Diogo Costa parou na entrada da sala de terapia, o corpo reagindo antes que a mente conseguisse formar um único pensamento coerente. A sua pasta escorregou-lhe da mão e caiu contra a parede com um som surdo que ele mal registou.
As cadeiras de rodas que normalmente enquadravam o espaço como sentinelas silenciosas estavam vazias junto à janela, afastadas como se já não pertencessem ali.
No chão acolchoado, os seus filhos gémeos estavam sentados de pernas cruzadas, as pernas magras estendidas à frente, enquanto Inês Monteiro se ajoelhava perto deles, as mãos repousadas levemente nas suas panturrilhas enquanto lhes falava com uma voz tão calma que parecia irreal.
Por um momento, Diogo não conseguiu respirar. A imagem foi suficiente para enviar uma onda de medo através dele, o tipo de medo nascido de meses de avisos, relatórios médicos e limites cuidadosamente ensaiados, incutidos nele desde o acidente.
“O que se passa aqui?” perguntou, embora as palavras tenham saído tensas e desiguais.
Inês olhou para cima devagar, claramente surpreendida por vê-lo, mas não retirou as mãos. “Eles pediram para se sentar no chão,” respondeu com serenidade. “As costas estavam rígidas, e eu quis ajudá-los a esticar um pouco.”
“Não tinha esse direito,” Diogo retorquiu, avançando sem querer. O coração batia forte no peito enquanto apontava para as cadeiras de rodas vazias. “Eles não deviam sair dessas cadeiras. Você sabe disso.”
“Eles deviam estar confortáveis,” Inês respondeu, o tom firme mas não desafiador. “E deviam sentir-se como crianças, não como pacientes.”
Os gémeos perceberam a tensão imediatamente. Os dedos de Afonso cerraram-se no tapete, o sorriso anterior desaparecendo em incerteza, enquanto Simão olhava alternadamente entre o pai e Inês, como se não soubesse qual reação era esperada dele.
Diogo sentiu algo agudo torcer-se-lhe no peito ao vê-los. “Coloque-os de volta,” disse baixinho. “Agora.”
Inês hesitou, estudando o seu rosto por um longo momento, depois acenou com a cabeça. Ajudou Simão primeiro, levantando-o com cuidado, murmurando palavras de tranquilidade enquanto o acomodava na cadeira.
Afonso seguiu, agarrando-se à manga dela com uma força surpreendente antes de finalmente soltar. Nenhum dos dois estendeu as mãos para Diogo, e a perceção atingiu-o com mais força do que esperava.
Quando terminou, Inês levantou-se. “Eles riram hoje,” disse suavemente. “Isso não acontecia há muito tempo.”
Diogo não conseguiu responder. “Devia ir,” disse após uma pausa, a voz vazia. Inês acenou brevemente e saiu sem outra palavra, a porta fechando-se atrás dela com uma finalidade que ecoou pela sala.
Ele ajoelhou-se diante dos filhos, tentando abraçá-los. “Está tudo bem,” sussurrou, embora a voz lhe falhasse. Afonso virou o rosto para o lado.
Simão olhava fixamente para as mãos. Diogo ficou ali mais tempo do que percebeu, cercado pelo peso de uma decisão que não compreendia totalmente.
Dezoito meses antes, tudo se desfez num único instante.
A sua mulher estava a levar os rapazes do infantário para casa, as mochilas ainda decoradas com pinturas a dedo e autocolantes, quando um camião em excesso de velocidade ignorou um sinal vermelho e atingiu o lado do condutor do seu carro.
Ela morreu antes dos paramédicos chegarem. Os rapazes sobreviveram, mas o trauma na coluna vertebral deixou-lhes lesões que os médicos descreveram com tons cuidados e medidos, sem espaço para esperança.
Diogo enterrou-a numa manhã chuvosa, prometendo no cemitério que protegeria os filhos a qualquer custo. Cumpriu essa promessa da única forma que sabia.
