Haverá alguma mesa livre? A chuva de verão batia suavemente contra os vidros da Pastelaria Solar, um estabelecimento acolhedor aninhado no coração do Chiado. Lá dentro, a luz quente dos candeeiros de pendente iluminava um espaço onde o aroma do café recentemente moído se misturava com o cheiro dos pastéis de nata ainda quentes. No meio da azáfama da hora de almoço, Matilde Costa estava à entrada, com a sua filha de 5 anos, Beatriz, a agarrar-lhe a mão.
A roupa estava ligeiramente húmida do aguaceiro, e as tranças castanhas de Beatriz pesavam com a água da chuva. “Mamã, estou com fome”, sussurrou Beatriz, puxando a manga da mãe.
Matilde percorreu a pastelaria cheia de gente. Todas as mesas estavam ocupadas, exceto uma no canto, onde um homem com um fato de fato azul-marinho impecavelmente talgado estava sozinho, concentrado no seu portátil. O cabelo escuro tinha alguns fios grisalhos nas têmporas, e a expressão severa fê-la hesitar.
“Só um minuto, querida”, disse Matilde, ajustando a velha saca de lona ao ombro que continha os seus currículos e portfólio.
Tinha acabado de ter mais uma entrevista de emprego dececionante, a terceira naquela semana. Com a renda a vencer em 5 dias e pouco mais do que o suficiente na sua conta para as compras, não podia pagar uma refeição numa pastelaria tão requintada. Mas a Beatriz precisava de almoçar, e o aguaceiro não dava sinais de abrandar.
Respirando fundo, Matilde aproximou-se da mesa. O homem não olhou para cima quando ela parou à sua frente, os dedos a moverem-se rapidamente pelo teclado.
“Desculpe”, disse Matilde, a voz quase inaudível sobre o ruído ambiente do café. Ela limpou a garganta. “Posso partilhar esta mesa?”
Ele olhou para cima, os seus olhos azuis penetrantes a encontrarem os dela com surpresa ligeira. O seu olhar desviou-se brevemente para Beatriz, semi-escondida atrás das pernas da mãe, e depois de volta para Matilde. Por um momento, ele pareceu estar a calcular algo.
“Só se eu pagar a conta”, respondeu, a voz profunda carregada de um traço de autoridade.
As faces de Matilde coraram. “Não é necessário. Nós pagamos a nossa refeição.”
“Eu insisto”, disse ele, fechando o portátil e estendendo a mão. “Gonçalo Silveira.”
Matilde hesitou antes de a apertar. “Matilde Costa. E esta é a Beatriz.”
Gonçalo fez sinal para as cadeiras vazias. “Por favor, juntem-se a mim.”
Relutantemente, Matilde ajudou Beatriz a sentar-se e sentou-se em frente a ele. Aceitar a sua oferta pareceu uma desvantagem, mas o orgulho não iria alimentar a sua filha.
Uma empregada aproximou-se. Gonçalo pediu um café para si e perguntou o que elas queriam.
“Nuggets de frango e sumo de maçã, por favor”, disse Beatriz.
“Eu quero apenas uma salada pequena”, acrescentou Matilde, escolhendo deliberadamente um dos itens menos caros.
Gonçalo levantou uma sobrancelha. “Acrescente uma sanduíche completa ao pedido da senhora.”
“Eu não pedi uma sanduíche”, disse Matilde.
“Parece que precisa de mais do que uma salada”, respondeu Gonçalo, de forma factual. “A entrevista não correu bem?”
Matilde ficou tensa. “Como é que—”
“Saca de portfólio. Traje formal ligeiramente gasto para alguém que já tem emprego. O ar de desilusão.” Ele encolheu os ombros. “É o meu negócio ler pessoas.”
“E que negócio é esse, exatamente?”
“Dirijo a Silveira & Filhos.”
Matilde reconheceu o nome. A Silveira & Filhos era uma das maiores empresas de desenvolvimento imobiliário do país. Eram donos de metade dos arranha-céus em Lisboa, incluindo o edifício onde ela tinha acabado de ser entrevistada.
