Pai, aquelas crianças no lixo parecem iguais a mim!5 min de lectura

**Diário Pessoal**

Hoje foi um dia que mudou tudo.

“Pai, aquelas duas crianças a dormir no lixo parecem iguais a mim,” disse o Tomás, apontando para os dois miúdos enrolados num colchão velho na calçada. O Alexandre Fernandes parou e seguiu com os olhos o dedo do filho de cinco anos. Havia duas crianças da mesma idade, encolhidas entre sacos de lixo, com roupas rasgadas e pés descalços e feridos.

O empresário sentiu um nó no peito ao ver a cena, mas tentou puxar a mão do Tomás para continuarem a caminhar até ao carro. Tinha acabado de buscá-lo à escola privada onde estudava, e como todas as tardes de sexta-feira, estavam a voltar para casa pelo centro da cidade. Era um caminho que o Alexandre evitava, preferindo sempre os bairros mais abastados. Mas o trânsito intenso e um acidente na avenida principal obrigaram-nos a passar por aquela zona mais pobre.

As ruas estreitas estavam cheias de sem-abrigo, vendedores ambulantes e crianças a brincar entre o lixo acumulado nos passeios. No entanto, o Tomás escapou-lhe com uma força surpreendente e correu para as crianças, ignorando os protestos do pai. O Alexandre seguiu-o, preocupado não só com a reação do filho perante tanta miséria, mas também com os perigos daquele bairro. Havia relatos constantes de roubos, tráfico e violência.

As roupas caras e o relógio de ouro no pulso tornavam-nos alvos fáceis. O Tomás ajoelhou-se ao lado do colchão sujo e observou os rostos adormecidos das crianças, exaustas da vida nas ruas. Uma tinha cabelo castanho-claro, ondulado e brilhante apesar da poeira, tal como o dele, e a outra era morena, com a pele um pouco mais escura. Mas ambas tinham traços faciais idênticos aos do Tomás: as sobrancelhas arqueadas e expressivas, o rosto delicado e oval, até o covinha no queixo que ele herdara da mãe, já falecida.

O Alexandre aproximou-se devagar, o desconforto a crescer dentro dele. Havia algo profundamente perturbador naquele parentesco, algo que ia muito além de uma simples coincidência. Era como se estivesse a ver três versões da mesma pessoa em fases diferentes da vida. “Tomás, vamos embora agora. Não podemos ficar aqui,” disse, tentando levantar o filho, mas sem conseguir desviar os olhos daquelas crianças adormecidas.

“Elas parecem mesmo comigo, Pai. Olha para os olhos delas,” insistiu o Tomás quando uma das crianças se mexeu lentamente e abriu os olhos com dificuldade. Revelou dois olhos verdes idênticos aos do Tomás, não só na cor, mas também na forma amendoada, na intensidade do olhar e no brilho natural que o Alexandre conhecia tão bem. O menino assustou-se com a presença de estranhos e acordou o irmão com toques suaves, mas urgentes, no ombro.

Os dois levantaram-se de um salto, abraçando-se, visivelmente trémulos—não só de frio, mas de medo puro e instintivo. O Alexandre reparou que ambos tinham os mesmos caracóis que o Tomás, apenas em tons diferentes, a mesma postura, a mesma maneira de se moverem e até de respirar quando estavam nervosos.

“Não nos magoem, por favor,” disse o de cabelo castanho, instintivamente colocando-se à frente do irmão mais novo. Era o mesmo gesto protetor que o Tomás fazia com os colegas mais frágeis na escola quando algum valentão os intimidava. O empresário sentiu as pernas a tremer e teve de se apoiar numa parede de tijolo para não cair. A semelhança entre as três crianças era impressionante, assustadora, impossível de atribuir ao acaso.

“Como se chamam?” perguntou o Tomás, com a inocência dos seus cinco anos, sentado no passeio sujo, sem se importar de sujar o uniforme caro da escola.

“Eu sou o João,” respondeu o de cabelo castanho, relaxando ao perceber que aquele menino da sua idade não representava perigo. “E este é o Francisco, o meu irmão mais novo,” acrescentou, apontando para o moreno ao lado.

O Alexandre sentiu o mundo a girar ainda mais depressa, como se o chão tivesse desaparecido debaixo dos pés. Aqueles eram exatamente os nomes que ele e a Catarina tinham escolhido para os outros filhos, caso a gravidez complicada resultasse em trigémeos—nomes escritos num papel guardado com carinho na gaveta do criado-mudo, discutidos durante longas noites de insónias. Nomes que nunca mencionara ao Tomás ou a mais ninguém depois da morte da esposa.

“Vocês vivem aqui na rua?” continuou o Tomás, conversando com as crianças como se fosse a coisa mais natural do mundo, tocando a mão suja do João com uma familiaridade que perturbou ainda mais o Alexandre.

“Não temos uma casa de verdade,” disse o Francisco com uma voz fraca e rouca, provavelmente de tanto chorar ou pedir ajuda. “A tia que cuidava de nós disse que já não tinha dinheiro e trouxe-nos aqui no meio da noite. Disse que alguém apareceria para nos ajudar.”

O Alexandre aproximou-se devagar, tentando processar o que via e ouvia sem perder a sanidade. Os três não só pareciam ter a mesma idade e traços físicos, mas também partilhavam gestos inconscientes e automáticos. Todos os três coçavam atrás da orelha direita quando estavam nervosos. Todos mordiam o lábio inferior no mesmo sítio antes de falar. Todos pestanejavam da mesma maneira quando se concentravam. Eram pequenos detalhes, impercetíveis para a maioria, mas devastadores para um pai queE no final, o Alexandre percebeu que a verdadeira família não se faz pelo sangue, mas pelo amor que escolhemos dar todos os dias.

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