A Visita Inesperada que Encontrei Debaixo da CamaMal sabia eu que aqueles pés pertenciam a um grupo de crianças que minha filha, a líder de uma quadrilha de foras-da-lei mirins, escondera no sótão.6 min de lectura

Olha, a minha vizinha não se calava, a insistir que via a minha filha em casa durante as horas da escola… então eu fingi que ia trabalhar e escondi-me por baixo da cama. Minutos depois, ouvi vários passos a descer o corredor.

Chamo-me Leonor Costa, e sempre pensei que sabia tudo sobre a minha filha de 13 anos, Inês. Depois do meu divórcio há dois anos, tinha ficado só nós as duas na nossa moradia geminada num bairro calmo nos arredores de Lisboa. Ela era responsável, inteligente, bem-educada; nunca me deu problemas. Pelo menos, era o que eu pensava.

Numa manhã de quinta-feira, quando saía com a minha pasta do emprego, a minha vizinha idosa, Dona Carminho, fez-me sinal.

— Leonor — disse ela com suavidade —, a Inês anda a faltar às aulas outra vez?

Fiquei paralisada. — A faltar? Não… ela vai todos os dias.

Dona Carminho franziu a testa. “Mas eu vejo-a sempre a chegar a casa a meio do dia. Por vezes com outros miúdos.”

O meu coração ficou em frangalhos. “Isso não pode ser verdade,” insisti, forçando um sorriso. “Deve ter-se enganado.”

Mas a caminho do trabalho, o desconforto não me saía do peito. A Inês tinha andado mais calada ultimamente. Estava a comer menos. Andava sempre cansada. Eu tinha atribuído isso ao stress do nono ano… mas e se fosse algo mais?

Nessa noite ao jantar, ela pareceu normal: educada, calma, assegurando-me que a escola estava “tudo bem”. Quando repeti o que a Dona Carminho tinha dito, a Inês ficou tensa por uma fração de segundo, depois rejeitou a ideia com uma risada.

“Ela provavelmente viu outra pessoa, Mãe. Eu estou na escola, prometo.”

Mas eu percebi que algo dentro dela estava a tremer.

Tentei dormir, mas a minha mente não parava. E se estava a faltar às aulas? E se estava a esconder alguma coisa? Algo perigoso?

Às 2 da manhã, eu já sabia o que tinha de fazer.

Na manhã seguinte, fiz de conta que estava tudo normal. “Tem um bom dia na escola,” disse ao sair pela porta às 7:30.

— Tu também, Mãe — disse ela suavemente.

Quinze minutos depois, entrei no meu carro, desci a rua, estacionei atrás de uma sebe, e voltei para casa em silêncio. O meu coração batia com força a cada passo. Entrei pela porta dentro, trinquei a fechadura e fui direta ao quarto da Inês.

O quarto dela estava impecável. A cama perfeitamente feita. A secretária arrumada.

Se ela vinha secretamente a casa, não ia contar com a minha presença.

Então deitei-me no tapete e rastejei para debaixo da cama.

Era apertado, cheio de pó, e demasiado escuro para ver qualquer coisa que não fosse o fundo do colchão. A minha respiração soava pesada naquele espaço pequeno. Silenciei o telemóvel e esperei.

9:00 da manhã. Nada. 9:20 da manhã. Ainda nada. As minhas pernas estavam dormentes. Será que tinha imaginado tudo?

Então…

CLIQUE. A porta da frente abriu.

Todo o meu corpo gelou.

Passos. Não eram uns, mas vários. Passos leves, apressados, furtivos, como crianças a tentar não fazer barulho.

Prendi a respiração.

E então ouvi:

— Shh, calados — sussurrou uma voz.

A voz da Inês.

Ela estava em casa.

E não estava sozinha.

