**Capítulo 1: O Alvo**
Contei as rachaduras no chão de linóleo da cantina, segurando a respiração.
Um, dois, três.
Se não levantasse os olhos, talvez não me vissem. Era a regra que eu seguia no Liceu Dom João II. Ser invisível. Ser um fantasma. Manter a cabeça baixa, fazer o trabalho e sair. Mas hoje, o universo tinha outros planos. Uma sombra cobriu a minha bandeja, bloqueando a luz fluorescente e deixando a minha pizza morna ainda mais fria.
“Olá, Einstein.”
A voz era baixa, carregada daquele tom falso e casual que sempre precedia violência. Era o Tiago. Claro que era o Tiago. O capitão da equipa de futebol, o rei dos corredores e o tipo que decidiu que a minha vida seria um inferno desde o dia em que me transferi há três meses. Cheirava a perfume caro e a direito adquirido.
Não respondi. Apenas agarrei o meu livro de Matemática A com mais força, os nós dos dedos brancos contra a capa. Tentei focar-me nos números, nas derivadas e integrais, na lógica que fazia sentido num mundo que não fazia.
“Estou a falar contigo,” rosnou o Tiago, batendo com a mão calejada na mesa.
O pacote de leite pulou, derramando algumas gotas. A cantina, normalmente barulhenta, ficou em silêncio à nossa volta. As pessoas adoram um espetáculo, desde que não sejam elas no centro. Senti os olhos das animadoras, dos nerds e dos desenrascados voltarem-se para nós.
“Só quero almoçar, Tiago,” murmurei, finalmente erguendo os olhos. A minha voz soou fraca, estranha na minha própria garganta.
Ele sorriu, olhando para os capangas—o João e o Miguel—que riam como hienas atrás dele. Eram cópias dele, só que com menos neurónios e mais agressividade. “Ouviste? Ele só quer almoçar. Mas sabes o que eu acho? Acho que pensas demais. Tantos livros… fazem mal aos olhos.”
Antes que eu reagisse, o João arrancou-me o livro das mãos. O papel rasgou-se ligeiramente.
“Devolve,” disse, a voz a tremer. Não de medo—apesar de haver muito—mas de uma raiva reprimida que não podia libertar. Ainda não. Não podia revelar quem realmente era.
“Queres isto?” provocou o João, segurando-o alto. “Vai buscá-lo.”
Atirou-o pelo corredor. O livro girou no ar e aterrou com um baque surdo no caixote do lixo perto da saída. O plástico rangeu enquanto o meu futuro—os meus apontamentos, os códigos que decifrei—afundava entre restos de bifanas e cascas de maçã.
O Tiago aproximou-se, invadindo o meu espaço. “Não precisas de estudar. Onde vais parar, ninguém lê. És um zero à esquerda nesta escola.”
A mesa explodiu em gargalhadas. Um som cortante, cruel. Levantei-me, a cadeira a ranger no chão. As minhas mãos tremiam. Caminhei até ao caixote, o rosto a arder. A humilhação era um suor frio na minha nuca.
Estendi a mão para o caixote. Tinha de recuperar aquele livro. Não era só trabalho lá dentro.
**Capítulo 2: A Falha**
A minha mão estava a centímetros do caixote quando o mundo desmoronou.
*CRASH.*
As portas duplas da cantina não se abriram—explodiram para dentro, batendo contra os batentes com a força de um comboio.
“TODOS NO CHÃO! MÃOS À VISTA! AGORA!”
O berro foi gutural, amplificado por um megafone. Não era o diretor com uma advertência. Não era o guarda escolar.
Era uma equipa tática.
Coletes à prova de bala. Capacetes. Espingardas apontadas. “POLÍCIA! NO CHÃO!”
E à frente deles, um Pastor Alemão, um monstro musculado puxando a trela, as unhas a arranhar o chão encerado. O seu latido ecoou nas paredes de azulejo.
O caos instalou-se. Gritos. Cadeiras a tombar. O som de ténis a escorregar no chão.
O Tiago e os amigos congelaram. O riso morreu-lhes na garganta. Pareciam veados nos faróis, confusos, aterrorizados.
“DISSE NO CHÃO!” um agente avançou, a arma varrendo a sala.
Ajoelhei-me perto do caixote, as mãos atrás da cabeça. Controlava a respiração. Já tinha ensaiado isto mentalmente mil vezes, mas nunca pensei que acontecesse à hora de almoço.
O Tiago, porém, entrou em pânico. “O meu pai está na câmara municipal! Não podem—”
“CALA-TE E DEITA-TE!”
O treinador do cão soltou a trela. O animal não ladrou. Entrou em modo de trabalho. Cheirou o ar, ignorando o cheiro de comida—e de medo.
Puxou o treinador direto ao nosso canto. Direto ao Tiago.
Ele gaguejou, a recuar. “Eu não fiz nada! Foi só uma brincadeira com o nerd!”
Mas o cão passou por ele. Parou em frente ao caixote onde o meu livro tinha caído.
Sentou-se.
O sinal.
O treinador olhou para mim, depois para o caixote, depois para o Tiago e os amigos, cujas impressões digitais estavam frescas na “evidência”.
“POSITIVO!” gritou no rádio. “Código Vermelho! Ninguém sai!”
*Esquadrão antibomba?*
O Tiago olhou para o caixote, depois para mim. O rosto ficou branco. “O—o que meteste lá dentro?”
Olhei para ele e, pela primeira vez em três meses, deixei a máscara cair.
“Não meti nada, Tiago,” disse, a voz firme. “Mas acabaste de atirar o meu livro para cima do que eles procuram. E agora o teu cheiro está lá todo.”
Um agente agarrou-o pelo colarinho da camisola de marca e encostou-o à parede. “Apanhem-nos!”
“Não! É o livro dele! É o esquisito!” o Tiago gritou, a apontar para mim.
O agente olhou para mim. Eu mantive-me calmo.
“Agente,” disse, claro. “Veja o fundo falso do caixote. Não é o meu livro. É o que está por baixo.”
—
*(Continua…)*





