Há Vinte Anos, um Prato de Comida. Hoje, 97 Motociclistas à Sua Porta.6 min de lectura

Diana Moraes ouviu-os antes de os ver. Noventa e sete motores a roncar em uníssono pela Rua do Comércio, em formação cerrada, a avançarem diretamente para a sua pequena pastelaria. A cidade inteira de Serpa Azul parou. Motociclistas de clubes fechados não apareciam assim no Alentejo interior. Não desta maneira. Não noventa e sete deles.

As mãos de Diana tremiam enquanto fechava a caixa registadora. Vinte e um anos antes, alimentara um adolescente esfomeado, com um olho negro e um casaco de cabedal que parecia roubado. Der-lhe-ia pão, não fizera perguntas e dissera-lhe que ele era importante. Depois, ele desaparecera.

Agora, o motociclista da frente tirava o capacete. E quando Diana viu o seu rosto, cada um daqueles anos desfez-se em nada. O que ela fizera por um rapaz perdido estava prestes a mudar tudo.

O rugido começou baixo, como um trovão distante a rolar pelas planícies alentejanas. Depois, cresceu, ficou mais alto, mais próximo, um som que não pertencia a Serpa Azul numa manhã de terça-feira. Diana Moraes, agora com 64 anos, reabastecia a vitrine dos sonhos de creme quando Dona Amélia, a sua cliente mais antiga e principal fonte de mexericos da vila, entrou na pastelaria com os olhos arregalados e o rosto pálido.

— Diana, tens de ver isto.

A pastelária limpou as mãos ao avental, uma peça que já fora branca e agora ostentava as nódoas de uma vida inteira dedicada à farinha e ao açúcar, e seguiu a cliente até à janela. O que viu gelou-lhe o sangue.

Motos. Dezenas delas. Não, não dezenas. Contou três filas, cada uma a estender-se por toda a extensão da Rua do Comércio. Noventa e sete Harley-Davidson a avançar em direção à sua pastelaria em formação perfeita. O cromo brilhava sob o sol da manhã. Os pilotos, vestidos de cabedal, sentavam-se direitos nas selas. Cada um usava o mesmo emblema nas costas: uma caveira alada, a sorrir um sorriso eterno, com as palavras “Anjos da Estrada MC” em arco por cima.

Isto não acontecia em vilas como Serpa Azul. População: 2.400 almas. Um semáforo, três igrejas, um coreto na praça principal. Um sítio onde todos se conheciam, onde a notícia do dia era normalmente quem ganhara o concurso de doces na festa da aldeia.

As motos pararam em frente às “Delícias da Diana” e os motores calaram-se. O silêncio súbito que se instalou pareceu mais pesado e ameaçador do que o ruído. As mãos de Diana encontraram a borda do balcão de madeira e agarraram-na com força. A gaveta da caixa registadora estava aberta; ela estava a meio da contagem das receitas do dia anterior.

Pela montra, viu o piloto da frente desmontar. Alto, talvez um metro e noventa, rosto marcado pelo tempo, à volta dos quarenta. Uma cicatriz descia da têmpora esquerda até ao maxilar. Vestia cabedal preto da cabeça aos pés, o seu colete coberto de emblemas que ela não entendia. Quando tirou o capacete, um cabelo escuro e comprido caiu-lhe sobre os ombros. Olhou diretamente para a pastelaria, diretamente para ela, e começou a caminhar em direção à porta. Atrás dele, outros noventa e seis homens fizeram o mesmo.

A mente de Diana disparou. O que é que ela fizera? A quem é que ela ofendera? Morava naquela vila há 43 anos, gerira a pastelaria há 25. Pagava os seus impostos, ia à missa aos domingos, ajudava os seus vizinhos. Ela não era o tipo de pessoa que atraía este tipo de atenção.

