Durante quase três semanas, a mansão dos Albuquerque nas colinas acima de Cascais tinha sido silenciosamente rejeitada por todas as agências domésticas. Ninguém dizia que a casa era perigosa, não oficialmente, mas cada mulher que entrava lá saía transformada. Algumas choravam. Outras gritavam. Uma trancou-se na lavandaria até a segurança a tirar à força. A última cuidadora fugiu descalça pelo jardim ao amanhecer, tinta verde escorrendo-lhe do cabelo, aos berros que as crianças estavam possuídas e que as paredes escutavam enquanto dormiam.
Da porta envidraçada do seu escritório, João Albuquerque, de trinta e sete anos, observou o portão fechar-se atrás do táxi. Ele era o fundador de uma empresa de cibersegurança cotada em bolsa, homem entrevistado semanalmente por revistas de negócios, mas nada disso importava quando se virou para a casa e ouviu algo a despedaçar-se no andar de cima.
Na parede, pendia uma fotografia de família tirada quatro anos antes. A sua esposa, Mariana, radiante e a rir, ajoelhada na areia enquanto as seis filhas se agarravam ao seu vestido, queimadas de sol e felizes. João tocou-lhe na moldura com as pontas dos dedos.
“Estou a falhar com elas,” murmurou para a sala vazia.
O telemóvel tocou. O seu gestor de operações, Eduardo Lopes, falou com cautela. “Senhor, nenhuma ama licenciada aceita o lugar. O departamento jurídico sugeriu que parasse de insistir.”
João respirou fundo. “Então não contratamos ninguém.”
“Há uma última opção,” Eduardo respondeu. “Uma empregada de limpeza residencial. Sem registo de cuidados infantis.”
João olhou pela janela para o jardim, onde brinquedos partidos jaziam entre plantas mortas e cadeiras viradas. “Contratem quem disser que sim.”
Do outro lado da cidade, num apartamento pequeno em Almada, Catarina Mendes, de vinte e seis anos, apertou os ténis gastos e enfiou os livros de psicologia numa mochila. Limpava casas seis dias por semana e estudava trauma infantil à noite, movida por um passado do qual pouco falava. Quando tinha dezassete anos, o seu irmão mais novo morrera num incêndio. Desde então, o medo já não a assustava. O silêncio não a perturbava. A dor era familiar.
O telemóvel vibrou. A supervisora da agência falou apressada. “Colocação urgente. Mansão privada. Início imediato. Triplo do salário.”
Catarina olhou para a conta da universidade colada ao frigorífico. “Mande-me o endereço.”
A casa dos Albuquerque era bonita do modo que o dinheiro sempre é. Linhas limpas, vista para o mar, sebes perfeitas. Por dentro, parecia abandonada. O segurança abriu o portão e murmurou: “Boa sorte.”
João recebeu-a com olheiras profundas. “O trabalho é só limpeza,” disse rapidamente. “As minhas filhas estão de luto. Não prometo tranquilidade.”
Um estrondo ecoou lá em cima, seguido de risadas afiadas o suficiente para cortar.
Catarina assentiu. “Não tenho medo do luto.”
Seis meninas observavam-na das escadas. Leonor, doze anos, postura rígida. Beatriz, dez, a puxar as mangas. Inês, nove, olhos nervosos. Joana, oito, pálida e calada. As gémeas Carlota e Matilde, seis, a sorrir com demasiada intenção. E Maria, três, agarrada a um coelho de peluche rasgado.
“Chamo-me Catarina,” disse com calma. “Vim limpar.”
Leonor avançou. “É a trigésima oitava.”
Catarina sorriu sem hesitar. “Então vou começar pela cozinha.”
Reparou nas fotografias no frigorífico. Mariana a cozinhar. Mariana a dormir num leito de hospital, com Maria nos braços. O luto não estava escondido ali. VivE no silêncio daquela casa que um dia fora tomada pela dor, Catarina percebeu que não havia fim para o amor, só transformação.





