Na cozinha da vizinha idosa, um empresário milionário encontra o seu filho de 7 anos devorando uma sopa como se não tivesse comido há dias. E a criança estava realmente faminta, muito magra, irreconhecível. “Por favor, não digas ao pai que eu vim aqui. Se disseres, ela não me deixa sair do quarto nunca mais”, sussurra o menino desesperado. O que o pai descobriu sobre a madrasta durante a sua viagem de negócios deixaria qualquer um em estado de choque.
A limusine preta deslizou silenciosamente pelas ruas de pedra de Lapa, as janelas polarizadas refletindo o brilho dourado do pôr do sol em Lisboa. Duarte Mendes ajustou a gravata italiana enquanto revisava os últimos relatórios da sua empresa tecnológica no tablet. Três semanas em Singapura, fechando o contrato mais importante da sua carreira, tinham valido a pena, mas agora só queria chegar a casa e abraçar o Tiago, o seu filho de 7 anos.
“Senhor Duarte, chegamos em 5 minutos”, murmurou Rui, o seu motorista de confiança, que trabalhava para a família há anos. “Obrigado, Rui. Tens notícias da casa enquanto estive fora?”, perguntou Duarte, guardando o tablet na pasta de couro. Rui hesitou um momento, os seus olhos encontrando os de Duarte no espelho retrovisor. “Tudo tranquilo, patrão. A Dona Isabela tem estado ocupada com os seus eventos beneficentes.” Algo no tom de Rui fez Duarte franzir a testa. Mas antes que pudesse perguntar mais, a limusine parou em frente à imponente mansão de estilo colonial em Cascais.
Os muros de pedra brilhavam sob as luzes do jardim, e as fontes de azulejos cantavam a sua melodia noturna. Duarte respirou fundo, inspirando o aroma familiar das laranjeiras que bordejavam a entrada principal. “O Tiago estará acordado?”, perguntou, consultando o seu relógio Patek Philippe. “São apenas 7 da noite, patrão. As crianças da idade dele…” Rui não terminou a frase. Os seus olhos tinham-se fixado em algo que acontecia na casa ao lado, a residência dos Sousa, uma família de comerciantes que sempre foram bons vizinhos.
Duarte seguiu o olhar do seu motorista e sentiu o ar faltar-lhe nos pulmões. Ali, no alpendre iluminado da casa vizinha, estava o Tiago. O seu pequeno filho, com o cabelo escuro despenteado e os olhos castanhos tão parecidos com os seus, estava sentado nos degraus ao lado da Dona Rosa. Mas não era a localização que o paralisou, mas sim o estado do menino. O Tiago vestia uma camisola às riscas demasiado grande para o seu corpinho, agora visivelmente mais magro do que Duarte se lembrava.
As suas calças de ganga pendiam soltas e tinha nas mãos uma tijela de barro que segurava com uma urgência que fez o estômago de Duarte revirar. “Meu Deus”, murmurou Duarte, saindo da limusine antes que Rui pudesse abrir a porta. A Dona Rosa, uma mulher robusta de meia-idade com o cabelo grisalho apanhado num carrapito tradicional, ergueu o olhar ao ouvir os passos apressados de Duarte. A sua expressão transformou-se imediatamente de carinho materno em preocupação evidente.
“Senhor Duarte”, disse a mulher, levantando-se rapidamente. “Não sabíamos que tinha regressado.” O Tiago ergueu a cabeça ao ouvir a voz do pai. Os seus olhos, que antes brilhavam com a alegria típica de um menino da sua idade, agora mostravam uma mistura de alívio e algo que Duarte não conseguiu identificar de imediato. “Vergonha, medo”, murmurava o Tiago, tentando esconder a tijela atrás das costas. Duarte ajoelhou-se diante do filho, os seus sapatos italianos roçando os azulejos do alpendre.
