Hoje, o asfalto de Lisboa não estava apenas quente—parecia zangado com o mundo. Era uma terça-feira no final de Setembro, o tipo de dia em que o termómetro passava dos 40 graus e o ar pesava como um cobertor sufocante.
Eu estava a correr. De novo.
Chamo-me Inês Ferreira, mas toda a gente me chama Nê. Tenho dezasseis anos, e a minha vida anda medida em minutos perdidos e segundas oportunidades. Apertei os livros de História contra o peito, sentindo o suor a escorrer-me pelas costas, encharcando a blusa branca do uniforme. Os meus sapatos—uns mocassins que comprei numa loja de segunda mão há três anos—batiam no chão com um ritmo desesperado.
Ploc, ploc, ploc.
Olhei para o ecrã partido do telemóvel. 7:52. A primeira aula era às 8:00. Estava a seis quarteirões de distância.
As palavras da diretora Soares ecoavam na minha cabeça, misturadas com o calor. “Inês, a bolsa de estudo é para alunas com excelência tanto nas notas como na assiduidade. Mais um atraso, e teremos de ceder o lugar a alguém da lista de espera.”
A lista de espera. Uma lista de miúdos que, provavelmente, tinham carros, ou pais que os levavam, ou despertadores que não reiniciavam quando a luz falhava no nosso prédio.
“Não posso perder isto”, murmurei para a rua vazia, a garganta seca como lixa. Perder a bolsa significava voltar para a escola pública. Significava perder a única hipótese de uma bolsa universitária. Significava turnos duplos na lavandaria com a minha mãe para o resto da vida.
Dobrei a esquina da Avenida da Liberdade. Normalmente, esta rua estava cheia de vida, mas o calor tinha empurrado toda a gente para dentro. As lojas estavam de portas fechadas, as persianas metálicas cerradas contra o sol.
Foi então que ouvi.
Primeiro, pensei que fosse um gato. Um miado fraco, quase abafado pelo zumbido distante de um ar condicionado. Continuei a correr, os olhos fixos no semáforo lá à frente. Mas o som repetiu-se.
Uh-uh… uh-uh…
Não era um gato. Era humano. Um gemido rouco, ofegante, a lutar por ar.
Parei. Quase caí para a frente, mas os meus pés cravaram-se no cimento. Arranquei os auscultadores e virei-me. A rua estava silenciosa, só o calor a tremer sobre os carros estacionados.
“Olá?” Gritei. A voz falhou.
Silêncio.
Depois, o som voltou. Mais fraco. Vinha de um Mercedes G-Wagon preto, estacionado ilegalmente numa zona de carga, sob o sol impiedoso. O carro parecia um tanque, vidros fumados tão escuros que pareciam manchas de óleo.
Aproximei-me. O calor que irradiava daquele metal negro atingiu-me como uma onda.
Encostei o rosto ao vidro, protegendo os olhos com as mãos. Primeiro, só vi o meu reflexo—cabelo armado, olhos assustados, uma gota de suor no nariz.
Depois, os meus olhos ajustaram-se ao escuro lá dentro.
O coração parou.
Havia uma cadeirinha. E, na cadeirinha, um bebé. Era pequeno, talvez dez meses. Não chorava alto porque já não tinha forças. O rosto estava vermelho como um tomate, escuro, aterrador. O cabelo colado ao crânio. A cabeça pendia para o lado, e a boca abria-se, a arfar como um peixe fora de água.
“Meu Deus”, soltei.
Bati no vidro com o punho. “Olá! Alguém aqui? Socorro!”
O vidro queimava. O bebé não reagiu. Os olhos estavam semicerrados, revirados.
O pânico, frio e afiado, espetou-me no peito. Olhei para os dois lados da rua. “Socorro! Este carro é de alguém?!”
Ninguém. Só a calçada vazia, a arder.
Tentei a porta. Trancada. A da frente também.
Olhei para o bebé novamente. O peito quase não se movia. Lembrei-me da notícia do verão passado—um bebé em Braga. Vinte minutos. Foi tudo o que levou, naquele calor. Dentro do carro deviam estar 60 graus ou mais. Ele estava a ser cozinhado.
Olhei para o telemóvel. 7:56.
Se corresse agora, chegava a tempo. Chegava à escola quando a campainha tocasse. Mantinha a bolsa. Podia fingir que nunca o tinha visto. Alguém apareceria. O dono devia estar na pastelaria ali ao lado, certo?
Mas então a mão do bebé estremeceu. Um espasmo fraco, minúsculo.
Ele estava a morrer. Ali, na minha frente.
“Desculpa”, murmurei, para o universo, para a diretora Soares, para a minha mãe.
Deitei os livros no chão. Procurei desesperadamente uma pedra, um tubo, qualquer coisa. A rua estava limpa. Demasiado limpa.
Até que vi. Um canteiro de obras ao pé de uma árvore decorativa. Pedras de rio, grandes e irregulares.
Agarrei uma do tamanho de um melão, áspera nas mãos. Voltei para o Mercedes.
Hesitei por um segundo. Aquele carro valia cem mil euros. Se eu estivesse errada—se o ar condicionado estivesse ligado e eu não o ouvisse—seria presa. A minha família processada. Não tínhamos nada. Tirariam o pouco que tínhamos.
Lá dentro, a cabeça do bebé caiu para a frente. Parou de se mexer.
“Não”, gritei baixo. “Não, não, não.”
Agarrei a pedra com as duas mãos. Fechei os olhos por um instante, balancei os braços e esmaguei-a contra o vidro com toda a força.
CRASH.
O vidro não se estilhaçou—ficou uma teia de aranha antes de ceder. O alarme disparou, um berro ensurdecedor que ecoou nos prédios.
Não esperei. Meti a mão pelo buraco. Um estilhaço cortou-me o braço, mas ignorei a dor. Procurei a fechadura.
A porta abriu-se, e o calor que saiu queimou-me o rosto. Cheirava a couro quente e leite azedo.
Desapertei a cadeirinha com dedos trémulos. O fecho queimava, mas forcei-o. Tirei o bebé.
Ele estava mole. A pele, seca e escaldante. Já não suava. Isso era mau. Muito mau.
“Está tudo bem”, susurrei, apertando-o contra o peito. “Já estás cá fora.”
Ele soltou um gemido fraco.
“Ei! Que raio estás a fazer?!”
Virei-me. Um homem de fato gritava”No meio da confusão, enquanto segurava o bebé salvo e via os pais dele correrem em nossa direção com lágrimas nos olhos, percebi que as melhores decisões nunca são as mais fáceis, mas são as que valem a pena.”





