Pensaram que ela era presa fácil. Não sabiam com quem estavam mexendo.5 min de lectura

*5 de Novembro, 2023*

O chuvisco em Lisboa não limpa nada, só deixa a suavidade mais escorregadia. Estacionei o meu velho Opel Corsa de 2004, o motor a tremer como a minha mão esquerda. Os limpa-para-brisas batiam num ritmo cansado. Tic-tac. Tic-tac. O metrónomo da minha enxaqueca.

Odeio a fila da escola. É um campo de batalha para o qual nunca fui treinado. Nas forças especiais, sabes quem é o inimigo. Conheces as regras. Aqui, na Escola Básica do Vale do Lobo, os inimigos vestem leggings de marca e conduzem SUVs brilhantes, e a guerra é psicológica.

Olhei para o espelho retrovisor. Os meus olhos pareciam cansados. A cicatriz que me corta da mandíbula à orelha ficou mais roxa com o frio. Ajustei o meu gorro de lã. *Mantém a cabeça baixa, Rui. Busca a Maria. Vai para casa. Não causes problemas.*

Era o mantra que a minha psicóloga me dera. Reintegrar-se é evitar conflitos.

O toque da campainha ecoou. Uma enxurrada de mochilas e casacos coloridos invadiu o pátio. Procurei-a no meio da multidão. Os velhos hábitos não morrem. Não a procurava como um pai normal—procurava ameaças.

Setor um, limpo. Setor dois, limpo.

Então, vi-a.

Maria. A minha menina. Doze anos, mas pequena para a idade, com os olhos da mãe e o meu queixo teimoso. Mas não caminhava como sempre. Arrastava os pés. Ombros curvados, cabeça baixa, a olhar para o chão molhado.

Andava sozinha. Os colegas desviavam-se dela como se tivesse uma doença.

E depois, ao contornar uma poça, vi.

O ar faltou-me. O carro ficou sem oxigénio, como se estivesse no alto de uma montanha.

Colado às costas do seu casaco cor-de-rosa, um papel de linhas, amarfanhado pela humidade. Em letras grossas e tortas, duas palavras:

*LIXO HUMANO.*

O mundo ficou em silêncio. A chuva, o motor do carro, a rádio—tudo desapareceu. Só ouvia o sangue a correr-me nos ouvidos, como o mar antes de uma tempestade.

Três rapazes caminhavam atrás dela. Apontavam, riam-se. Nem se escondiam.

Dois professores estavam ao abrigo da chuva, debaixo do alpendre. Um mexia no telemóvel. O outro olhava diretamente para Maria. Para o papel.

Não fez nada. Limitou-se a beber um gole do seu café e virou a cara.

Agarrei a maçaneta. O metal estava gelado.

*Desescalar*, sussurrou uma voz na minha cabeça.

*Neutralizar a ameaça*, gritou a outra. A voz que me mantivera vivo no Afeganistão.

Abri a porta.

***

Saí para a chuva. Nem senti o frio. As minhas botas bateram no alcatrão com um baque pesado.

Não corri. Nunca se corre, a menos que estejam a disparar. Move-se com propósito. Move-se como um predador.

Fechei a porta do carro. Não bati. Um clique suave. Tudo controlado. Se perdesse o controlo agora, assustaria a Maria.

Passei por uma fila de carros caros. Uma mulher num Mercedes branco buzinou-me. Olhei para ela através do vidro. Só por um segundo.

A mão dela congelou na buzina. Olhou para os meus olhos—mortos, planos, como os de um tubarão—e trancou as portas. *Espertinha.*

Cheguei ao passeio. Os miúdos sentiram a mudança de pressão. O riso atrás da Maria morreu, substituído por murmúrios. Não usava farda. Estava de jeans e camisola, mas a postura conta mais que a roupa.

Dirigi-me a ela.

Ela sentiu alguém atrás e encolheu-se.

“Maria,” disse, a voz rouca mas suave.

Ela virou-se devagar, os olhos cheios de medo. Ao reconhecer-me, quebrou-se. O lábio inferior tremia, as lágrimas misturavam-se com a chuva.

“Pai?” sussurrou. “Podemos ir? Por favor, vamos embora.”

Ela não sabia do papel. Só sabia que riam dela, e não sabia porquê.

Ajoelhei. O alcatrão molhado encharcou os meus jeans. Olhei-a nos olhos. Segurei-lhe os ombros com cuidado.

“Um minuto, princesa.”

Virei-a devagar.

Os três rapazes que riam estavam a uns metros. Grandes, da equipa de futebol, confiantes. Olharam para mim, irritados por termos interrompido a diversão, mas ainda sem medo.

Arranquei o papel das costas dela.

*Rasg.*

O som ecoou.

Mostrei-o. A tinta escorria, fazendo a palavra *LIXO* parecer sangrar.

Levantei-me. Tenho um metro e oitenta e cinco. Virei-me para os rapazes.

“Quem fez isto?” perguntei.

Silêncio.

O líder, um miúdo louro com um relógio caro, sorriu. “Talvez ela própria. Até combina.”

Os outros riram-se.

A professora decidiu intervir. Aproximou-se, saltos a bater no chão.

“Senhor! Não pode estar aqui. Volte para o carro. Está a atrapalhar.”

Não a olhei. Mantive os olhos no rapaz louro. Memorizei o rosto. O emblema do casaco: *Leões do Vale.*

“Senhor!” repetiu, mais alto, pondo a mão no meu braço.

*Má ideia.*

Não a empurrei. Só olhei para a mão dela no meu braço, depois para o seu rosto.

Foi o olhar de quem viu coisas que partiriam a realidade dela. O olhar que diz: *Sou um animal perigoso, e estás a tocar-me.*

Ela puxou a mão como se tivesse tocado em algo quente.

“Isto,” mostrei o papel, a voz baixa e sem emoção, “esteve nas costas da minha filha. E a senhora viu.”

“Eu… não reparei…”

“Reparou. E não fez nada. O que a torna pior do que eles.”

Olhei de novo para os rapazes. O sorriso do louro desaparecera. Estava a olhar para as minhas mãos. Os meus nós dos dedos estavam brancos de tanto apertar o papel.

“Fim de jogo,” murmurei.

Agarrei a mão da Maria. “Vamos, meu amor.”

Caminhámos em silêncio. O mar de pais e alunos abriu caminho. Sentia os olhos a julgar o meu carro velho, a cicatriz. Pensavam que eram reis nesta terra.

Liguei o motor. Ao afastar-nos, olhei uma última vez pelo retrovisor. O rapaz louro ria-se de novo, dando high-fives aos amigos.

Pensava que tinha ganho. Pensava que eu era só mais um pai pobre, impotente, que iria para casa chorar.

Toquei na bandeira portuguesa dobrada que guardava no porta-luvas.

Eles não sabiam. A missão não terminara quando me reformei. Só mudara de cenário.

E eu nunca perco.

***

*Lição do dia: No silêncio, há força. Mas às vezes, o rugido é necessário. Seja qual for a batalha, nunca deixes que definam o teu valor—ou o daqueles que amas.*

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