“É esse Silveira?”
“O próprio.”
Beatriz, que tinha estado a observar em silêncio, falou subitamente. “A minha mãe é a melhor designer gráfica do mundo inteiro.”
A expressão de Gonçalo suavizou-se ligeiramente. “A sério?”
“Ela faz desenhos bonitos para os computadores, mas ninguém a quer contratar porque são estúpidos.”
“Beatriz”, repreendeu Matilde, embora sorrindo.
“Bem, acho que as pessoas que não contrataram a sua mãe podem ter cometido um erro”, disse Gonçalo, depois olhou novamente para Matilde. “Design gráfico? Qual é a sua especialidade?”
“Identidade de marca e design UI/UX. Trabalhei para a Pereira & Santos durante 5 anos antes de terem feito cortes no inverno passado.”
O reconhecimento acendeu-se nos seus olhos. “Eles fizeram um trabalho impressionante. Tem amostras consigo?”
A comida chegou antes que ela pudesse responder. Beatriz concentrou-se imediatamente nos seus nuggets. Matilde pegou na sua saca e tirou o tablet.
“Estes são alguns dos meus projetos recentes.”
Gonçalo percorreu o seu portfólio com foco intenso. Matilde estudou-o. Apesar da sua presença intimidante, havia cansaço à volta dos seus olhos, talvez solidão. O anel de casamento que ela tinha notado mais cedo parecia gasto e ligeiramente largo.
“Isto é bastante bom”, disse ele, parando numa campanha abrangente de rebranding para uma cervejaria local. “Muito bom. Porque é que ainda não a contrataram?”
“O mercado é competitivo. E eu tenho limitações na minha disponibilidade. Mãe solteira.” Ela acenou com a cabeça na direção de Beatriz.
Gonçalo acenou com a cabeça. “Não ofereceram horários flexíveis?”
“A maioria dos sítios quer alguém no escritório das 9 às 6. O ATL é caro, e o pai da Beatriz não está na picture.”
Uma sombra passou pelo seu rosto. Ele olhou para o seu relógio caro, depois para a janela, para a chuva, que começava a abrandar.
“A Silveira & Filhos está a lançar uma nova subsidiária focada em desenvolvimentos habitacionais sustentáveis”, disse ele. “Precisamos de uma identidade de marca distinta, separada do nosso trabalho corporativo. O nosso departamento de marketing é adequado, mas este projeto requer uma perspetiva fresca.”
Matilde pousou o garfo. “Está a oferecer-me um emprego, Engenheiro Silveira?”
“Estou a oferecer-lhe a oportunidade de apresentar uma proposta para um contrato. Estamos a entrevistar empresas de design para a semana. Posso adicioná-la à agenda.”
A esperança cresceu, temperada pela cautela. “Porque faria isso?”
Ele olhou para Beatriz. “Digamos que tenho um fraco por pais solteiros determinados.”
Ele entregou-lhe um cartão de visita. “Quarta-feira, às 14h. Pergunte por mim na receção.”
Ao pegá-lo, os seus dedos roçaram. Ele pediu a conta.
“Não me agradeça ainda”, disse ele. “Vai estar a competir contra empresas estabelecidas. O campo de jogo não é nivelado.”
“Nunca é”, respondeu Matilde. “Mas nunca deixei que isso me impedisse.”
Enquanto ele pagava, Matilde reparou que ele observava Beatriz com algo entre tristeza e saudade.
“Tenho de ir”, disse ele.
“Nós também”, respondeu Matilde.
Ele hesitou, depois escreveu algo no verso de outro cartão. “Este é o meu número pessoal. Caso tenha perguntas.”
Ao sair, Beatriz correu à volta da mesa e abraçou-lhe as pernas.
“Obrigada pelos nuggets, Senhor Engenheiro.”
Ele gelou, surpreendido. PorEle congelou, visivelmente comovido, e depois baixou-se para lhe sussurrar algo que só ela ouviu, erguendo-se com um sorriso que, finalmente, parecia genuíno.





