Minha Madrasta Me Bateu por Dar Comida a um Desabrigado – Mas o Chauffeur Fez Algo Inesperado5 min de lectura

**Capítulo 1: O Navio a Afundar**

O exaustor do Restaurante Costa rangia como um motor prestes a morrer, cuspindo ar morno que pouco fazia contra o frio cortante do inverno lá fora. Eu estava atrás do balcão, as mãos vermelhas e gretadas da água com lixívia, a olhar para o monte de envelopes vermelhos ao lado da caixa registadora.

*Último Aviso. Em Atraso. Urgente.*

— Para de olhar para eles, Leonor — ouvi atrás de mim.

Virei-me e vi a Carla a entrar pela porta das traseiras. Não trazia o avental. Nunca trazia. Em vez disso, vestia um vestido justo de estampa de leopardo e um casaco de pele falsa, um visual ridículo para uma tarde de terça-feira. O perfume dela, pesado e floral, abafava o cheiro do bacon a fritar.

— Só estava a arrumar o correio — murmurei, empurrando uma madeixa de cabelo para trás da orelha. — O fornecedor ligou outra vez. Sem mais entregas até pagarmos o que devemos dos ovos e do leite.

A Carla revirou os olhos, ajeitando o batom no reflexo da máquina dos guardanapos.

— Isso já não importa, Leonor. Nada disso importa depois de amanhã.

Senti um nó frio apertar-me no estômago.

— O que acontece amanhã?

— O investidor — respondeu, passando uma nova camada de batom. — O Sr. Mendes e a sua empresa. Vão mandar um representante. Vou vender o restaurante.

— Não podes — sussurrei, as palavras a arranharem-me a garganta. — O pai fez-te prometer. No leito de morte, Carla. Prometeste que guardavas o restaurante para mim até eu fazer vinte e um anos.

A Carla fechou o estojo do batom com um estalo. Os poucos clientes no restaurante — maior parte deles habitués como o Sr. Almeida lá no canto — ergueram os olhos do café.

— O teu pai vivia num mundo de fantasia — rosnou ela, inclinando-se sobre o balcão para que só eu sentisse o cheiro a vinho rançoso no seu hálito. — Deixou-me com uma montanha de contas médicas e um restaurante que mal dá lucro. Sou a tutora legal. Sou a executora. E estou farta de limpar gordura das unhas.

Bateu com uma unha manicurada no balcão.

— Assinamos os papéis amanhã. Ficamos com o dinheiro. Eu mudo-me para o Algarve. Tu? Tu arranjas maneira. És nova.

Agarrei-me ao balcão para evitar que as mãos me tremessem. Aquele sítio era tudo. Era o banco onde eu fazia os trabalhos de casa enquanto o pai cozinhava. Era o jukebox onde dançávamos ao som de fado quando estava vazio. Era o único lugar onde ele ainda me parecia vivo.

— Não vou assinar — disse, a voz trémula, mas firme. — O meu nome também está na escritura, Carla. O pai pôs no testamento. Precisas da minha assinatura.

Os olhos dela estreitaram-se.

— Não me desafies, rapariga. Achas que tens poder? Não tens nada. És uma empregada de mesa de dezanove anos com três euros na conta.

Antes que eu pudesse responder, o sino da porta badalou violentamente. Uma rajada de vento, carregada de neve e do cheiro do escape, varreu o espaço.

Todos se viraram.

Na entrada estava uma figura que parecia tragédia. Era um homem idoso, curvado, tremendo tanto que os ossos pareciam chocalhar. Trazia um casaco remendado com fita-cinzenta e botas rotas nos dedos, revelando meias de lã molhadas. A barba estava embaraçada com gelo, e o rosto cinzento de exaustão.

O silêncio no restaurante pesava.

— Ótimo — resmungou a Carla, erguendo as mãos. — Era mesmo o que faltava para impressionar os compradores. Um sem-abrigo. Põe-no lá fora, Leonor.

Olhei para o homem. Ele não estava agressivo. Estava aterrado. Olhou para os bancos quentes com uma saudade que me partiu o coração.

— Ele está gelado, Carla — disse.

— Não quero saber se está congelado — bufou ela. — Isto não é um abrigo. Só clientes pagantes. Põe-no lá fora.

Olhei outra vez para o homem. Ele deu um passo hesitante, e as pernas falharam. Apoiou-se na ombreira da porta, a respirar com dificuldade.

Tomei uma decisão.

— Não — disse.

A Carla petrificou.

— Como é?

— Disse que não.

Saí de trás do balcão, ignorando o choque dela. Fui direita ao idoso.

— Senhor? Entre, por favor.

**Capítulo 2: O Preço da Bondade**

O homem olhou para mim com olhos azuis e húmidos, que pareciam demasiado vivos para alguém tão acabado.

— Eu… não tenho dinheiro, menina — sussurrou, a voz surpreendentemente clara, mas fraca. — Só preciso… de um momento fora do vento.

— Vai ter mais do que isso — disse eu, segurando-lhe o braço gelado. Através das camadas de trapos, senti-lhe o quão magro estava. — Sente-se lá atrás. Fica perto do aquecedor.

Guiámo-lo para a mesa do fundo. O Sr. Almeida fez-me um aceno solidário, mas a maioria evitou olhar, desconfortáveis com a intrusão da pobreza no seu almoço.

Sentei-o, e vi-o derreter no calor. As mãos, sujas e cheias de cicatrizes, tremiam-lhe sobre a mesa.

— Leonor! — A voz da Carla já era um grito. Avançou para nós, os saltos a bater com agressividade no chão de mosaico. — Estás surda? Disse para tirares este lixo daqui!

— É o meu turno, Carla — respondi, com uma firmeza que nunca soube que tinha. — Estou a servir um cliente.

— Cliente? É um mendigo! — Virou-se para o homem, enrolando o lábio de nojo. — Ei! Você! Saia antes que chame a polícia. Cheira a esgoto.

O velho não se abalou. Apenas a fitou com uma intensidade estranha.

— Só quero comer, minha senhora. Uma canja é pedir muito?

— Sim, é! — gritou ela.

— Eu pago — cortei. Virei para o homem. — Não lMantive o restaurante como o meu pai sempre sonhou, servindo comida quente e histórias ainda mais quentes a quem lá entrava, e no final de cada dia, enquanto fechava a porta, sentia que ele ainda sorria lá de cima, orgulhoso de ver que o seu legado estava em boas mãos.

Leave a Comment