Com mãos trémulas, pegou no rosto do Tiago entre as palmas. A pele do menino parecia mais fria que o normal e as suas faces, antes rechonchudas, agora mostravam os ossos da face de uma maneira que não era natural numa criança de 7 anos. “Meu menino, o que estás a fazer aqui? Onde está a Isabela?”, perguntou Duarte, a voz carregada de uma mistura de confusão e alarme crescente. A Dona Rosa pigarreou, olhando nervosamente para a mansão dos Mendes.
“Senhor Duarte, o menino veio aqui há umas horas. Estava com fome.” “Fome.” A palavra saiu como um rugido abafado da garganta de Duarte. “O que quer dizer com que ele estava com fome?” O Tiago baixou a cabeça, os seus pequenos dedos a brincar com a borda da camisola. “A tia Isabela disse que não havia comida suficiente para o jantar, que eu tinha de esperar até amanhã.” O mundo de Duarte girou. A tia Isabela, como tinham ensinado o Tiago a chamar à sua madrastra, era quem supostamente cuidava dele durante as suas viagens de negócios.
A mulher que conquistara o seu coração dois anos antes com a sua beleza refinada e aparente devoção ao Tiago. “Há quanto tempo não comes, filho?”, perguntou Duarte, a voz quase inaudível. O Tiago olhou para a Dona Rosa como se pedisse permissão para falar. A mulher acenou com gentileza, acariciando a cabeça do menino. “Desde ontem de manhã”, sussurrou o Tiago. “Só me deu um pouco de água e disse-me para ficar no meu quarto.” Duarte sentiu o sangue agolpar-se-lhe na cabeça. 24 horas. O seu filho tinha estado sem comer durante 24 horas numa casa onde o frigorífico estava sempre cheio, onde a despensa tinha provisões para alimentar uma dúzia de pessoas.
“Dona Rosa”, disse Duarte, levantando-se, “Já viu isto antes?” A mulher trocou um olhar com o marido, que acabara de aparecer à porta. O Senhor Joaquim Sousa, um homem de compleição robusta com bigode grisalho, havia conhecido a família Mendes desde que se mudaram para o bairro. “Senhor Duarte”, começou o Senhor Joaquim com voz calma, “Não queríamos intrometer-nos em assuntos familiares, mas o menino tem vindo cá a casa várias vezes nas últimas semanas.” “Várias vezes.” Duarte sentiu as pernas fraquejarem. “Sempre com fome”, acrescentou a Dona Rosa suavemente. “E sempre quando a Dona Isabela saía para os seus eventos sociais.”
Duarte olhou para a sua mansão, onde as janelas do primeiro andar brilhavam com luz cálida. Em algum lugar daquela casa estava a Isabela, provavelmente a preparar-se para mais um dos seus galas beneficentes, enquanto o seu filho mendigava comida aos vizinhos. “Tiago”, disse Duarte, voltando-se para o filho, “Quero que acabes de comer. Depois vamos a um sítio onde possamos conversar em paz.” O menino acenou, levando a tijela novamente aos lábios. Duarte reparou então no conteúdo. Um caldo de galinha caseiro com legumes, arroz e pedaços de abacate. Comida simples mas nutritiva, exatamente o que uma criança precisava. O seu filho bebia o caldo com a desesperança de alguém que não sabia quando seria a próxima refeição.
“Dona Rosa, Senhor Joaquim”, disse Duarte, tirando a carteira. “Não precisamos de dinheiro, Senhor Duarte”, recusou a Dona Rosa com firmeza. “O que precisamos é saber que este menino está seguro.” Duarte guardou a carteira, entendendo a mensagem. Os seus vizinhos não só tinham alimentado o Tiago, como tinham sido testemunhas de algo que ele, absorto nos negócios, tinha ignorado completamente. “Posso perguntar-vos, notaramDuarte abraçou o Tiago com lágrimas nos olhos, jurando a si mesmo que nunca mais deixaria que o seu filho sentisse fome ou medo, e naquele momento percebeu que a verdadeira riqueza da vida estava naquele pequeno coração que batia contra o seu.





