**Diário de um Homem**
Não foi a correia que mais doeu. Foi a frase antes do golpe. “Se a tua mãe não tivesse morrido, eu nunca teria de carregar contigo.” O couro assobiou no ar. A pele abriu-se sem fazer barulho. O menino não soltou um único grito, nem uma lágrima. Apenas apertou os lábios, como se já soubesse que a dor sobrevive no silêncio.
Martim tinha cinco anos. Cinco. E já sabia que há mães que não amam. E casas onde se aprende a não respirar muito alto. Naquela tarde, no estábulo, enquanto a égua velha batia no chão com o casco, uma sombra canina observava do portão, com olhos escuros, quietos, olhos que já haviam visto guerras e que em breve voltariam à batalha.
O vento da serra descia com um assobio seco na manhã no pátio. A terra estava dura, rachada como os lábios do menino que arrastava o balde de água. Martim tinha cinco anos, mas os seus passos eram os de alguém mais velho. Aprendeu a andar sem fazer barulho, a respirar só quando ninguém olhava.
O balde estava quase vazio quando chegou ao bebedouro. Um cavalo observava-o em silêncio. Bruma, a égua velha, com o pelo manchado e os olhos cobertos por uma névoa suave. Nunca relinchava. Nunca dava coices. Apenas olhava. “Tranquila,” sussurrou Martim, passando a mão aberta sobre o seu lombo. “Se tu não falas, eu também não.” Um grito cortou o ar como um relâmpago.
“Outra vez atrasado, animal!”
Raquel apareceu na porta do estábulo com o chicote na mão. Vestia um linho limpo, engomado, uma flor no cabelo. Ao longe, parecia uma mulher respeitável. De perto, cheirava a vinagre e raiva contida. Martim deixou cair o balde. A terra absorveu a água como uma boca sedenta.
“Eu disse que os cavalos comem antes do amanhecer! Ou a tua mãe nem isso te ensinou antes de morrer como uma inútil?” O menino não respondeu. Baixou a cabeça. O primeiro golpe atravessou-lhe as costas como um açoite de gelo. O segundo caiu mais baixo. Bruma bateu com o casco no chão.
“Olha para mim quando te falo!” Mas Martim fechou os olhos.
“Filho de ninguém. És isso. Devias dormir no estábulo com os outros burros.”
Da janela da casa, Leonor observava. Tinha sete anos. Um laço cor-de-rosa no cabelo e uma boneca nova nos braços. A mãe adorava-a. Martim era tratado como uma mancha que não saía com sabão.
Naquela noite, enquanto a vila se recolhia entre rezas e o badalar suave dos sinos, Martim permaneceu acordado na palha. Não chorava. Já não sabia como.
Bruma aproximou-se da cerca e apoiou o focinho na madeira podre que os separava.
“Tu entendes?” disse ele sem levantar a voz. “Tu sabes como é quando ninguém te quer ver.”
A égua pestanejou devagar, como se respondesse.
Uma semana depois, um grupo de viaturas entrou pelo caminho poeirento da quinta. Carrinhas com logótipos do governo, chalecos fluorescentes, câmaras a balançar nos pescoços. E no meio deles, caminhando sem pressa, um cão velho de pelo grisalho, focinho cansado. Olhos que tinham visto mais do que qualquer humano poderia suportar.
Chamava-se Nero.
A mulher que o acompanhava, Rita, era alta, morena, com sotaque alentejano. Botas de couro envelhecido e uma pasta cheia de papéis.
“Inspeção de rotina,” disse, sorrindo com gentileza. “Recebemos uma denúncia anónima.”
Raquel fingiu surpresa. “Aqui não temos nada a esconder, menina. Talvez alguém na vila queira criar problemas.”
Nuno, o cão velho, não se interessou pelos cavalos nem pelas cabras. Caminhou direto para o cercado traseiro, onde Martim varria entre os excrementos. O menino parou. O cão também. Não houve latido nem medo. Apenas aquela pausa longa onde duas almas partidas se reconhecem.
Nuno aproximou-se. Sentou-se frente a Martim. Não o cheirou. Não o tocou. Apenas ficou ali. Como se dissesse: *Eu estou aqui. E eu vejo.*
Raquel viu-os de longe. Os seus olhos tornaram-se como os de uma cobra ao sol.
“Aquele rapaz,” disse depois a Rita, rindo-se com frieza, “tem talento para a tragédia. Está sempre a inventar coisas. Apanhei-o por pena. Não é meu filho. É do meu primeiro marido. Mais um fardo do que uma criança.”
Rita não respondeu, mas Nuno respondeu por ela. Colocou-se à frente de Martim, interpondo o corpo como uma muralha silenciosa.
Raquel ficou tensa. “Posso ajudar-te, cão?”
Nuno não se mexeu. Apenas olhou para ela, e Raquel, por um instante, desviou o olhar. Havia algo naquele olhar que ela não conseguia domar nem fingir.
Essa noite, a quinta pareceu mais fria. Raquel bebeu mais vinho do que o costume. Leonor trancou-se com a boneca, desenhando casas onde ninguém gritava.
E Martim? Sonhou. Pela primeira vez em muito tempo, sonhou com um abraço. Não sabia de quem. Apenas lembrava o cheiro a terra molhada e um focinho quente contra a sua face.
Bruma bateu no chão com o casco. Uma, duas, três vezes.
Martim abriu os olhos e, entre as sombras, julgou ver Nuno deitado fora do cercado, vigilante, à espera, como se soubesse que a noite não poderia durar para sempre.
**Lição:** Há feridas que não cicatrizam com palavras, mas às vezes, um focinho quente ou um olhar silencioso são o primeiro passo para aprender a respirar outra vez.





