Sem saber que o pai da sua esposa grávida era o dono do tribunal, um marido fica ao lado da amante e ri—ri mesmo—enquanto ela chuta a barriga da esposa com tanta força que a mulher desaba no chão, agarrando a própria barriga e implorando para o bebê não morrer. A amante, de vestido vermelho justo e brincos de diamante, chuta de novo, mais forte, gritando que a esposa grávida mereceu aquilo.
O marido, aquele homem que um dia prometeu amor eterno, pega o celular e filma a esposa grávida sangrando no chão de mármore, as mãos pressionando desesperadamente a barriga inchada onde o bebê parou de se mexer. Mas o que a amante não sabe, o que o marido não consegue enxergar por causa da sua arrogância, é que o juiz sentado a três metros dali, vendo a sua esposa grávida rastejar em direção ao banco das testemunhas deixando um rastro de sangue, é o pai dela—o homem que controla aquele tribunal, todos os advogados e cada prova que tentaram esconder.
O pai da esposa grávida, com a mandíbula cerrada e o martelo tremendo na mão, não via a filha desde os seus seis anos de idade. Mas agora, vendo a vida da filha escorrer pelo chão do seu tribunal enquanto o marido dela ri, algo antigo e incontrolável desperta dentro dele.
O que acontece depois deixa a amante gritando por um perdido que nunca vai receber e o marido implorando por misericórdia ao único homem no mundo que não tem mais nenhuma para dar. Mas como é que o pai dessa esposa grávida, que perdeu a filha há vinte anos, acabou exatamente no tribunal onde a sua própria filha está sendo assassinada? E que segredo sobre o bebê da esposa grávida torna a vingança desse pai ainda mais devastadora do que qualquer um poderia imaginar?
Três horas antes, a manhã tinha começado com outro tipo de violência. Leonor Santos, grávida de sete meses e exausta, estava na cozinha da mansão que um dia achou ser a sua casa, observando o marido, Marco, arrumar uma mala. Não para uma viagem de trabalho. Para ela. Ele disse que ela tinha até meio-dia para sair. A amante, Daniela, ia se mudar para lá no mesmo dia. As mãos de Leonor tremeram enquanto segurava a bancada. Ela perguntou sobre o bebê, sobre a filha que crescia dentro dela e que ele prometera amar. Marco nem sequer olhou para ela. Disse que Daniela também estava grávida, e que aquele bebê importava mais. Disse que Leonor tinha se tornado fraca, chata e inútil.
Falou que os advogados já tinham preparado os papéis do divórcio e que ela teria sorte se conseguisse visitas supervisionadas uma vez por mês. Leonor sentiu os joelhos fraquejarem, mas não chorou. Ainda não. Já tinha chorado todas as noites desde que descobriu a traição. Chorou quando Marco começou a chegar em casa cheirando ao perfume de Daniela. Chorou quando ele parou de tocar a sua barriga para sentir a filha chutar. Chorou quando ele a mandou dormir no quarto de hóspedes porque o corpo dela, grávido, o enojava. Mas naquela manhã, parada na cozinha onde um dia assara bolos de aniversário e o beijara em manhãs de Natal, Leonor decidiu que não sairia calada.
Disse a Marco que ia lutar pela guarda, pela pensão, por metade de tudo que ele construíra durante o casamento. Isso fez a expressão dele mudar. A máscara de indiferença rachou, e por trás havia algo frio e calculista. Ele chegou perto dela, tão perto que ela sentiu o café no seu hálito, e sussurrou que, se ela ousasse enfrentá-lo no tribunal, ele faria com que ela nunca mais visse a filha.
Disse que tinha dinheiro, poder e advogados que provariam que ela era mentalmente instável. Já tinha pago um médico para testemunhar que Leonor sofria de psicose pré-natal. Então sorriu, o mesmo sorriso pelo qual ela se apaixonara seis anos antes, e avisou que a audiência seria em duas horas. Ele já tinha movido os processos de emergência. Já tinha congelado as contas conjuntas. Já tinha levado todos os pertences dela para um depósito do outro lado da cidade. O peito de Leonor apertou enquanto a sala girava ao seu redor. Ela pressionou a mão na barriga e sentiu a filha chutar fracamente, como se sentisse o desespero da mãe.
Marco saiu da cozinha e, segundos depois, Daniela entrou, vestindo um dos roupões de seda de Leonor. Serviu café na xícara favorita de Leonor e sentou-se à mesa como se fosse dona do lugar. Porque aparentemente, agora era. Daniela olhou para Leonor com olhos sem culpa, sem vergonha, apenas triunfo. Disse que Marco nunca a amara, que só casara com ela porque os investidores gostavam da imagem de um homem de família. Disse que Marco planejava largá-la desde o dia do teste positivo.
Então Daniela soltou algo que gelou o sangue de Leonor. Disse que, assim que o bebê nascesse, Marco teria a guarda total e ela, Daniela, criaria a criança como sua. A filha de Leonor chamaria Daniela de “mãe” e esqueceria que Leonor existira. Leonor encarou aquela mulher, aquela desconhecida que destruíra a sua vida, e, pela primeira vez em meses, sentiu algo mais forte que tristeza. Sentiu raiva.
Pura, ardente, inabalável raiva. Disse a Daniela que a veria no tribunal. Daniela riu, o mesmo riso de Marco, e disse que Leonor não tinha ideia com quem estava lidando. Então inclinou-se e sussurrou que faria o bebê de Leonor nascer antes da hora, de um jeito ou de outro. A ameaça pairou no ar como veneno. Leonor virou-se e saiu de casa, as mãos tremendo tanto que mal conseguia segurar as chaves do carro. Não tinha dinheiro, nem advogado, nem plano. Mas tinha algo que Marco não sabia.
Um nome. Uma memória. Um homem de cabelos prateados que ela não via desde os seis anos, mas cujo rosto nunca esquecera. O seu pai. O Juiz Eduardo Santos. O juiz de família mais poderoso do país. O homem de quem a mãe a afastara numa batalha de custódia tão violenta que virara notícia vinte e três anos atrás. A mãe de Leonor dissera que o pai não a queria, que escolhera a carreira em vez da família. Mas Leonor guardara uma foto escondida numa caixa debaixo da cama da infância.
Uma foto do pai a carregar nos ombros num parque, os dois rindo, os olhos dele cheios de um amor tão forte que queimava através da imagem. Sempre se perguntara se a mãe mentira. Agora, dirigindo até o tribunal com a filha chutando ansiosamente dentro dela, Leonor estava prestes a descobrir.
O tribunal cheirava a madeira envelhecida e medo. Leonor sentou-se sozinha na mesa da requerente, as mãos cruzadas sobre a barriga, tentando controlar a respiração. Do outro lado, Marco estava entre o advogado e Daniela, os três sussurrando e sorrindo como se estivessem num clube, não numa audiência de custódia.
A defensora pública de Leonor, uma mulher cansada com manchas de café no blazer, já dissera a verdade. Com o dinheiro e a equipa de Marco, Leonor teria sorte se conseguisse visitas supervisionadas duas vezes por mês. O oficial de justiça pediu silêncio, e o coração de Leonor quase parou. Porque a sair da sala do juiz, a toga negra flutuando atrás dele, os cabelos prateados refletindo a luz fluorescente, estava o homem da fotografia.O juiz Eduardo Santos olhou para a filha nos olhos e, com uma voz que ecoou no tribunal, declarou: “Hoje, a justiça será feita não como juiz, mas como pai”.





