Voltei Antes do Esperado e Encontrei Valentões Assustando Minha Filha – Eles Não Sabiam Que Eu Estava Lá6 min de lectura

CAPÍTULO 1: O LARGO CAMINHO PARA CASA

O ar dentro do avião C-130 tem sempre o mesmo cheiro. Uma mistura de óleo hidráulico, suor velho e ansiedade. Mas desta vez, pela primeira vez em dezoito meses, cheirava a esperança.

Ajustei-me no assento de rede, tentando encontrar uma posição menos desconfortável para as pernas. Os joelhos estavam arruinados — demasiadas patrulhas, demasiado peso carregado em terreno irregular. Mas a dor não importava hoje.

Estava a caminho de casa.

Não apenas em licença por duas semanas. Casa para ficar. Os meus papéis de desmobilização estavam assinados, selados e guardados no bolso da mochila. Tinha acabado com a guerra. Tinha acabado com a areia.

Olhei para a fotografia colada no interior do capacete. Era uma imagem espontânea da minha mulher, Marisa, e da nossa filha, Leonor. Na foto, Leonor estava a soprar velas num bolo de aniversário, com catorze anos. Agora, já quase fazia dezasseis.

Tinha perdido dois anos da vida dela.

— Nervoso, sargento?

Levantei os olhos. O miúdo à minha frente, um soldado novato chamado Eduardo, sorria.

— Podes dizer isso — grunhi, verificando o relógio pela centésima vez.

— Ela não sabe?

— Não — respondi, com um pequeno sorriso a romper os lábios secos. — Ninguém sabe. A Marisa pensa que ainda estou na Alemanha a tratar da papelada. A Leonor acha que só volto no Natal.

— Vai ser uma surpresa do caraças — riu-se o Eduardo.

Acenei com a cabeça, virando-me para a pequena janela do avião, embora só se vissem nuvens.

A verdade era que estava aterrorizado.

No exército, sabia quem era. Era o Sargento Pacheco. Dava ordens. Protegia os meus homens. Conhecia as regras de combate.

Mas em casa? Não tinha a certeza se ainda sabia ser “pai”.

A Leonor estava naquela idade em que tudo muda. Na última vez que falámos por vídeo, parecia distante. Calada. Respondia com monossílabos. A Marisa dizia que era “coisa de adolescente”, mas o meu instinto dizia outra coisa. A intuição de um pai é uma coisa estranha; funciona mesmo a seis mil quilómetros de distância.

O avião aterrou na base aérea três horas depois. Quando a rampa desceu e o ar húmido de Portugal me atingiu, o peito apertou-se.

Não chamei um táxi. Não liguei à Marisa. Um camarada da base veio buscar-me.

— Direto para casa? — perguntou, atirando o saco para a traseira da carrinha.

Verifiquei a hora no telemóvel. 11h45. Era terça-feira.

A Marisa estaria no trabalho. A Leonor, na escola. Escola Secundária de Cascais.

Olhei para o uniforme. Estava empoeirado, amarrotado e cheirava a avião. Devia ir para casa, tomar banho, vestir roupa civil. Devia apresentar uma versão limpa de mim mesmo.

Mas não conseguia esperar. A vontade de vê-las era física, como uma dor de fome.

— Não — disse, entrando no lugar do passageiro. — Leva-me à escola.

— Tens a certeza, homem? Pareces que acabaste de sair de uma trincheira.

— Foi exactamente o que aconteceu — respondi. — Conduz.

CAPÍTULO 2: O CORREDOR

A Escola Secundária de Cascais não tinha mudado muito desde que eu me formei, vinte anos antes. Os tijolos estavam mais escuros, as árvores mais altas, mas o ambiente era o mesmo.

Registei a entrada na secretaria. A assistente administrativa era a Dona Amélia. Já lá estava quando eu era aluno.

Ela ergueu os olhos do computador, irritada com a interrupção, mas a expressão suavizou-se assim que viu o uniforme. Reparou no distintivo no ombro, na patente no peito, na poeira nas botas.

— Posso ajudá-lo, senhor? — perguntou, num tom suave.

— Estou aqui para ver a Leonor Pacheco — disse, a voz rouca. — Sou o pai dela.

As mãos da Dona Amélia voaram para a boca. — Oh! Meu Deus. Ela sabe?

— Não, senhora. É uma surpresa.

Ela sorriu, enxugando o canto do olho. — Está a ter aulas agora. Está no refeitório, ao fundo do corredor principal, à esquerda.

— Obrigado.

— Vá buscá-la, Sargento.

Saí da secretaria e entrei no corredor principal. Durante as aulas, estava vazio, mas o murmúrio distante de centenas de adolescentes ecoava pelos cacifos.

O coração batia com tanta força que quase me doía. Já entrei em edifícios sob fogo inimigo com mais calma do que esta.

Porque estava tão nervoso? Era a minha filha. Era a minha menina.

Mas já não era uma menina. E eu tinha estado ausente muito tempo.

Dobrei a esquina em direção ao refeitório. As portas de correr estavam fechadas, mas tinham aquelas janelas estreitas com rede de aço.

Aproximei-me em silêncio. Não queria entrar a romper. Queria vê-la primeiro. Queria um segundo para me recompor, para preparar o “sorriso de pai”.

Espreitei pelo vidro.

O refeitório era um caos. Tabuleiros a bater, miúdos a gritar, comida no ar. Era uma selva.

Varri o local, procurando o seu habitual rabo-de-cavalo desalinhado.

E encontrei-a.

Estava sentada numa mesa perto da parede, junto aos caixotes do lixo. Sozinha.

Aquilo doeu. A Leonor costumava ter muitos amigos. Era a miúda extrovertida que convidava toda a gente para as festas de aniversário. Agora, estava curvada, a mexer na crosta de uma sanduíche.

Parecia isolada. Derrotada.

Estava prestes a abrir a porta quando vi o movimento.

Três raparigas. Caminhavam entre as mesas com um ritmo próprio. Conheço esse tipo de andar. Já vi em senhores da guerra e em sargentos instrutores. É o andar de quem pensa que manda no território.

Estavam a dirigir-se direitinhas à Leonor.

Parei, com a mão pairando sobre a porta. Espera, disse a mim mesmo. Talvez sejam amigas.

Mas não pareciam amigas.

A líder, uma rapariga alta com roupa cara e um rabo-de-cavalo perfeito, chegou à mesa da Leonor. Não cumprimentou. Bateu com a mão na mesa.

Vi a Leonor sobressaltar-se. Vi o medo na postura dela. Encolheu-se, tornando-se o mais pequena possível.

A segunda rapariga, à direita, pegou no tabuleiro da Leonor e, com um movimento casual, virou-o.

A pizza e o leite espalharam-se pela blusa dela.

Agarrei a maçaneta com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

O barulho do refeitório pareceu desaparecer, substituído por um zumbido surdo. Tudo o que ouvia era o sangue a rugir nos ouvidos.

A Leonor levantou-se. Estava a chorar. Via-se o brilho das lágrimas no rosto dela, mesmo àquela distância. Tentou afastar-se, agarrar a mochila e sair.

A terceira rapariga bloqueou-lhe o caminho. Agarrou a parte de trás da blusa dela.

— Não — murmurei.

A rapariga puxou. Com força.

A Leonor tropeçou para trás. As raparElas riram-se, um som cortante e cruel, enquanto eu abria a porta e entrava no refeitório com passos firmes, pronto para enfrentar o que fosse preciso para proteger a minha filha.

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