A Jovem Rica Não Andava… Até Que Uma Menina de Rua Fez o Impossível6 min de lectura

Mariano piscou várias vezes, achando que estava vendo coisas. A garotinha, pobre, magrinha, com os pés descalços e o vestido rasgado, segurou a mão da bebê morena com tanto cuidado que a pequena, depois de três meses sem mexer as pernas, levantou da cadeira pela primeira vez. O Jardim da Estrela ficou em silêncio, o pai ficou parado, sem respirar.

A menina tremia, mas ficou em pé. E enquanto Mariano chorava sem entender, a desconhecida sorriu e disse baixinho: “Eu disse que ela conseguia.” O que ele não sabia era que aquele encontro no parque ia mudar sua vida para sempre.

Mariano Alves era daqueles homens que todo mundo olhava e pensava: “Esse sujeito tem tudo.” Bilionário, dono da maior empresa de tecnologia de Lisboa, casado com Leonor, uma neurocirurgiã brilhante. Mas se você olhasse nos olhos dele naquela manhã de outono, veria só desespero. Nos braços, segurava Sofia, sua filha de quatro anos, com um sorrizinho que iluminava qualquer lugar. Mas Sofia não mexia as pernas há três meses. Uma doença rara tinha tirado dela a chance de brincar, de correr, de ser criança.

“Papá, por que a gente tá indo pro hospital de novo?” Sofia perguntou com aquela voz que partia o coração de Mariano. “É rapidinho, flor. Depois a gente come um pastel de nata, tá bom?” Mentira. Sabia que não ia ter pastel. Ia ter mais exames, mais médicos sacudindo a cabeça, mais olhares de pena. Leonor já tinha ido a 22 especialistas. Vinte e duas vezes ouviram a mesma coisa: “É irreversível.”

Enquanto empurrava a cadeirinha de rodas de Sofia pelo Jardim da Estrela, Mariano sentiu as lágrimas queimando. Como um homem que construiu um império do zero, que nunca aceitou um não como resposta, podia se render assim? Foi quando ela apareceu.

Uma menina magrinha, descalça, roupa velha, cabelo embaraçado. Devia ter uns sete, oito anos. Chegou perto devagar, olhando fixo pra Sofia.

“Senhor, posso dizer uma coisa?”

Mariano quase ignorou. Lisboa tem tantas crianças pedindo moedas. Mas algo no olhar daquela menina o fez parar. Havia uma sabedoria ali, uma coisa que não combinava com a idade.

“O que foi, menina?”

“A sua bebê… ela não mexe as perninhas, pois não?”

O coração de Mariano gelou. “Como você sabe?”

“Eu sei de coisas. A minha avó me ensinou antes de ir pro céu. Ela era curandeira lá na Serra da Estrela.”

A menina se agachou na frente de Sofia. “Posso ver a tua mãozinha?” Sofia, sempre curiosa, estendeu a mão. A menina tocou nos dedinhos dela, depois nos pulsos, depois passou a mão pelos bracinhos, fechou os olhos.

“A energia dela tá toda parada aqui.” Apontou pra base da coluna de Sofia. “É como um rio seco, mas dá pra fazer a água voltar a correr.”

Mariano sentiu uma mistura de esperança e dúvida. “Você é médica? Fisioterapeuta?”

A menina riu, mas era um riso triste. “Não, senhor, eu nem sei ler direito. Mas a minha avó curava gente. Me ensinou desde pequenina. Ela dizia que os antigos sabiam coisas que os doutores esqueceram.”

“Qual é o teu nome?”

“Inês. Inês Ribeiro.”

Algo naquele momento mudou tudo. Talvez fosse o desespero. Talvez a fé que Mariano nem sabia que ainda tinha. Ele olhou pra Sofia, que sorria pra Inês, coisa que não fazia há meses.

“Inês, você quer tentar ajudar a minha filha?”

Leonor achou que o marido tinha enlouquecido. “Mariano, pelo amor de Deus, uma menina de rua que diz fazer curas? Tás a gozar?” Estavam na sala da mansão deles em Cascais. Sofia dormia no quarto ao lado, Inês sentada timidamente no sofá mais caro que já vira na vida.

