CAPÍTULO 1: O LARGO CAMINHO PARA CASA
O ar dentro do avião C-130 tem sempre o mesmo cheiro. Uma mistura de óleo hidráulico, suor velho e ansiedade. Mas desta vez, pela primeira vez em dezoito meses, cheirava a esperança.
Ajustei-me no assento de rede, tentando encontrar uma posição menos desconfortável para as pernas. Os joelhos estavam arruinados — demasiadas patrulhas, demasiado peso carregado em terreno irregular. Mas a dor não importava hoje.
Estava a caminho de casa.
Não apenas em licença por duas semanas. Casa para ficar. Os meus papéis de desmobilização estavam assinados, selados e guardados no bolso da mochila. Tinha acabado com a guerra. Tinha acabado com a areia.
Olhei para a fotografia colada no interior do capacete. Era uma imagem espontânea da minha mulher, Marisa, e da nossa filha, Leonor. Na foto, Leonor estava a soprar velas num bolo de aniversário, com catorze anos. Agora, já quase fazia dezasseis.
Tinha perdido dois anos da vida dela.
— Nervoso, sargento?
Levantei os olhos. O miúdo à minha frente, um soldado novato chamado Eduardo, sorria.
— Podes dizer isso — grunhi, verificando o relógio pela centésima vez.
— Ela não sabe?
— Não — respondi, com um pequeno sorriso a romper os lábios secos. — Ninguém sabe. A Marisa pensa que ainda estou na Alemanha a tratar da papelada. A Leonor acha que só volto no Natal.
— Vai ser uma surpresa do caraças — riu-se o Eduardo.
Acenei com a cabeça, virando-me para a pequena janela do avião, embora só se vissem nuvens.
A verdade era que estava aterrorizado.
No exército, sabia quem era. Era o Sargento Pacheco. Dava ordens. Protegia os meus homens. Conhecia as regras de combate.
Mas em casa? Não tinha a certeza se ainda sabia ser “pai”.
A Leonor estava naquela idade em que tudo muda. Na última vez que falámos por vídeo, parecia distante. Calada. Respondia com monossílabos. A Marisa dizia que era “coisa de adolescente”, mas o meu instinto dizia outra coisa. A intuição de um pai é uma coisa estranha; funciona mesmo a seis mil quilómetros de distância.
O avião aterrou na base aérea três horas depois. Quando a rampa desceu e o ar húmido de Portugal me atingiu, o peito apertou-se.
Não chamei um táxi. Não liguei à Marisa. Um camarada da base veio buscar-me.
— Direto para casa? — perguntou, atirando o saco para a traseira da carrinha.
Verifiquei a hora no telemóvel. 11h45. Era terça-feira.
A Marisa estaria no trabalho. A Leonor, na escola. Escola Secundária de Cascais.
Olhei para o uniforme. Estava empoeirado, amarrotado e cheirava a avião. Devia ir para casa, tomar banho, vestir roupa civil. Devia apresentar uma versão limpa de mim mesmo.
Mas não conseguia esperar. A vontade de vê-las era física, como uma dor de fome.
— Não — disse, entrando no lugar do passageiro. — Leva-me à escola.
— Tens a certeza, homem? Pareces que acabaste de sair de uma trincheira.
— Foi exactamente o que aconteceu — respondi. — Conduz.
CAPÍTULO 2: O CORREDOR
A Escola Secundária de Cascais não tinha mudado muito desde que eu me formei, vinte anos antes. Os tijolos estavam mais escuros, as árvores mais altas, mas o ambiente era o mesmo.
Registei a entrada na secretaria. A assistente administrativa era a Dona Amélia. Já lá estava quando eu era aluno.
Ela ergueu os olhos do computador, irritada com a interrupção, mas a expressão suavizou-se assim que viu o uniforme. Reparou no distintivo no ombro, na patente no peito, na poeira nas botas.
— Posso ajudá-lo, senhor? — perguntou, num tom suave.
— Estou aqui para ver a Leonor Pacheco — disse, a voz rouca. — Sou o pai dela.
As mãos da Dona Amélia voaram para a boca. — Oh! Meu Deus. Ela sabe?
— Não, senhora. É uma surpresa.
Ela sorriu, enxugando o canto do olho. — Está a ter aulas agora. Está no refeitório, ao fundo do corredor principal, à esquerda.
— Obrigado.
— Vá buscá-la, Sargento.
Saí da secretaria e entrei no corredor principal. Durante as aulas, estava vazio, mas o murmúrio distante de centenas de adolescentes ecoava pelos cacifos.
O coração batia com tanta força que quase me doía. Já entrei em edifícios sob fogo inimigo com mais calma do que esta.
Porque estava tão nervoso? Era a minha filha. Era a minha menina.
Mas já não era uma menina. E eu tinha estado ausente muito tempo.
Dobrei a esquina em direção ao refeitório. As portas de correr estavam fechadas, mas tinham aquelas janelas estreitas com rede de aço.
Aproximei-me em silêncio. Não queria entrar a romper. Queria vê-la primeiro. Queria um segundo para me recompor, para preparar o “sorriso de pai”.
Espreitei pelo vidro.
O refeitório era um caos. Tabuleiros a bater, miúdos a gritar, comida no ar. Era uma selva.
Varri o local, procurando o seu habitual rabo-de-cavalo desalinhado.
E encontrei-a.
Estava sentada numa mesa perto da parede, junto aos caixotes do lixo. Sozinha.
Aquilo doeu. A Leonor costumava ter muitos amigos. Era a miúda extrovertida que convidava toda a gente para as festas de aniversário. Agora, estava curvada, a mexer na crosta de uma sanduíche.
Parecia isolada. Derrotada.
Estava prestes a abrir a porta quando vi o movimento.
Três raparigas. Caminhavam entre as mesas com um ritmo próprio. Conheço esse tipo de andar. Já vi em senhores da guerra e em sargentos instrutores. É o andar de quem pensa que manda no território.
Estavam a dirigir-se direitinhas à Leonor.
Parei, com a mão pairando sobre a porta. Espera, disse a mim mesmo. Talvez sejam amigas.
Mas não pareciam amigas.
A líder, uma rapariga alta com roupa cara e um rabo-de-cavalo perfeito, chegou à mesa da Leonor. Não cumprimentou. Bateu com a mão na mesa.
Vi a Leonor sobressaltar-se. Vi o medo na postura dela. Encolheu-se, tornando-se o mais pequena possível.
A segunda rapariga, à direita, pegou no tabuleiro da Leonor e, com um movimento casual, virou-o.
A pizza e o leite espalharam-se pela blusa dela.
Agarrei a maçaneta com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
O barulho do refeitório pareceu desaparecer, substituído por um zumbido surdo. Tudo o que ouvia era o sangue a rugir nos ouvidos.
A Leonor levantou-se. Estava a chorar. Via-se o brilho das lágrimas no rosto dela, mesmo àquela distância. Tentou afastar-se, agarrar a mochila e sair.
A terceira rapariga bloqueou-lhe o caminho. Agarrou a parte de trás da blusa dela.
— Não — murmurei.
A rapariga puxou. Com força.
A Leonor tropeçou para trás. As raparElas riram-se, um som cortante e cruel, enquanto eu abria a porta e entrava no refeitório com passos firmes, pronto para enfrentar o que fosse preciso para proteger a minha filha.