E o que quer que estivesse a acontecer lá em baixo… eu estava prestes a descobrir a verdade.
O som da madeira a ranger nas escadas foi a única coisa que quebrou o silêncio depois do sussurro da Inês. Um, dois, três pares de pés. Talvez quatro. O peso de cada passo ecoou no soalho como uma martelada direta nos meus nervos. Fechei os olhos com força, tentando fundir-me com o chão, a rezar para que o pó acumulado sob o estrado da cama não me fizesse espirrar e me denunciasse.

“Tens a certeza que ela não volta?” perguntou uma voz masculina. Soava jovem, no auge da puberdade, com aquele tom frágil que oscila entre grave e agudo.

“Já te disse, Miguel.” A voz da Inês era diferente da que eu conhecia. Não havia doçura, nem a hesitação típica da adolescência. Era fria, afiada, autoritária. “A minha mãe é um relógio. Começa a trabalhar às oito, tem a pausa ao meio-dia, e não põe os pés nesta porta antes das cinco e meia. Para de te queixar.”

Senti uma onda súbita de náusea. Aquela era a minha filha? A menina que me tinha pedido para lhe fazer chocolate quente na noite anterior porque tinha frio?

Os passos chegaram ao patamar e, para o meu horror, viraram diretamente para o quarto dela. Para onde eu estava.

Vi os primeiros sapatos entrarem no meu campo de visão, limitado pela estrutura da cama. Ténis pretos, gastos e com lama seca. Depois, botas de estilo militar, grandes demais para quem as calçava. E finalmente, os ténis brancos imaculados da Inês. Aqueles que eu própria lhe tinha comprado duas semanas antes como recompensa pelas boas notas.

“Fecha a porta,” ordenou a Inês.

O clique da fechadura ecoou como um tiro. Agora estava encurralada. Se olhassem para debaixo da cama, não havia escapatória. Nenhuma janela estava aberta, nenhuma desculpa possível.

“Tira-o. Quero ver,” disse a Inês. Ela sentou-se na beira da cama, mesmo por cima da minha cabeça. O colchão cedeu ligeiramente, pressionando o meu ombro. Conseguia cheirar o seu perfume, uma mistura de baunilha e morango, o mesmo aroma inocente de sempre, mas agora misturado com o odor acre do medo que emanava dos meus próprios poros.

Ouvi o som de um fecho de correr pesado, como o de uma mochila desportiva, a ser puxado. Depois, o som de algo metálico a bater no chão de madeira. E papel. Muito papel.

“Está tudo aqui,” disse o rapaz de botas. “A casa dos Silvas, a casa da Dona Carminho, e a casa do tipo novo na esquina.”

“Dona Carminho?” A voz da Inês pingava de desdém. “Aquela velha bisbilhoteira é a prioridade. Quase me apanhou no outro dia. Está a tornar-se um problema.”

O meu coração parou por um momento. Dona Carminho? O que é que eles lhe estavam a fazer?

“O que é que lhe fazemos, Inês?” perguntou uma terceira voz, feminina desta vez, a tremer. “Eu não quero… tu sabes, eu não quero que ninguém se magoe a sério. Nós dissemos que era só entrar e sair.”

“Cala-te, Sara,” rosnou a Inês. O colchão rangeu quando ela se inclinou para a frente. “Ninguém se magoa se fizer o que é suposto. Mas a velha Carminho tem olhos em todo o lado. Precisamos de a assustar. Ou pelo menos garantir que ela para de olhar pela janela.”

Do meu esconderijo, vi uma mão deixar cair algo no chão perto dos chinelos da Inês. Era um pé-de-cabra. Um pé-de-cabra de ferro, enferrujado na ponta. E ao lado caíram vários maços de notas presos com elásticos, e o que pareciam ser joalharia: um relógio de ouro, vários colares de pérolas, anéis com pedras que cintilavam mesmo na penumbra debaixo da cama.

Levei a mão à boca para abafar um grito. EApontei a minha arma para a porta, pronta para proteger a minha filha com a minha última bala, enquanto os nossos perseguidores se aproximavam.

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