“Leonor, escuta. Só deixa ela explicar. Se não fizer sentido, mandamos embora.”

Leonor cruzou os braços, com aquela cara de médica cética que Mariano conhecia bem. “Diz lá, menina.”

Inês se levantou, nervosa. “Doutora, a minha avó dizia que o corpo é como um fado. Quando um instrumento pára, a música não sai direito. A Sofia, o problema dela não tá só nas pernas, tá no cérebro, que esqueceu como mandar a ordem.”

Leonor levantou uma sobrancelha. A menina estava descrevendo, com palavras simples, neuroplasticidade. “E como você pretende ensinar o cérebro dela?”

“Com cheiros, toques, sons diferentes. Tem que acordar a mente dela dum jeito que os remédios não conseguem.”

Leonor ficou calada um bom tempo. Sabia que estimulação sensorial era usada em reabilitação, mas os médicos tinham dito que o caso de Sofia era irreversível.

“Uma tentativa,” Leonor disse por fim. “Supervisionada. Se eu ver qualquer sinal de piora, acaba na hora.”

Inês sorriu, e naquele sorrizinho falta-dente havia mais sabedoria do que em todos os livros de medicina.

A primeira sessão foi estranha. Inês espalhou alecrim pelo quarto, acendeu um incenso, trouxe cascas de árvore que faziam barulhos suaves, e começou a massagear os pezinhos de Sofia com um óleo que ela mesma tinha feito, cheirando a campo depois da chuva.

“Sofinha, fecha os olhos. Pensa numa coisa boa. Pastel de nata. Consegues sentir o gosto?” Sofia riu. “Consigo.” “Agora imagina que estás a correr atrás do pasteleiro, com as perninhas fortes, a correr, a correr…”

Enquanto falava, Inês pressionava pontos nos pés, nas pernas, nas costas de Sofia. Leonor observava tudo. Aqueles pontos pareciam os da acupressão. A menina estava fazendo terapia integrativa sem nem saber o nome.

Quinze minutos depois, aconteceu. O dedinho do pé direito de Sofia mexeu. Quase imperceptível, mas todos viram. Mariano engasgou. Leonor arregalou os olhos. Inês só sorriu, como se esperasse aquilo.

“Pronto. O rio começou a correr.”

Nas semanas seguintes, as sessões viraram rotina. Inês ia todo dia à mansão, e Mariano insistiu que ela ficasse num quarto de hóspedes, mas ela tinha medo de estragar as coisas e preferia voltar pro abrigo onde morava.

A evolução de Sofia era assustadora. Na segunda semana, mexia todos os dedos. Na terceira, dobrou o joelho. Na quarta, Leonor viu atividade elétrica nos músculos que estavam parados.

“Isso não deveria ser possível,” ela murmurava, vendo os exames. Mas estava acontecendo.

Inês mudava as técnicas. Um dia usava fado, outro dia fazia Sofia tocar em tecidos diferentes – seda, lã, madeira. Contava histórias da sua avó Alda, que curava gente na serra com sabedoria passada por gerações.

“A minha avó dizia que a gente cura com as mãos, mas também com o coração. Tem que acreditar, senão não funciona.”

Mariano começou a acreditar quando, no fim do segundo mês, Sofia o chamou:

“Papá, olha!”

Ele subiu as escadas a correr. Quando entrou no quarto, Sofia estava na cama, mexendo as perninhas pra cima e pra baixo, rindo, rindo, rindo.

Mariano caiu de joelhos e chorou como não chorava desde criança.

Mas nem tudo eram rosas. O Dr. Mário, chefe de neurologia do hospital onde Leonor trabalhavaO Dr. Mário descobriu sobre Inês e ficou furioso, mas quando viu Sofia andando pelo corredor do hospital, sem a cadeira de rodas, ficou em silêncio, e anos depois, ele próprio tornou-se um dos maiores defensores do Centro de Cura Integrativa Alda Ribeiro, onde medicina e tradição trabalhavam juntas para salvar vidas.

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