Presenciei trinta motociclistas assaltarem uma mercearia às 3 da manhã e o dono apenas ficou ali, sorrindo como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Estava tremendo atrás do meu carro no estacionamento do outro lado da rua, discando o 112 com dedos trêmulos, enquanto aqueles homens enormes, de coletes de couro, enchiam sacos do lixo com tudo das prateleiras.
Tinha acabado de me mudar para aquela vila no interior de Beja há três semanas. Arranjei um emprego noturno no armazém perto dali. Ia a caminho de casa quando vi as motos alinhadas em frente à Mercearia do Tiago. Trinta motos, pelo menos. Talvez mais.
Meu primeiro instinto foi continuar dirigindo. Não me meter onde não era chamado. Mas então os vi através das vitrines. Motociclistas percorrendo os corredores, enfiando coisas nos sacos. Leite em pó. Fraldas. Conservas. Remédios. Papel higiênico. Tudo o que havia.
E o dono, um senhor de cabelos grisalhos, apenas parado atrás do balcão, observando. Sem chamar ajuda. Sem tentar impedi-los. Apenas ali, de braços cruzados, sorrindo.
Estacionei no terreno vazio do outro lado da rua e me abaixei no banco. Minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o telefone.
“112, qual é a sua emergência?”
“Estão assaltando a Mercearia do Tiago, na Estrada Nacional 18. Pelo menos trinta homens. Motociclistas. Estão levando tudo. Por favor, mandem ajuda.”
“Senhora, pode descrever o que está vendo?”
“Estão enchendo sacos. O dono não está fazendo nada. Acho que ameaçaram ele. Por favor, enviem alguém.”
O operador fez uma pausa. “Senhora, disse que é na Mercearia do Tiago? Estrada Nacional 18?”
“Sim! Por favor, depressa!”
Outra pausa. Mais longa. “Senhora, é nova na região?”
Que tipo de pergunta era essa? “Sim, acabei de me mudar. O que isso importa? Estão assaltando a loja!”
“Senhora, vou enviar uma viatura até sua localização. Fique no seu carro. Mas preciso que entenda que o que está vendo pode não ser o que pensa.”
“Do que está falando? Estão levando tudo da mercearia!”
“Apenas fique onde está. Um agente vai explicar.”
Ele desligou. Olhei para o telefone, incrédulo. Que tipo de operador do 112 diz que um assalto não é o que parece?
Voltei a olhar para a loja. Os motociclistas ainda carregavam as coisas. Um deles, um homem enorme com barba até a barriga, carregava caixas de água. Outro levava sacos de ração para cães. Um terceiro tinha os braços cheios de produtos de higiene feminina.
Produtos de higiene feminina? Que tipo de assalto era esse?
O dono saiu com eles. Estava rindo. Rindo! Apertou a mão de um dos motociclistas. Abraçou outro. Conversavam como velhos amigos.
Não fazia sentido.
Uma viatura parou ao lado do meu carro. Esperei sirenes. Que o agente saltasse e confrontasse os motociclistas. Em vez disso, ele baixou o vidro com calma.
“Foi você que ligou para o 112?”
“Sim! Não vão deter eles?”
O agente olhou para a loja. Para os motociclistas carregando as motos com mercadorias. Depois olhou para mim com uma expressão estranha. Como se tentasse não rir.
“Senhora, há quanto tempo mora aqui?”
“Três semanas. Por que todo mundo me pergunta isso?”
“Porque se morasse aqui há mais tempo, saberia sobre as sextas-feiras à noite.” Ele abriu a porta do carro. “Venha comigo. Acho que precisa conhecer algumas pessoas.”
“Está louco? Não vou até lá!”
“Senhora, prometo que está completamente segura. Esses homens não são criminosos. Bom, a maioria não é.” Ele sorriu. “Venha. Vou apresentá-la aos Assaltantes da Sexta.”
Contra todos os meus instintos, saí do carro e segui o agente até o outro lado da rua. Minhas pernas eram gelatina. Meu coração batia tão forte que eu o ouvia nos ouvidos.
Quando nos aproximamos, os motociclistas viraram para nos olhar. Trinta homens enormes, de coletes de couro repletos de patches. Barbas. Tatuagens. Lenços. Pareciam exatamente o tipo de gente que minha mãe sempre me avisou para evitar.
“Ó António!” um deles chamou o agente. “Temos vizinha nova?”
“Pois temos,” respondeu o agente. “Ela ligou para o 112 a denunciar vocês. Achou que estavam assaltando o lugar.”
Os motociclistas caíram na gargalhada. Não de maneira cruel. Era um riso genuíno, amigável.
O dono da mercearia se aproximou. De perto, vi que devia ter setenta e poucos anos. Olhos bondosos. Sorriso caloroso. “Deixa adivinhar. Viu a gente a carregar as coisas e pensou que estávamos a roubar?”
“Ninguém pagou,” murmurei. “Vi. Ninguém passou no caixa.”
“É verdade.” Ele estendeu a mão. “Sou o Tiago Almeida. Dono desta mercearia. Há quarenta e três anos.”
Apertei sua mão, completamente confusa. “Não entendo o que está acontecendo.”
Tiago olhou para os motociclistas, depois para mim. “O que está a acontecer é o que acontece toda sexta à noite há doze anos. Estes rapazes esvaziam minha mercearia. Levam tudo que está perto de vencer. Conservas amassadas, caixas danificadas, coisas que não posso vender. E distribuem para quem precisa.”
“Distribuem?”
Um motociclista se adiantou. Devia ter uns sessenta anos, com uma trança grisalha e um colete que dizia “Sagrados do Asfalto MC – Presidente.”
“Chamo-me Mário,” disse. “Presidente dos Sagrados do Asfalto. Toda sexta à noite, percorremos o concelho a entregar mantimentos a sem-abrigo, famílias com dificuldades, idosos com reformas pequenas, quem quer que esteja a passar necessidades.”
“Mas… não estão a pagar por nada disso.”
Tiago riu. “Ó rapaz, explica-lhe como funciona.”
Mário sorriu. “O Tiago declara tudo como perda. Abate nos impostos e no seguro. As coisas iam para o lixo de qualquer maneira—vencidas, danificadas, invendáveis. Assim, vão para quem precisa. O Tiago tem seu abate. Nós distribuímos. Todos ganham.”
“E a polícia sabe disso?”
O agente António acenou. “Toda a esquadra sabe. Já ajudámos a carregar as motos mais vezes do que consigo contar. A mulher do chefe Silva às vezes anda com eles.”
“A mulher do chefe da polícia faz parte de um clube de motociclistas?”
“Clube motard,” três deles corrigiram em uníssono.
Minha cabeça girava. “Então tudo isto… o assalto… os sacos… é…”
“Caridade,” disse Mário. “Há doze anos. Começámos depois do temporal que atingiu a costa. Muita gente perdeu tudo. O governo demorava. A Cruz Vermelha estava sobrecarregada. Então começámos a recolher mantimentos e entregá-los nós mesmos.”
“Depois, continuámos,” acrescentou outro motociclista. O colete dele dizia “Pedra”. “Percebemos quanta gente aqui precisava. Idosos sem dinheiro para comida. Mães solteirasE naquela noite, enquanto seguia na garupa da moto da Susana, a mulher do chefe Silva, entendi que os verdadeiros anjos não usam asas, mas coletes de couro e botas manchadas de estrada.





