Quando o pai nos abandonou, a madrasta salvou-me do inferno do orfanato.
Na minha infância, a vida era um conto de fadas: uma família unida e cheia de amor numa casinha inclinada à beira do Tejo, perto da pacata vila de Mação. Éramos três: eu, a mãe e o pai. O ar estava sempre perfumado pelos bolos recém-saídos do forno da mãe, e, à noite, o pai contava histórias das suas aventuras no rio. Mas o destino é um caçador implacável e ataca quando menos se espera. Um dia, a mãe adoeceu — o seu riso calou-se, as mãos tremeram, e, pouco depois, ela estava numa cama fria de hospital em Santarém. Desaparecia a cada dia, deixando-nos num mar de dor. O pai afogou a mágoa em álcool barato, e a nossa casa tornou-se em ruínas, coberta por garrafas partidas e um silêncio desesperado.
O armário da cozinha ficou vazio, testemunhando a nossa queda. Eu arrastava-me para a escola em Mação, com roupa suja e a barriga a roncar de fome. Os professores repreendiam-me por não fazer os trabalhos, mas como podia estudar se só pensava em sobreviver? Os amigos afastaram-se, os seus murmúrios cortavam mais que navalhas, e os vizinhos olhavam com pena. Até que alguém não aguentou e chamou a assistência social. Mulheres severas invadiram a casa, prontas a arrancar-me dos braços trémulos do pai. Ele caiu de joelhos, suplicando por uma última oportunidade. Deram-lhe um mês frágil — o fio sobre o abismo.
Aquele susto abalou o pai. Cambaleou até a mercearia, trouxe comida, e limpámos a casa até recuperar um vislumbre de calor. Ele jurou deixar a bebida, e, nos seus olhos, reconheci o homem que um dia conhecera. Comecei a acreditar no milagre. Numa noite de ventania, o pai murmurou que queria apresentar-me alguém. O coração apertou — teria ele esquecido a mãe? Assegurou-me que ninguém a substituiria, mas que era a nossa única salvação.
Foi assim que conheci a tia Margarida.
Fomos até à sua casa em Tomar, uma vivenda antiga junto ao Tejo, cercada de oliveiras retorcidas. A Margarida era um furacão de bondade — a sua voz um porto seguro, o olhar um farol. Tinha um filho, o Zé, dois anos mais novo do que eu, um rapaz franzino com um riso que espantava o frio. Entendemo-nos logo: corríamos pelas ruas, deitávamo-nos à beira-rio até cairmos de cansaço. No caminho para casa, disse ao pai que a Margarida era como um raio de sol, e ele anuiu em silêncio. Duas semanas depois, empacotámos as nossas coisas e mudámo-nos para Tomar — uma tentativa desesperada de recomeçar.
Aos poucos, a vida ajeitou-se. A Margarida cuidava de mim com tanto amor que as feridas iam cicatrizando — remendava as minhas calças rasgadas, fazia sopas grossas de feijão, e, à noite, ríamos com as travessuras do Zé. Ele tornou-se meu irmão, não de sangue, mas de dor partilhada. Brigávamos, sonhávamos, fazíamos as pazes — a nossa lealdade não precisava de palavras. Mas a felicidade é frágil, e o destino adora destruí-la. Numa manhã gelada, o pai não voltou. O telefone tocou — morrera num acidente, atropelado por um camião na estrada escorregadia. A dor devorou-me como uma fera, sufocando-me. A assistência social regressou, fria e dura. Sem um tutor legal, arrancaram-me dos braços da Margarida e mandaram-me para um orfanato em Santarém.
O orfanato era uma prisão de desespero — paredes cinzentas, camas frias, cheias de suspiros de almas perdidas. O tempo arrastava-se, cada minuto um golpe na alma. Sentia-me um fantasma, invisível e esquecida, atormentada por pesadelos de solidão eterna. Mas a Margarida não desistiu. Todos os domingos, aparecia com pão quente, cachecóis de lã e uma vontade inquebrável de me trazer de volta. Lutou como uma leoa — invadiu gabinetes, preencheu papéis, as suas lágrimas manchavam os documentos enquanto combatia a máquina burocrática. Os meses passaram, e o desespero corroía-me; temia apodrecer naquele buraco. Até que, numa manhã, a diretora disse: “Faz as malas. A tua mãe veio buscar-te.”
Saí e vi a Margarida e o Zé no portão — os rostos deles brilhavam com esperança e teimosia. As pernas falharam quando me atirei para os seus braços, os soluços explodindo como uma tempestade. “Mãe”, sussurrei, “obrigada por me tirares daquela sepultura! Juro que o teu sacrifício não será em vão!” Naquele momento, percebi: família não é só sangue, é a alma que luta por ti até ao último suspiro.
Voltei para Tomar, para o meu quarto, para a escola. A vida acalmou — terminei os estudos, fui para a universidade em Santarém, arranjei trabalho. O Zé e eu permanecemos inseparáveis, a nossa ligação firme como uma rocha. Crescemos, formámos as nossas famílias, mas a Margarida — a nossa mãe — continuou a ser a nossa âncora. Todos os domingos, invadimos a casa dela, onde nos serve feijoada e batatas fritas, o seu riso misturando-se com as vozes das nossas mulheres, agora suas amigas. Às vezes, quando a olho, sou inundada por gratidão por este milagre.
Agradecerei para sempre ao destino por esta segunda mãe. Sem a Margarida, teria desaparecido — perdida nas ruas ou quebrada nas trevas. Ela foi a minha luz na escuridão mais profunda, e nunca esquecerei como me puxou da beira do abismo.





