A secretária fica chocada ao encontrar foto de infância no escritório do chefe4 min de lectura

**Diário de Sofia Almeida**

O elevador subia depressa pelo prédio de vidro que refletia o céu azul de Lisboa. Apertei a pasta com o meu currículo contra o peito, tentando lembrar-me de todos os conselhos que a minha mãe me dera naquela manhã. Nunca estivera tão nervosa. Este emprego mudaria tudo. *Piso 35. Ferreira & Associados*, anunciou a voz metálica do elevador.

Respirei fundo, alisei a minha única saia preta formal e caminhei com determinação para a receção. Os meus saltos ecoaram no chão de mármore enquanto observava o luxo discreto do escritório de advogados mais prestigiado da cidade.

—Bom dia, sou Sofia Almeida, a nova secretária do Dr. Ferreira — disse, tentando disfarçar a insegurança.

A rececionista, uma mulher de meia-idade com um penteado impecável, olhou-me por cima dos óculos.

—Chegou na hora certa. O Dr. detesta atrasos. A Célia vai explicar as suas funções.

Seguir a Célia, uma mulher mais velha de rosto bondoso mas olhar astuto, por corredores onde advogados com fatos caros discutiam casos milionários. Era um mundo distante do meu, onde cada mês era uma luta para pagar os remédios da minha mãe.

—O Dr. Ferreira é exigente — alertou a Célia, mostrando-me a minha mesa. — Pontualidade, organização e discrição. Nunca o interrompa durante chamadas importantes.

—Quando o conheço? — perguntei, memorizando cada instrução.

—Agora mesmo. E não se assuste se parecer frio. É assim com todos.

O gabinete do Dr. António Ferreira era exatamente o que esperava: elegante, sóbrio e intimidante. Grandes janelas ofereciam uma vista deslumbrante de Lisboa, e estantes de madeira escura ocupavam duas paredes. Atrás da secretária imponente, um homem de 53 anos, cabelo grisalho impecavelmente penteado, assinava documentos sem levantar os olhos. Quando finalmente olhou para mim, senti um arrepío inexplicável.

Tinha olhos cinzentos, penetrantes e estranhamente tristes.

—Sra. Almeida — disse com voz grave. — Sente-se, por favor.

Obedecei, notando que ele evitava olhar-me diretamente.

—O seu currículo é modesto, mas as referências da universidade são excelentes. Espero que mostre a mesma dedicação aqui.

—Não o vou dececionar, Dr. Ferreira.

Ele começou a explicar as minhas responsabilidades, mas eu mal conseguia concentrar-me. Os meus olhos fixaram-se numa fotografia desbotada pelo tempo, num porta-retratos de prata sobre a secretária.

Uma menina de quatro anos, vestido branco, segurando um girassol. Era *eu*.

O mundo parou. O mesmo vestido que a minha mãe guardava numa caixa. O mesmo girassol que colhi naquele dia no jardim. *A mesma fotografia*.

—Está a prestar atenção, Sra. Almeida? — a voz ríspida do Dr. Ferreira trouxe-me de volta à realidade.

—Desculpe, eu… — balbuciei, incapaz de desviar os olhos.

Ele seguiu o meu olhar e o rosto endureceu. Uma sombra de dor cruzou os seus olhos.

—Sente-se bem? Está pálida.

Apontei para a foto com dedos trémulos.

—Essa fotografia… quem é?

O silêncio prolongou-se. Quando respondeu, a voz dele soava diferente, quase quebrada.

—É algo pessoal. Não tem importância.

Mas tinha. E ambos sabíamos.

—Pode retirar-se. A Célia explicará o resto.

Passei o resto do dia em piloto automático, mas a minha mente não saía daquela fotografia. Como era possível? O que fazia uma foto minha no gabinete do homem mais poderoso da firma?

Ao chegar a casa, já noite, encontrei a minha mãe na cozinha.

—Como foi o primeiro dia, filha? — perguntou Isabel, com um sorriso que iluminava o rosto cansado pela doença.

—Bem… acho. — Deixei a mala em cima da mesa, hesitante.

Ela olhou-me com a perspicácia de quem conhece cada expressão minha.

—O que aconteceu?

—O Dr. Ferreira tem uma fotografia minha no gabinete.

O copo que ela segurava caiu ao chão, estilhaçando-se.

—*O quê?!* — sussurrou, pálida como papel.

—A foto do girassol, mãe. A que guardas na tua caixa. É exatamente a mesma.

Isabel segurou-se à mesa como se as pernas a abandonassem.

—Não pode ser ele… — murmurou, os olhos enchendo-se de lágrimas.

—Conheces o Dr. Ferreira?

Ela não respondeu. Levantou-se devagar e foi para o quarto. Segui-a e vi-a tirar uma pequena caixa de metal de debaixo da cama. Com mãos trémulas, abriu-a com uma chave minúscula. Dentro estavam os seus tesouros: cartas amarelecidas, uma mecha de cabelo, um anel simples, e a mesma fotografia que estava no escritório do Dr. Ferreira.

—Há algo que nunca te contei sobre o teu pai, Sofia — disse, a voz a falhar após 26 anos de silêncio. — É hora de saberes a verdade.

Naquela noite, em Lisboa, um segredo guardado por décadas foi revelado. E a minha vida mudou para sempre.

O Dr. António Ferreira era o meu pai.

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