Contratou especialistas, instalou equipamento, seguiu todas as recomendações à risca. A segurança tornou-se controlo, e o controlo tornou-se uma gaiola de que nenhum deles sabia escapar.
Inês Monteiro chegou meses depois, contratada para gerir a casa e trazer algum calor de volta a um lar que se tornara frio e silencioso. Ela não era terapeuta.
Nunca afirmou ser. Mas falava com os rapazes como se ainda estivessem completos, ainda capazes, e de alguma forma, eles respondiam.
Naquela noite, incapaz de dormir, Diogo reviu as imagens de segurança do dia anterior. Viu Inês sentada no chão com os rapazes, guiando as suas pernas em movimentos suaves, cantarolando baixinho.
Inclinou-se para a frente quando notou, quase impercetivelmente, os dedos dos pés de Afonso a moverem-se. Repassou o momento vezes sem conta, a respiração a falhar-lhe a cada repetição.
Imagens mais tarde mostravam Simão a estender a mão para Inês, o rosto iluminado por um sorriso que Diogo não via desde antes do acidente.
Viu Inês sussurrar palavras de encorajamento, a voz cheia de paciência e fé. “Tentar não é inútil,” disse calmamente num dos vídeos. “Tentar é onde tudo começa.”
Diogo cobriu o rosto com as mãos, o peso do seu medo a desabar sobre ele. Ele tinha impedido a única coisa que fizera os filhos sorrir.
Ao amanhecer, encontrou Inês adormecida no chão, fora do quarto dos rapazes, enrolada num cobertor, tendo ficado apesar de lhe ter dito para ir embora. Algo dentro dele mudou.
“Eu estava errado,” disse-lhe mais tarde naquela manhã, a voz mal firme. “Devia ter ouvido.”
Ela estudou-o com cuidado. “Eles precisam de si presente,” disse. “Não apenas protegido.”
Dias depois, novos exames confirmaram o que as imagens sugeriam. Havia atividade nervosa, mínima mas inegável.
A Dra. Sofia Martins reviu os resultados duas vezes antes de olhar para cima, a descrença clara no rosto. “Algo está a responder,” disse. “Ainda não consigo explicar, mas é real.”
Nem todos receberam bem a mudança. A mãe de Diogo, Margarida Costa, chegou sem aviso, a preocupação a transformar-se em suspeita quando soube que Inês estava a trabalhar com os rapazes.
“Isto é irresponsável,” disse severamente. “Está a deixar que o desespero turve o seu julgamento.”
A certeza dela vacilou apenas quando Simão, apoiado pelas mãos de Inês, conseguiu ficar de pé por alguns segundos trémulos.
Estendeu os braços com esforço e intenção para a avó. Margarida não disse nada enquanto as lágrimas lhe encheram os olhos, virando-se antes que alguém as visse cair.
Na manhã seguinte, Inês tinha partido. Uma nota esperava no balcão da cozinha, agradecendo a Diogo por confiar nela e pedindo-lhe que não parasse de trabalhar com os rapazes.
Quando Diogo encontrou Afonso e Simão a chorar baixinho na sala de terapia, a verdade atingiu-o por completo.
“Onde está a Dona Inês?” perguntou Afonso, a voz trémula mas clara. Era a primeira frase completa que ele proferia em mais de um ano.
Diogo não hesitou. Encontrou-a nessa tarde num apartamento modesto do outro lado da cidade, a chuva a encharcar-lhe o casaco enquanto esperava à sua porta. “O meu filho falou hoje,” disse quando ela abriu, a emoção a transparecer em cada palavra. “Perguntou por si.”
Ela fitou-o, as lágrimas a caírem livremente. “Eles precisam de alguém que acredite,” sussurrou.
“Eu acredito,” Diogo respondeu. “Agora acredito.”
Meses passaram. O progresso veio devagar, dolorMas com o tempo, passo a passo, os sorrisos que antes eram raros tornaram-se tão comuns como a luz do sol a entrar pela janela daquela casa que, finalmente, voltou a ser um lar.





