O Restaurante A Tasquinha ficava numa rua modesta do centro do Porto, a dois quarteirões do mercado e a um do ruído constante dos autocarros. À hora do almoço, o local enchia-se com o aroma de caldo verde, bolinhos de bacalhau e café fresco. As loiças chocavam, as cadeiras rangiam sobre o soalho e as voes sobrepunham-se umas às outras como se toda a gente tivesse pressa de chegar a algum lado.
Beatriz Silva, de vinte e três anos, carregava essa pressa agarrada à pele há muito. Trabalhava ali desde de manhã e, pelas noites, fazia entregas de mota para conseguir pagar a renda de um quarto minúsculo que partilhava num bairro popular. Tinha os pés doridos, uma conta da luz por pagar dentro do bolso do uniforme e um hábito perigoso: mesmo quando já não aguentava com o corpo, continuava a olhar para a dor alheia como se fosse sua.
Foi por isso que a viu.
Numa mesa do canto, afastada do bulício, estava sentada uma senhora de cabelo branco, impecavelmente penteado, blusa cor de creme e uma dignidade tão intacta que doía. Tinha à sua frente um prato de bacalhau à Brás que parecia impossível de conquistar. As suas mãos tremiam com força. Tentava levar uma colherada à boca e o ovo ficava a meio caminho, também a tremer.
Beatriz levava numa mão a conta da mesa sete e na outra uma jarra de água para a oito, onde um cliente já tinha bufiado duas vezes. Mesmo assim, parou.
Aproximou-se devagar, inclinando-se ligeiramente para não constranger a mulher.
— Está tudo bem, minha senhora?
A idosa ergueu os olhos. Eram olhos cansados, sim, mas ainda cheios de uma espécie de firmeza que não pedia pena.
— Tenho Parkinson, minha filha — respondeu com uma voz suave —. Há dias em que comer se torna uma batalha.
A Beatriz sentiu o peito a apertar. Não por uma compaixão barata, mas por memória. A sua avó tinha passado por algo parecido antes de morrer. Lembrou-se daquelas mãos trémulas a tentar segurar uma chávena, daquela vergonha silenciosa de precisar de ajuda para algo tão simples como levar comida à boca.
— Espere um bocadinho — disse —. Vou trazer-lhe algo mais fácil.
Foi à cozinha, pediu uma canja quente e voltou em menos de quatro minutos. Enquanto os outros clientes olhavam para o relógio ou se queixavam da demora, a Beatriz puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da senhora como se o resto do mundo pudesse esperar, embora não pudesse.
— Devagar — disse com um sorriso. — Não há pressa.
A senhora soltou uma risadinha pequena, agradecida.
— Obrigada, minha filha.
— Veio sozinha? — perguntou Beatriz enquanto lhe aproximava a colher com cuidado. — Alguém vem buscá-la?
A idosa abriu aA idosa abriu a boca para responder, mas não chegou a fazê-lo.