Mas depois, algo brilhou no fundo da sua memória. Um inverno diferente, vinte e um anos atrás. Um rapaz com um olho negro e o estômago vazio. Um casaco de cabedal roubado que parecia exatamente como aqueles que aqueles homens usavam. Der-lhe-ia pão. Der-lhe-ia abrigo. Disse-lhe algo de que já não se lembrava bem, algo que o fizera chorar. Depois, ele desaparecera sem deixar rasto, e ela passara anos a pensar se ele teria sobrevivido.

O piloto líder chegou à maçaneta da porta. O coração de Diana batia com força contra as costelas. Cada cliente na pastelaria calara-se. Dona Amélia agarrou a sua bolsa como se se preparasse para fugir. O velho Senhor Artur, que lia o seu jornal no cubículo do canto todas as terças-feiras de manhã nos últimos 30 anos, dobrou-o lentamente e pousou-o na mesa.

A porta abriu-se. O homem entrou. De perto, era ainda maior, mais largo. Mas os seus olhos… os seus olhos não eram duros. Eram perscrutadores, a olharem para ela como se estivesse a tentar resolver um puzzle. Tirou os óculos de sol. A sua voz era profunda, rouca, mas não hostil.

— Diana Moraes?

Ela anuiu. A sua garganta fechara-se. Nenhuma palavra saía.

Ele olhou em redor da pastelaria lentamente, absorvendo cada detalhe. Os sonhos dourados a arrefecerem em grades de arame. As fotografias na parede, fotos desbotadas da inauguração, do seu falecido marido António, de pé, orgulhoso, em frente à fachada. O menu no quadro, escrito com a sua caligrafia cuidada. As cortinas axadrezadas vermelhas e brancas que ela mesma cosera. O cheiro a levedura, açúcar e café que definia aquele lugar há um quarto de século.

— Lembra-se de ter alimentado um rapaz em 2003? — Os seus olhos voltaram para o rosto dela. — Dezassete anos, todo desfeito. Sem ter para onde ir.

A mão de Diana voou para o peito. A memória que brilhava tornou-se mais nítida, mais clara. O rapaz, a frente fria de janeiro, a pancada na porta antes do amanhecer.

— Deu-lhe pão — continuou o homem, a sua voz a suavizar. — Deu-lhe um sítio para dormir. Disse-lhe algo que ele nunca esqueceu.

Atrás dele, mais homens entravam na pastelaria. Moviam-se silenciosamente, respeitosamente, mas encheram o pequeno espaço até mal haver lugar para respirar. Cabedal e jeans, e o cheiro a pó da estrada. Tatuagens a cobrir braços, pescoços, mãos. Emblemas a declarar secções de cidades onde ela nunca estivera. Rostos que tinham visto a vida dura, anos difíceis, escolhas difíceis. Mas nenhum deles parecia ameaçador. Pareciam homens à espera de algo importante.

As mãos de Diana tremiam agora. Pressionou-as contra o balcão para parar o tremor.

— Lembro-me — sussurrou ela.

O rosto do homem mudou. Algo na sua expressão abriu-se.

— Bom — disse ele. — Porque aquele rapaz também nunca se esqueceu de si.

Vinte e um anos antes, Diana Moraes era uma mulher diferente. Mais nova, sim, 43 em vez de 64. Mas, mais do que isso, estava oca de luto, esfolada pela perda, mal se aguentando de pé com rotinas, responsabilidades e a teimosa recusa em desistir do sonho do seu falecido marido.

António Moraes morrera em novembro de 2002. Acidente de construção, o colapso de um andaime numa obra em Lisboa. Tinha 45 anos. Estavam casados há 22. Morrera instantaneamente, disseram os médicos. Não sofrera. Como se isso devesse tornar as coisas melhores.

A pastelaria tinha sido ideia dele. AntE então, com as mãos ainda cobertas de farinha e o coração a bater com uma força que há muito não sentia, Diana sorriu para a multidão de rostos à sua volta e disse: “Hoje, os sonhos estão por minha conta.”

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