhos. O lábio inferior tremia, mas o olhar era de aço. Havia fogo ali, enterrado sob camadas de medo.

“És dos Motards?” perguntou, a voz fina e frágil.

Baixei devagar a chávena, controlando cada movimento.

“Ando com um grupo,” respondi, a voz rouca como pedras a raspar. “Porque perguntas, pequena?”

“O meu pai…” Ela hesitou, limpando o nariz com o dorso da mão. “O meu pai verdadeiro disse que vocês são monstros. Que toda a gente tem medo de vocês. Que vocês magoam as pessoas.”

O julgamento no ar era denso o suficiente para sufocar. Sentia os olhares dos outros clientes a queimar-me, à espera que eu desatasse, que o monstro saísse. Esperavam que eu gritasse, que a enxotasse.

“O que queres, criança?” perguntei, mais suave. Inclinei-me um pouco, tentando aproximar o meu mundo do dela.

Ela puxou o dinheiro amarfanhado para mim com um dedo.

“Quero contratar-te.”

Pisquei. Sob a barba, o queixo caiu levemente. Já me ofereceram dinheiro por muitas coisas—segurança, transportes, intimidação. Mas nunca por uma criança de seis anos.

“Contratar-me?”

“Cinco euros e cinquenta e um cêntimos,” sussurrou. As lágrimas caíram, limpando caminhos na sujidade do rosto. “Para me levares a casa.”

Olhei para o dinheiro. Provavelmente, as poupanças de toda a sua vida. O tostão estava polido, como se ela o tivesse esfregado para dar sorte.

“Porque precisas que eu te leve a casa?” perguntei, um nó a formar-se no estômago. “Onde está a tua mãe?”

“A mãe está em casa,” soluçou. “Mas… o homem mau também está lá.”

O ar na mesa arrefeceu dez graus. O café ficou claustrofóbico, de repente.

“Quem?” perguntei. A palavra saiu como um rosnado. Não consegui evitar.

“O padrasto,” chorou, a compostura a desfazer-se. “Está a partir coisas outra vez. Atirou a televisão. A mãe está no chão a chorar e não se levanta. Eu… não consigo fazê-lo parar.”

Olhou para mim, suplicante. As mãos tremiam.

“Preciso de um monstro,” soluçou. “Preciso de um monstro para o assustar. Por favor. Ele está a magoá-la. Disse que a ia matar.”

O silêncio no café foi ensurdecedor. Mas agora, não era medo dirigido a mim. Era horror. Era a perceção coletiva de que o mal não estava na mesa de couro—o mal estava numa casa que devia ser segura.

Olhei para a nota amarfanhada.

Olhei para o tostão.

Depois, olhei para as nódoas negras dela. Não as tinha visto a princípio, escondidas sob a sujidade. Uma marca escura no queixo. Uma marca de dedos no braço.

O meu coração batia contra as costelas, não de medo, mas de uma raiva tão quente que quase me cegou. Era a raiva antiga. A que me fez alistar nos Fuzileiros. A que me fez andar de mota.

Levantei-me.

A cadeira raspEla segurou a minha mão com força, e juntos saímos do café, sabendo que, ali, naquele momento, o medo tinha finalmente mudado de lado.

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