O grito ecoou pelos corredores de mármol da mansão Costa.
Parecia uma lâmina afiada cortando o silêncio.
Duarte Costa, o titã do mercado imobiliário, largou tudo.
Era um homem temido, capaz de dobrar mercados com um único telefonema.
Mas naquele momento, era apenas um pai aterrorizado, correndo para o quarto do filho.
João, seu menino de seis anos, estava encolhido na cama grande.
Seus dedinhos apertavam o estômago com força desesperada.
O rosto estava encharcado de lágrimas.
O corpo tremia sem controle.
Seus gritos eram roucos, quase sem ar.
Era o quinto ataque em duas semanas.
Cinco vezes Duarte ficou parado, inútil, vendo o filho se contorcer.
Os melhores especialistas de Lisboa fizeram exames, ultrassons, análises de sangue.
Todos os resultados eram impecavelmente normais.
Nada explicava a dor.
Mas o sofrimento era inegavelmente real.
Os soluços de João ecoavam no peito de Duarte como marteladas.
As babás nunca duravam.
Algumas fugiam depois da primeira noite, murmurando sobre sombras na casa.
Outras iam embora consumidas pelo medo.
Agora, mais uma tremia na porta, incapaz de esconder o pânico enquanto João gritava novamente.
Duarte tentou acalmá-lo.
Um milionário com o mundo aos seus pés, impotente diante do que atormentava seu filho.
Daria todos os negócios, todos os luxos, cada euro por um minuto de alívio para João.
Mas nada funcionava.
Não sabia que a salvação não viria de um médico.
Viria de uma mulher serena chamada Inês Marques.
Duarte não dormia há dois dias quando anunciaram a nova candidata.
Era a sétima babá em três meses.
Desceu a escadaria majestosa esperando ver mais uma mulher hesitante pronta para desistir.
Mas ao chegar no hall, congelou.
Junto à porta estava Inês Marques.
Era alta, de pele morena, com olhos tranquilos da cor da terra quente.
Vestia roupas simples: jeans escuros e uma blusa bege.
Mas havia algo em sua postura.
Uma confiança sólida que parecia deslocada naquele mundo de mármore e medo.
Quando estendeu a mão, o aperto foi firme e quente.
— Estou aqui pelo emprego.
Disse sem nervosismo, sem desculpas, com absoluta certeza.
Duarte examinou seu currículo.
Cinco anos em enfermagem pediátrica.
Dois cuidando de crianças de famílias ricas.
Referências perfeitas.
— Demais. Por que deixou o hospital? — perguntou ele.
Uma sombra passou rápido por seu rosto.
— Razões pessoais.
Ela o encarou com uma coragem que ele não conhecia.
— Prefiro trabalhar diretamente com as crianças.
Pausou e acrescentou:
— A dor do seu filho não me assusta, Sr. Costa. Já vi coisas que os médicos nem sempre explicam.
As palavras o atingiram como um vento frio.
“Superstição de novo”, pensou.
Quase a dispensou na hora.
Mas então João gritou lá em cima.
Um grito agudo, desesperado.
Algo dentro de Duarte se quebrou.
— Está bem — sussurrou. — Venha comigo.
Sem hesitar, Inês seguiu-o escada acima.
Ao entrar no quarto de João, sua expressão suavizou por completo.
Ajoelhou-se ao lado do menino trêmulo com infinita ternura.
Era o olhar de quem já carregara sua própria dor e a reconhecia em outro.
Até Duarte sentiu: aquela mulher era diferente.
A respiração de João era superficial.
Seu corpinho tremia sob os lençóis de algodão.
Inês permaneceu ao seu lado.
Suas mãos pairaram sobre a barriga do menino, sem tocar, apenas sentindo.
Duarte ficou aos pés da cama, dividido entre desespero e desconfiança.
— A dor sempre começa aqui, não é? — perguntou Inês, suave.
— Sim — respondeu Duarte, voz embargada. — E só piora.
Ela pressionou levemente os dedos ao redor do umbigo do menino.
Devagar, cuidadosa, profissional.
João gemeu no início.
Depois arfou bruscamente quando seus dedos pararam num ponto abaixo do estômago.
O menino abriu os olhos, escuros e assustados.
— Aqui — sussurrou ela. — Algo está errado aqui.
O coração de Duarte acelerou.
Os exames não mostravam nada porque não sabiam o que buscar.
A certeza dela gelou sua espinha.
João agarrou o pulso de Inês de repente, soltando um grito baixo.
Inês baixou a voz, transformando-a numa melodia suave.
— Ei, ei, respira comigo. Você está seguro, meu amor. Estou aqui.
E milagrosamente, ele obedeceu.
Seus soluços acalmaram.
Seus músculos relaxaram sob o toque dela.
Duarte observou, atônito.
Por semanas, nenhum remédio acalmara seu filho.
Mas aquela estranha, com mãos gentis e coragem firme, conseguiu em menos de um minuto.
Quando João finalmente adormeceu, exausto, Inês levantou-se.
Não havia medo em seus olhos, só resolução.
— Sr. Costa — disse baixinho. — Não vou mentir.
Pausou, fitando-o.
— Isso não é dor comum. Seu filho precisa de ajuda que nenhum hospital pode dar.
Duarte engoliu seco.
— O que está dizendo?
— Estou dizendo que João não está apenas doente. Ele está sendo atacado.
O quarto pareceu inclinar.
Duarte sentiu o ar ficar pesado.
— Atacado? — repetiu, a palavra pesada e irreal.
Inês não pestanejou.
Sua silhueta destacava-se contra a luz baixa do abajur.
— Há algo dentro dele — disse ela. — Algo colocado ali de propósito.
Sua voz não tinha drama, só certeza devastadora.
Duarte sacudiu a cabeça.
— Isso é impossível. Meu filho está sempre comigo ou com a equipe.
— A confiança — interrompeu ela suavemente — é exatamente como essas coisas acontecem.
As palavras cortaram mais fundo que qualquer acusação.
Duarte sentou na beirada da cama, esfregando as têmporas.
A verdade batia nele em ondas para as quais não estava pronto.
Seis meses de sofrimento.
E a ideia de que alguém fizera isso de propósito enchia seu estômago de fúria.
Inês aproximou-se.
— Ainda não sei o que é o objeto — continuou. — Mas ele se move.
Duarte ergueu o olhar.
— Toda vez que ele come, toda vez que bebe, ele se desloca. Por isso os médicos não viram.
Seus olhos suavizaram.
— E por isso ele grita.
Duarte olhou para o filho, frágil e exausto.
O sobe e desce do peito de João parecia vulnerável demais para um mundo tão cruel.
— O que fazemos? — sussurrou.
Inês inspirou fundo.
— Deixe-me trabalhar. Não será fácil, e você terá de acreditar em coisas que não aparecem em monitores de hospital.
Ele encontrou seu olhar: firme, sem medo, inquebrantável.
Pela primeira vez em semanas, Duarte sentiu algo novo.
Esperança afiada pelo terror.
Porque se Inês estivesse certa, o verdadeiro pesadelo só começava.
A noite caiu pesada sobre a mansão.
Era aquela quietude que fazia as sombras parecerem vivas.
Inês permanLá fora, a lua crescente cortava as nuvens, e pela primeira vez em meses, João dormia em paz, enquanto Duarte e Inês, unidos pelo mesmo mistério, trocavam um último olhar antes da tempestade que ainda viria.





