Quando o carro da polícia parou de forma abrupta à entrada da comunidade fechada perto de Lisboa, o raptor já estava de bruços no chão, entre os pinheiros, com as mãos amarradas atrás das costas por um cinto de couro gasto, enquanto um guarda-florestal furioso ficava de pé sobre ele, empunhando um bastão.
O nome do raptor era Nuno.
E três anos antes, ele tinha casado com a mulher cujo bebê acabara de tentar raptar.
Nuno não se casou com Margarida por amor.
Claro que disse a todos que sim. Disse-lhe que ela era a sua alma gémea, que o próprio Deus os tinha unido sob os lustres de cristal na festa de lançamento do negócio do pai dela, em Lisboa. Disse que ela era a única pessoa que realmente o compreendia.
O que Nuno realmente via era o número de zeros na sua herança.
Margarida Alves era a única filha de António Alves, um magnata da tecnologia e logística, natural do Algarve, que mudou a sede da empresa para Lisboa para estar mais próximo do capital de risco e do agito da capital. António tinha pouco mais de cinquenta anos, corria cinco quilómetros por dia, bebia sumo verde e parecia o tipo de homem que chegaria aos noventa anos ainda a responder e-mails.
Por isso, quando morreu subitamente de um AVC na sua mansão à beira do Tejo, o choque abalou as páginas de negócios de norte a sul do país.
Quase destruiu Margarida.
Também lhe entregou, da noite para o dia, o controlo da Alves Transportes, três armazéns, uma carteira de propriedades no centro da cidade e uma conta de investimentos que podia comprar meio quarteirão em Lisboa à vista.
Nuno leu tudo isso num artigo online, enquanto estava deitado no sofá do apartamento da sua então namorada no Algarve, uma mão a percorrer o telemóvel, a outra a mexer no rótulo de uma garrafa de cerveja.
“Ela deve estar devastada”, suspirou a namorada, a ver as notícias.
Nuno só ouviu: única filha, única herdeira.
Nuno era bonito de uma forma desleixada, aquela que fica bem em selfies do Instagram: alto, corpo de ginásio, cabelo escuro sempre desarrumado o suficiente para parecer “natural”. Durante a maior parte da sua vida adulta, saltou de uma mulher rica para outra: uma dentista solitária em Braga, que pagou os seus cartões de crédito, uma corretora de imóveis divorciada no Porto, que lhe comprou relógios, uma gerente de hotel em Cascais que pagou o seu aluguer “só até ele se estabilizar”.
Ele nunca se estabilizou.
Não precisava. Em Portugal, aprendera que havia sempre outra mulher assim. Dinheiro, solidão e a necessidade de se sentir adorado eram uma combinação que ele transformara numa carreira.
Mas Margarida estava noutro nível.
A morte de António transformou-a numa princesa milionária, de repente muito sozinha numa casa enorme, fria, com vista para o rio.
Nuno comprou um bilhete de ida para Lisboa no dia seguinte.
Conheceu-a não num evento da alta sociedade, mas discretamente, num leilão de caridade no centro, onde ela apareceu de preto, olOs olhos vermelhos e o sorriso tenso de Margarida, cumprindo um compromisso que o pai assumira com um hospital infantil no Porto, foram a porta de entrada que Nuno precisava.





