**Capítulo 1: O Cheiro da Chuva**
Eu conseguia sentir a chuva chegando.
É o que acontece depois de quinze anos trabalhando com metal e graxa—você desenvolve um sexto sentido para quando a pressão do ar cai. Mas, pensando bem, talvez não fosse o tempo. Talvez fosse um aviso.
Limpei as mãos em um pano de oficina, a gordura deixando manchas escuras no tecido, e olhei para o relógio. 14:45. Hora de buscar a Mafalda.
“Ei, Zé! Já vais embora?” gritou o Tozé de baixo de um velho Opel Corsa. O Tozé não era pequeno—era um homem de quase dois metros de altura, todo músculos, que chorava com propagandas de fraldas.
“Sim. Prometi à Mafalda que íamos ao gelado se ela ganhasse uma estrelinha hoje,” disse eu, pegando as chaves. “Fecha a oficina se eu não voltar em uma hora.”
Entrei na minha velha carrinha Ford. Não levei a moto hoje. Estava a tentar ser “pai”, não o “sargento” dos Falcões de Ferro, o nosso clube de motoqueiros. Estava a tentar encaixar no molde que as mães da Associação de Pais da Escola Primária do Vale queriam.
Fui preso. Três anos por agressão quando tinha vinte e dois—um erro envolvendo um homem que tocou na minha irmã. Paguei a minha dívida. Montei um negócio. Criei a minha filha sozinho depois que a mãe dela desapareceu.
Mas para as pessoas do Vale, com os seus jardins impecáveis e SUVs de luxo, eu era só o lixo que deu à costa no seu código postal.
Estacionei perto da escola. A fila de carros era o habitual caos de carros caros e pais impacientes com auriculares Bluetooth. Parei a um quarteirão de distância para evitar os olhares e caminhei em direção ao portão.
Foi então que ouvi as risadas.
Não era o riso feliz de crianças a brincar. Era aquele riso cruel, cortante, que dá voltas ao estômago. Um grupo juntara-se perto da entrada principal, ao lado do mastro da bandeira. Os pais sussurravam. As crianças apontavam.
Fiz-me à frente, murmurando desculpas. “Com licença, deixem-me passar.”
E então vi-a.
O meu coração não parou—despedaçou-se.
A minha Mafalda. A minha doce, tímida Mafalda de sete anos, que desenhava borboletas e salvava minhocas do sol no passeio.
Ela estava no chão.
Não estava a brincar. Estava a rastejar.
A rastejar de joelhos no cascalho afiado do pátio. As suas leggings cor-de-rosa estavam rasgadas nos joelhos. Sangue escuro encharcava o tecido, manchando as pedras cinzentas de vermelho. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, misturando-se com o pó, mas ela não fazia um som. Estava demasiado assustada para gritar.
De pé sobre ela, de braços cruzados, como uma estátua do julgamento, estava a Diretora Carla Mendes.
“Continua, Mafalda,” berrou a Diretora. “Não arrastamos os pés. Acabamos a volta.”
O mundo ficou vermelho. Um zumbido agudo encheu os meus ouvidos.
Não corri—teleportei-me. Num instante estava a dez metros dali, no seguinte estava de joelhos no cascalho, a puxar a Mafalda para os meus braços.
Ela encolheu-se. Ela encolheu-se de mim.
“Pai?” choramingou, a voz a falhar. “Desculpa. Desculpa, não foi por mal.”
“Shh, princesa, shh. Estou aqui,” disse, apertando-a contra o meu peito. Sentia o seu coração a bater como um passarinho assustado. Olhei para os seus joelhos. A pele estava em farrapos.
Levantei-me com ela nos braços e virei-me para a Diretora Mendes.
Sou um homem grande. Um metro e noventa, cem quilos. Tenho tatuagens que sobem pelo pescoço. Uma cicatriz na sobrancelha esquerda. Normalmente, encolho os ombros para parecer menos assustador, para não assustar os vizinhos.
Mas hoje não.
Fiquei à minha altura total. O ar em volta pareceu cair dez graus. As risadas pararam. Os pais calaram-se.
“O que,” disse eu, a voz a sair como metal a ranger, “é o significado disto?”
A Diretora Mendes não recuou. Ajustou os óculos, olhando para mim com aquele misto de nojo e superioridade que eu já conhecia.
“A sua filha,” disse a Diretora, alto o suficiente para a multidão ouvir, “atacou uma aluna. Especificamente, a minha filha, a Beatriz. Empurrou-a para os cacifos.”
“É mentira!” soluçou a Mafalda no meu pescoço. “Ela roubou o meu caderno de desenhos! Rasgou-o! Só tentei tirá-lo dela!”
“Silêncio!” berrou a Diretora. “Não toleramos violência, Sr. Almeida. Como a sua filha decidiu agir como um animal, decidi que devia aprender a mover-se como um. Talvez rastejar lhe ensine humildade.”
Olhei em volta. “E vocês?” gritei para os pais. “Só ficaram a ver? Viram uma adulta obrigar uma criança de sete anos a ralar os joelhos no cascalho?”
A maioria virou o olhar. Um pai, de camisa pólo, bufou. “Se magoou a Beatriz, merece castigo. Se a educasse melhor em vez de… seja lá o que faz…” Fez um gesto vago para o meu fato de macaco.
A Diretora sorriu. “Leve-a e vá, Sr. Almeida. E não se preocupe em voltar amanhã. Está suspensa por três dias. Da próxima vez, ensine-a a não tocar nos seus superiores.”
**Superiores.**
A raiva que senti era tão pura, tão tóxica, que sabia a ácido de bateria. Fechei o punho. Queria destruí-la. Queria derrubar aquela escola tijolo a tijolo com as minhas próprias mãos.
Mas olhei para a Mafalda. Ela tremia. Se eu batesse naquela mulher, ia preso. A Mafalda iria para a proteção de menores. Eles ganhariam.
Respirei fundo. Forcei o monstro de volta para a jaula.
“Tem razão,” disse, a voz baixa e gelada. “Vou levá-la.”
Caminhei até à carrinha, carregando a minha filha a sangrar.
“Volta para o bairro social!” gritou alguém no fundo da multidão.
Coloquei a Mafalda no banco do passageiro. Usei o kit de primeiros socorros para limpar os joelhos dela. Ela encolhia-se a cada toque do álcool.
“Pai, sou má?” perguntou, com os olhos cheios de lágrimas.
“Não, princesa. És a melhor coisa deste mundo,” disse, beijando-lhe a testa. “E ninguém—ninguém—vai fazer-te rastejar outra vez.”
Apertei-lhe o cinto. Sentei-me ao volante.
Não liguei a carrinha de imediato. Peguei no telemóvel.
Não liguei para a direção escolar. Estavam no bolso da Diretora Mendes. Não liguei para a polícia. Eles detestavam-me.
Liguei para um número que não usava para “negócios” há dois anos.
“Tozé,” disse quando atendeu.
“Sim, chefe?”
“Põe o letreiro de ‘Fechado’ na oficina.”
“Porquê?”E no dia seguinte, quando os Falcões de Ferro encheram a escola com o rugido das suas motas, até a Diretora Mendes aprendeu que até os lobos têm medo quando as ovelhas mostram os dentes.”





