A neve caía pesadamente sobre os subúrbios de Lisboa, cobrindo as mansões de Cascais com um manto branco e silencioso. Para o resto do mundo, era uma cena de postal natalício. Para Rui Mendonça, era apenas mais um lembrete do frio que sentia por dentro.
Aos 42 anos, Rui tinha o mundo aos seus pés. A sua empresa de tecnologia financeira acabara de fechar o ano com lucros recorde. Podia comprar o que quisesse. Carros desportivos, casas na praia, arte renascentista. Mas a sua fortuna imensa parecia inútil, como notas de monopólio, porque não podia comprar a única coisa que importava.
Não podia comprar a voz da sua filha.
Há dezoito meses, a vida de Rui partira-se ao meio. Um camião numa estrada gelada. O som de metal a dobrar-se. O silêncio repentino. A sua esposa, Beatriz, morrera no instante. A sua filha, Leonor, então com quatro anos, sobrevivera fisicamente ilesa, mas a sua alma ficara presa naquele carro destruído.
Desde o funeral, Leonor não dissera uma única palavra. E pior ainda, deixara de andar. Os médicos chamavam-lhe “paralisia psicogénica”. O seu cérebro, sobrecarregado pelo trauma, simplesmente desligara as pernas.
Rui trouxera os melhores. Neurologistas da Suíça, psiquiatras infantis de Madrid, gurus holísticos do Algarve. A mansão Mendonça tornara-se uma porta giratória de batas brancas e promessas vazias.
—É questão de tempo, senhor Mendonça —diziam todos enquanto cobravam cheques de cinco dígitos.
Mas o tempo passava, e Leonor continuava sentada na sua cadeira de rodas junto à janela, uma boneca de porcelana com o olhar perdido no jardim nevado.
Rui começara a odiar a sua própria casa. Chegava tarde de propósito. Ficava no escritório a assinar papéis desnecessários, apenas para evitar o silêncio sepulcral do jantar. Quando chegava, bebia um copo de whisky single malt, beijava a testa fria da filha adormecida e trancava-se no seu escritório.
Mas naquele 22 de dezembro, o destino interveio.
Uma tempestade de neve cancelou o seu voo para Londres. O motorista levou-o de volta a casa às duas da tarde. A casa devia estar vazia de ruído, com Leonor a dormir a sesta e a equipa a mover-se como fantasmas invisíveis.
Rui abriu a porta principal. O hall de mármore estava escuro. Deixou cair as chaves na mesa da entrada. O som metálico ecoou, solitário.
Tirou o casaco, sacudindo a neve, e dirigiu-se para as escadas. Foi então que ouviu.
Parou em seco, com uma mão no corrimão de mogno.
Não era o vento. Não era o aquecimento.
Era música.
Uma melodia suave, rítmica, mas vibrante. Algo com um compasso latino, quente e envolvente.
E por baixo da música… era um bater ritmado?
Rui franziu a testa. Contratara uma nova empregada há um mês. Rosa. Uma mulher de sessenta anos, imigrante, com mãos calejadas e um sorriso que parecia demasiado brilhante para aquela casa triste. Rui mal falara com ela. Pagava-lhe para limpar e garantir que Leonor comia, não para pôr música.
A raiva começou a borbulhar no seu peito. Como se atrevia a perturbar a paz da casa? E se Leonor se assustasse? Os médicos disseram que precisava de um ambiente tranquilo.
Subiu as escadas a dois passos, impulsionado por uma mistura de irritação e uma estranha curiosidade.
À medida que se aproximava do corredor do segundo andar, o som mudou. Já não era só música.
Havia uma voz.
—Isso mesmo, meu amor. Sente o ritmo. O ritmo não está nos pés, está no coração.
Era a voz de Rosa.
Rui chegou à porta do quarto de Leonor. Estava entreaberta. A luz dourada da tarde de inverno filtrada pela fresta.
Empurrou a porta com força, pronto para gritar, para despedir a mulher, para impor ordem.
Mas a palavra morreu-lhe na garganta.
A cena que tinha à frente desafiava toda a lógica.
Tinham movido os móveis. O tapete persa valioso estava desocupado. No gira-discos vintage que pertencera a Beatriz —e que ninguém tocara há dois anos— rodava um vinil antigo.
Rosa não usava o uniforme cinzento. Tinha uma saia larga e colorida que devia ter trazido na bolsa. Estava descalça.
E Leonor…
Leonor não estava na cadeira de rodas.
A menina estava no chão, mas não sentada. Estava de joelhos, com as mãos apoiadas nos ombros de Rosa.
—Um, dois, três! Levanta esse ânimo! —cantarolava Rosa, movendo-se com uma graça surpreendente para a sua idade.
O que Rui viu a seguir fez-lhe fraquejar os joelhos. Agarrou-se à ombreira para não cair.
Leonor estava a rir.
Não era um sorriso tímido. Era uma risada sonora, borbulhante, uma risada que Rui esquecera que existia.
E enquanto ria, impulsionada pelo balanço de Rosa, Leonor empurrou as perninhas contra o chão.
—Olha, Rosa! —disse uma voz pequena e rouca pelo desuso.
Rui deixou de respirar. Ela falou. Ela falou.
—Estou a ver, preciosa! —animou Rosa, com lágrimas nos olhos—. Agora, levanta! Como te ensinei! Como dançam as princesas guerreiras!
Rosa afastou-se ligeiramente, oferecendo apenas as mãos como apoio.
Leonor, com o rosto brilhante de suor e alegria, franziu a testa em concentração. As pernas tremeram. Os músculos atrofiados protestaram. Mas havia algo nos seus olhos que Rui não via desde o acidente: Fogo. Determinação.
Lentamente, tremendo como uma folha ao vento, Leonor levantou-se.
Pôs-se de pé.
Sem aparelhos ortopédicos. Sem a ajuda de três enfermeiras. Só ela, uma canção velha e a mão calejada de uma empregada.
Deu um passo vacilante em direção a Rosa. Depois outro.
—Pai! —gritou Leonor de repente, olhando para a porta. Vira Rui.
O fez momentaneamente quebrou-se. Rosa virou-se, assustada, levando as mãos à boca ao ver o patrão pálido e a tremer na porta.
—Senhor Mendonça… eu… —balbuciou Rosa, baixando a música rapidamente—. Posso explicar. Não me despeça, por favor, só estavamos…
Rui não a ouviu. Não conseguia ouvir nada além do batimento ensurdecedor do seu próprio coração.
Entrou no quarto como um sonâmbulo. Ignorou Rosa. Os olhos fixos na filha, que continuava de pé, a balançar ligeiramente mas mantendo-se vertical.
—Leonor… —sussurrou Rui, caindo de joelhos à sua frente para ficar à sua altura.
—Olha, pai —disse Leonor, ofegante—. A Rosa diz que as minhas pernas estavam tristes porque a mãe se foi. Mas a música torna-as felizes.
As lágrimas, quentes e rápidas, jorraram dos olhos de Rui. Não tentou pará-las. Chorou pela primeira vez em dezoito meses. Chorou todo o whisky que bebE naquela noite, enquanto a melodia antiga enchia a casa e Leonor dançava com os pés descalços sobre o chão frio, Rui percebeu que a verdadeira riqueza não estava nos números das suas contas bancárias, mas no abraço apertado da filha que finalmente podia chamá-lo de pai outra vez.





