A Professora Rasgou a Nota Perfeita da Minha Filha e se Arrependeu ao Ver Minha Identificação3 min de lectura

**Capítulo 1: A Máscara**

Alguma vez sentiste o cheiro de três dias dentro de uma carrinha de vigilância? Cheira a café requentado, pizza fria e ansiedade.

O meu nome é João. Para o mundo, ou pelo menos para a parte da cidade onde me infiltrava, eu era o “Jota”, um entregador de baixo escalão de uma rede de distribuição em Lisboa. Não me barbeava há uma semana. Tinha uma tatuagem falsa no pescoço que arranhava contra o colarinho. Os meus nós dos dedos estavam esfolados, e o cheiro a cigarros baratos grudava-se a mim, mesmo sem fumar.

Mas, para uma pessoa, eu era apenas o Pai.

O telemóvel vibrou na minha perna. Era um toque que parecia uma tábua de salvação no silêncio da carrinha. Olhei para o ecrã, protegendo a luz com a mão.

Era a escola. A Escola Básica do Vale das Cerejas.

«Senhor Silva? Fala a secretária do Diretor Carmo. Precisamos que venha à escola imediatamente. É acerca da sua filha, Leonor.»

O coração parou. No meu trabalho, uma chamada geralmente significa que alguém morreu ou foi preso. «Ela está bem?» A minha voz saiu rouca por falta de uso.

«Fisicamente, sim», disse a secretária, com aquele tom de julgamento suburbano. «Mas houve um incidente… envolvendo desonestidade académica.»

Desonestidade académica? A Leonor?

A minha miúda fica em pânico se se atrasa a devolver um livro da biblioteca. Passa os fins de semana a organizar os marcadores por tonalidade. Não é capaz de copiar. Esforça-se mais do que qualquer miúdo que eu conheça porque sabe que o pai nem sempre está lá para ajudar.

«Já vou a caminho», grunhi.

Não tinha tempo para me mudar. Nem para tomar banho. Não conseguia limpar o «Jota» da minha pele. Tinha de ir assim mesmo.

Estacionei o meu carro velho – um Chevrolet que parecia uma lata de sardinha com escape furado – em frente à escola impecável. Vi os pais nos seus SUVs reluzentes a olharem para mim. Viram um homem de sweatshirt manchada, calças rasgadas e botas militares a sair de um carro que parecia um trator. Viram uma ameaça.

Ignorei-os. Entrei na secretaria e o silêncio foi instantâneo. O ar condicionado zumbia. A secretária ajustou os óculos, examinando-me das botas sujas ao cabelo oleoso.

«Senhor… Silva?», gaguejou.

«Onde ela está?», perguntei. Não tinha tempo para rodeios.

«Sala 302. Turma da Professora Braga. Estão a… discutir o assunto agora.»

Virei-me e marchei pelo corredor. O chão de linóleo rangeu sob as minhas botas. As cacifos enfileirados pareciam sentinelas mudas. Senti o peso do distintivo escondido no cinto, pressionando-me as costas. Era a única coisa limpa em mim. A única coisa que me separava dos criminosos que perseguia.

Cheguei à porta da sala 302. Estava entreaberta.

Não entrei a arrombar. Os velhos hábitos não morrem. Primeiro, ouvi.

«Achas mesmo que eu acredito nisto, Leonor?»

A voz era aguda. A Professora Braga. Conhecia o tipo. Aquele género de professora que atingiu o auge no secundário e agora transformava a sala de aula num reino. Andava a implicar com a Leonor o ano todo, com comentários sobre a roupa dela, o lanche, a timidez.

«Eu estudei, professora. Juro», a voz da Leonor era pequena, trémula. Partia-me o coração.

«Pessoas como tu não tiram 100% nos meus testes de matemática avançada, Leonor», a Braga riscou as palavras como uma faca. «Eu vi o teu pai a deixar-te na escola na semana passada. Sei que tipo de… ambiente… tens em casa. Todos sabemos.»

O sangue gelou-me nas veias. A temperatura no corredor pareceu cair dez graus.

«Ele ajuda-me a estudar», sussurrou a Leonor.

«Esse homem?» A Braga riu-se. Um som seco e cruel. «Esse homem parece mal saber ler uma ementa, quanto mais ensinar álgebra. Colaste. AdmitE no fim, o distintivo que eu tanto escondi tornou-se a única coisa que nos manteve a salvo, provando que até nas sombras mais sujas, a honestidade ainda brilha.

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