Diário de Rodrigo Almeida:
Apertei os punhos quando vi aquele menino sujo se aproximar da cadeira de rodas do meu filho. As mãos dele estavam cheias de lama seca, a camiseta rasgada, o cabelo desgrenhado. Qualquer pai normal teria corrido para afastar o filho dali.
Mas algo me parou.
Talvez fosse a expressão no rosto do Tomás—meu menino de nove anos, loiro, com olhos azuis que nunca enxergaram, cego desde que nasceu. Ele estava sorrindo. Fazia anos que não via aquele sorriso.
O menino lamacento se agachou na frente da cadeira. “Oi, eu sou o Tiago. Vejo você aqui todo dia”, disse, animado.
Tomás virou-se para a voz, buscando com os olhos vazios. “Meu pai me traz ao parque. Diz que o ar faz bem.”
“Você nunca viu nada mesmo?”, perguntou Tiago, sem rodeios.
Tomás balançou a cabeça. “Nunca.”
Então Tiago baixou a voz, como se contasse um segredo. “Meu avô tinha um remédio—lama especial da ribeira. Ele curava muita coisa. Se quiser, posso colocar um pouco nos seus olhos. Vou tentar fazer você enxergar.”
O mundo parecia desabar ao meu redor. Absurdo. Ridículo. Ofensivo. Eu devia ter pegado Tomás no colo e ido embora.
Mas o sorriso do meu filho cresceu—cheio de esperança. E eu não tive coragem de apagar aquela pequena luz.
Não sabia ainda que aquela lama—completamente comum—mudaria nossas vidas para sempre.
⭐ O Ritual
Tiago tirou um punhado de lama úmida de um saco plástico velho. As unhas estavam pretas, as mãos ásperas, mas os olhos escuros brilhavam de sinceridade.
“Fecha os olhos”, disse com cuidado.
Tomás obedeceu, sem medo, como se já confiasse no desconhecido.
Eu observei, com o coração na garganta, enquanto o menino pobre espalhava a lama nas pálpebras do meu filho com movimentos quase reverentes.
“Pode arder um pouco”, avisou Tiago.
“Não arde”, sussurrou Tomás. “É… agradável.”
Minhas pernas tremeram. Há quanto tempo ele não dizia que algo era agradável?
Tiago prometeu voltar no dia seguinte—todos os dias por um mês, como o avô lhe ensinara. E Tomás fez a pergunta que eu temia:
“Deixa ele voltar amanhã?”
Havia medo na voz dele—medo de perder aquela frágil esperança.
Olhei para minhas mãos—mãos que haviam assinado contratos de milhões de euros, erguido prédios, ganhado prêmios… mas não aliviado a dor do meu filho.
“Deixo”, disse, finalmente.
Tomás sorriu. E pela primeira vez em anos, senti algo dentro de mim descongelar.
⭐ Febre, Confissão, Promessa
Naquela noite, não consegui dormir. Às três da manhã, minha mulher, Leonor, chamou do andar de cima—chorando.
“O Tomás está com febre.”
O Dr. Gonçalves veio imediatamente. Depois de examiná-lo, diagnosticou um vírus simples, sem relação com a lama.
Quando confessei o que acontecera no parque, o médico me repreendeu suavemente. “A cegueira do Tomás é irreversível. Lama nenhuma vai mudar isso.”
“Eu sei”, murmurei.
“Então por que permitiu?”
Olhei para o rosto tranquilo do meu filho. “Porque ele sorriu.”
Leonor desabou depois, admitindo que estava exausta de anos de tratamentos inúteis, olhares piedosos dos médicos e perguntas inocentes do Tomás sobre a cor do céu ou por que não podia correr como os outros meninos. Acusou-me de me esconder no trabalho.
Não tive defesa—ela tinha razão.
Então fiz uma promessa, quase como rendição.
“Amanhã, levo-o ao parque. De novo.”
⭐ O Retorno de Tiago—e o Mundo Ganha Cor
No dia seguinte, Tomás estava melhor. Voltamos ao parque e esperamos.
Quinze minutos.
Trinta.
O lábio do Tomás tremia. “Ele não vem…”
Então vi Tiago correndo em nossa direção, suado, ofegante.
“Desculpa! Minha avó precisou de ajuda.”
O ritual recomeçou. Desta vez, enquanto a lama secava, Tiago descreveu o mundo para Tomás:
O tronco da grande árvore—marrom-escuro embaixo, mais claro em cima.
As folhas que balançavam como um mar verde.
O céu da cor de uma piscina ao sol.
Nuvens em forma de cães, barcos, algodão.
Tomás inclinou-se para a voz, bebendo cada palavra.
Nada de mágico aconteceu com seus olhos naquele dia.
Nem no seguinte.
Nem no outro.
Mas Tomás esperava por Tiago todas as manhãs.
E, aos poucos, eu também comecei a esperar.
⭐ A Família Começa a Mudar
Semanas passaram. O parque virou o universo do Tomás.
Comecei a cancelar reuniões.
Sair mais cedo do trabalho.
Minha secretária ficou chocada.
Leonor desconfiada.
Mas Tomás falava mais. Ria mais.
Tinha um amigo—um que não tinha pena dele.
Tiago contava do bairro pobre onde morava, da avó Isaura que criava galinhas, do primo que tocava violão na igreja.
Tomás falava da casa grande e vazia, dos brinquedos que não usava, da solidão de não ter amigos que se atrevessem a brincar com um menino em cadeira de rodas.
“Eles têm medo que eu caia ou me machuque”, disse Tomás.
“Então estão perdendo”, respondeu Tiago, simples. “Você é incrível.”
Nasceu uma amizade—não entre um menino rico e cego e um pobre, mas entre dois miúdos de nove anos que se entendiam.
⭐ A Sombra do Pai de Tiago
Um dia, Leonor foi conosco, decidida a acabar com “aquelas loucuras”. Mas ao ouvir o riso do Tomás, desfez-se em lágrimas, percebendo o quanto se tinha perdido.
Então apareceu um homem maltrapilho—Carlos, o pai alcoólatra do Tiago.
Tiago empalideceu. Carlos agarrou-o, exigindo dinheiro, chamando-o de inútil por não “arrancar nada do menino rico aleijado”.
Tiago recusou-se. Carlos deu-lhe um tapa.
O som ecoou pelo parque.
Coloquei-me entre eles num instante—não como um executivo bem-sucedido, mas como um pai finalmente desperto.
Protegi Tiago e afastei Carlos. Depois, soube que quem realmente cuidava dele era a avó Isaura, que limpava casas para criá-lo.
⭐ Uma Verdade Mais Profunda Que a Lama
Nesse mesmo dia, perguntei:
“Por que faz tudo isso? Nem nos conhece.”
Tiago olhou para Tomás, com uma sabedoria além da idade nos olhos.
“Porque sei como é não ser visto. As pessoas olham para mim e só veem sujeira, roupa velha, pobreza.
Não me veem.
E olham para o Tomás e só veem a cadeira e a cegueira.
Mas ele é engraçado, bondoso e tem um sorriso lindo.
É injusto.”
Comecei a falar sobre a lama não curar nada, mas Tiago interrompeu, gentil:
“Eu sei que a lama não cura. Meu avô nunca curou ninguém.
Ele me ensinou outra coisa:
Às vezes, as pessoas não precisam de remE no final, aprendi que a maior cura não vem da terra, mas do amor que encontramos quando alguém decide nos ver como realmente somos.





