A Imagem Esquecida no Escritório do ChefeUma memória reprimida de sua infância voltou à tona, revelando que o homem que ela chamava de patrão era a mesma pessoa que havia arruinado a vida de sua família.6 min de lectura

O ar no trigésimo quinto andar da torre Silva & Associados não circulava; simplesmente flutuava, denso com o cheiro a cera de chão, tabaco caro e o ozono do ar condicionado de alta gama. Lá fora, por detrás dos envidraçados do chão ao teto, Lisboa estendia-se num mosaico nevoeiro de jacarandás roxos e avenidas saturadas de tráfego; mas lá dentro, o mundo estava em silêncio, abafado pela espessa almofada acústica do sucesso.

Catarina Santos sentiu aquele silêncio a pressionar-lhe os tímpanos. Alisou o tecido da sua saia preta —uma mistura barata de poliéster que parecia impostora contra o mármol italiano do átrio— e ajustou a alça da mala. A voz da sua mãe, fina e rouca pela tosse que nunca a abandonava por completo, ecoou na sua mente: Cabeça erguida, Catarina. Pertences a estas salas tanto como qualquer um. Apenas não deixes que te vejam pestanejar.

Mas Catarina pestanejava rapidamente, o coração como um pássaro frenético enjaulado nas suas costelas.

—O senhor Silva espera por si —dispor Inês, baixando a voz até a transformar num sussurro conspirador. Inês tinha o olhar cansado e sábio de uma mulher que vira homens poderosos caírem e erguerem-se durante décadas. Inclinou-se para ela, e o seu perfume —algo intenso e floral— encheu os sentidos de Catarina.— Um conselho, querida. Ele não gosta de repetir. Se disser uma vez, é lei. E faça o que fizer, não olhe para os objetos pessoais na sua secretária. Ele considera a curiosidade uma forma de incompetência.

Catarina anuiu, com a garganta demasiado seca para responder. Seguiu Inês até às pesadas portas de mogno no fundo do corredor. Cada batida do seu salto alto foi uma contagem decrescente. Aquele emprego era a salvação. Eram os inaladores, os especialistas, a renda do apartamento que se desmoronava na Graça e a possibilidade de deixar de ver o saldo bancário com uma sensação de desgraça iminente.

As portas abriram-se com um sibilar pneumático.

O escritório era uma catedral de indústria. Inundado de sol e assustadoramente amplo, cheirava a papel antigo e cítricos. António Silva estava sentado por detrás de uma secretária talhada num único bloco de nogueira escura. Aos cinquenta e três anos, levava a idade como uma armadura: as têmpora grisalhas, o maxilar esculpido em granito e um fato tão perfeitamente cortado que parecia parte da sua pele. Não ergueu os olhos quando ela entrou. Assinava uma pilha de declarações; o riscar da sua caneta de tinta permanente era o único som na sala.

—Sente-se, menina Santos —disse. A sua voz era um barítono grave que vibrou no peito de Catarina.

Ela sentou-se na borda de uma cadeira de couro que custara mais que o funeral do seu pai. Observou a sua mão: o movimento firme e rítmico de um homem habituado a alterar vidas com um traço de tinta.

—As suas referências universitárias estão… sobrequalificadas para um cargo de secretariado —disse António por fim, tapando a caneta e erguendo o olhar.

Os seus olhos não eram castanhos predadores como Catarina imaginara num litigante. Eram de um cinza metálico inquietante, velados por um cansaço antigo e profundo. Por um segundo fugaz, quando os seus olhares se cruzaram, a mão dele vacilou. A caneta escorregou ligeiramente sobre o mata-borrão. O ar pareceu rarear, deixando-a atordoada.

—Aprendo rápido, senhor —conseguiu dizer.— E sou discreta.

—A discrição é uma moeda aqui —respondeu ele, recostando-se. O sol captou o brilho prateado do seu relógio.— Não me interessa conversa trivial, e muito menos desculpas. Irá gerir a minha agenda, filtrar as minhas chamadas e assegurar-se de que, quando eu estiver nesta sala, o resto do mundo não existe. Entendemo-nos?

—Perfeitamente.

Ele começou a enumerar ordens —números de processo, nomes de clientes, a temperatura exata a que queria o seu café—, mas a atenção de Catarina começou a fragmentar-se. Os seus olhos, traindo o aviso de Inês, desviaram-se para um canto da secretária.

Lá, junto a um pesado porta-papéis de cristal, havia uma moldura prateada. Estava ligeiramente baça nas bordas, fora de lugar numa sala onde todo o resto brilhava como um espelho.

A respiração de Catarina cortou-se.

A imagem era sépia, com as bordas desvanecidas, mas o sujeito era inconfundível. Uma menina de cerca de quatro anos, de pé numa clareira soalheira, vestida com um vestido branco de renda ligeiramente torcido, segurando um girassol enorme que lhe cobria metade do rosto.

Catarina conhecia aquele vestido. Sabia como a renda arranhava o pescoço. Conhecia o peso exato daquele girassol. E conhecia a pequena mancha castanha no canto inferior direito da foto, onde a sua mãe derramara uma gota de leite com café vinte anos antes.

Era ela.

Não alguém parecida. Não um jogo de luz. Era a fotografia que repousava na mesinha de cabeceira da sua mãe, numa moldura de plástico rachada.

A sala começou a inclinar-se. O rugido da cidade pareceu atravessar o vidro. A voz de António tornou-se um murmúrio distante.

—Menina Santos?

O tom cortante tirou-a do transe. Percebeu que estava de pé. Não se lembrava de se ter levantado. A sua mão estava estendida, o dedo trémulo a apontar para a moldura prateada.

—De onde…? —a sua voz partiu-se.— De onde tirou isso?

O rosto de António transformou-se. A máscara profissional não escorregou; estilhaçou-se. O seu bronzeado tornou-se cinzento. Olhou para a foto e depois para Catarina, examinando os seus traços com uma fome desesperada que a fez querer recuar.

—É apenas uma peça decorativa —disse, mas a sua voz carecia de autoridade. Cobriu a moldura com a mão trémula.— Decoração padrão.

—É mentira —sussurrou Catarina.— Essa sou eu. A minha mãe tem essa foto. Tê-la-á tirado desde o dia em que a tirámos no Jardim da Estrela. Porque a tem você?

António ergueu-se tão bruscamente que a cadeira bateu no vidro com um som surdo. Olhou para ela como se fosse um fantasma. Não chamou a segurança. Não a despediu. Apenas a observou, o peito ofegante.

—Como se chama a sua mãe? —perguntou quase inaudível.

—Teresa Santos. E se você nos tem estado a seguir…

—Teresa —repetiu ele, como se o nome o partisse. Deixou-se cair na cadeira.— Disse-me que a febre a levou no inverno de 03. Enviou-me uma carta. Sem morada. Com um recorte de obituário genérico. Disse que não restava nada para eu voltar.

Catarina sentiu um frio profundo.

—Eu não morri de febre. Mudámo-nos. Disse que o meu pai era uma sombra que não queria ser encontrada. Um homem de “coisas importantes” sem espaço para uma filha.

António ergueu o olhar, e Catarina viu lágrimas contidas.

—Procurei-a durante três anos. Contratei investigadores. Gastei tudo o que ganhei como associado júnior. Mas a Teresa sabia esconder-se. E depois chegou a carta. Achei que o merecia. PenseiQue amava tanto esta gaiola de vidro — que Deus ma tinha tirado.

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