Chegou Mais Cedo e o Que Viu no Chão da Cozinha o Deixou em Choque6 min de lectura

Era quase meio-dia quando o carro do Sr. Cardoso entrou no quintal—mais cedo do que o habitual, mais cedo do que se esperava.

Normalmente, ele não almoçava em casa. Os seus dias eram agendas apertadas, cheias de reuniões, chamadas, decisões que afetavam centenas de funcionários. A casa era apenas um lugar para dormir, trocar de fato, existir entre obrigações.

Mas naquele dia, uma reunião fora cancelada de última hora. E por razões que não sabia bem explicar, sentiu um impulso para voltar a casa.

Talvez fosse o cansaço silencioso que carregava há meses.
Talvez fosse culpa.
Talvez não fosse nada.

Destrancou a porta da frente, entrando na quietude familiar da casa. O cheiro de limão do produto de limpeza ainda pairava no ar—sutil, fresco, quase reconfortante.

“Olá?” chamou ele, afrouxando a gravata.

Nenhuma resposta.

Assumiu que a Maria, a empregada, estivesse num dos quartos dos fundos. Ela trabalhava para a sua família há quase um ano—eficiente, discreta, invisível como os empregados costumam ser. Ele mal sabia algo sobre ela além do nome e do facto de que chegava cedo e saía tarde.

Dirigiu-se para a cozinha.

E então parou.

Ali, no chão da cozinha, a Maria estava de joelhos.

O seu carrinho de limpeza estava abandonado ao lado. O esfregão encostado inutilmente ao armário. Ela não estava a esfregar. Não estava a organizar. Não estava a fazer nada do que ele lhe pagava para fazer.

Estava a rezar.

As mãos estavam juntas, a cabeça inclinada, os olhos fechados.

À frente dela, sentadas num pequeno tapete, estavam duas meninas—gémeas, não teriam mais de dois anos. O cabelo delas estava bem penteado, os vestidinhos limpos mas claramente usados. Ambas tinham as mãos juntas, como a Maria, os rostos sérios com a solenidade que só as crianças têm quando imitam algo sagrado.

À frente de cada menina estava um pratinho.

Não era uma refeição.
Apenas alguns pedaços de fruta cortados.

E elas estavam a agradecer por isso.

O Sr. Cardoso ficou parado na entrada.

Sentiu-se um intruso na própria casa.

Por um momento, ninguém reparou nele. A casa estava tão silenciosa que ele ouvia o leve zumbido do frigorífico, o som suave da respiração da Maria enquanto murmurava palavras que ele não percebia.

Então uma das gémeas abriu os olhos.

Olhou para cima—e viu-o.

As mãos dela caíram instantaneamente. O rosto empalideceu.

“Mãe…” sussurrou, puxando a manga da Maria.

Os olhos da Maria abriram-se de repente.

Ela virou-se.

E quando o viu ali parado, todo o seu corpo ficou tenso.

“Oh—senhor,” disse, levantando-se rapidamente. “Eu—peço desculpa. Não o ouvi chegar. Eu sei que isto parece—”

Interrompeu-se, baixando o olhar.

“Vou limpar isto já,” disse depressa, pegando nos pratos. “Não devia ter—por favor, posso explicar—”

“Pare,” disse o Sr. Cardoso.

A palavra saiu mais dura do que pretendia.

A Maria congelou.

As gémeas olhavam para ele, assustadas, imóveis.

“O que… estavam a fazer?” perguntou, com a voz mais baixa agora.

A Maria engoliu em seco. Por um momento, pareceu que iria chorar.

“Estávamos a agradecer,” disse suavemente.

“Pela comida.”

O Sr. Cardoso olhou para os pratos novamente. Para as pequenas porções. Para o modo como as meninas instintivamente se aproximaram da mãe.

“Isso… é o vosso almoço?” perguntou.

A Maria hesitou. Depois anuiu.

“Trago-as comigo,” disse. “Não posso pagar o infantário. E não queria deixá-las sozinhas.”

Ele reparou então o quão magra ela estava. O quão cansada. As olheiras leves sob os olhos.

“E é só isso que comem?” perguntou.

Os ombros dela levantaram-se num pequeno encolher de ombros, impotente.

“É suficiente,” disse. “Elas não se queixam.”

Uma das gémeas abanou a cabeça, como se discordasse—mas ficou calada.

Algo dentro do Sr. Cardoso estilhaçou-se.

Ele tinha três casas. Desperdiçava mais comida numa semana do que muitas famílias num mês. O seu frigorífico estava tão cheio que metade estragava antes de alguém tocar.

E ali, no chão da sua cozinha, estavam duas crianças a agradecer a Deus por um punhado de fruta.

“Quando foi a última vez que comeu uma refeição completa?” perguntou.

A Maria não respondeu.

Isso foi resposta suficiente.

“Sentem-se,” disse.

“Eu—senhor?” gaguejou.

“Sentem-se,” repetiu. “Todos.”

Ela hesitou, o medo a passar-lhe pelo rosto. Empregados não se sentavam. Não assim. Não na casa dele.

Mas algo na sua expressão fez com que obedecesse.

Foi até ao frigorífico, abriu-o e ficou a olhar.

Ovos. Leite. Pão fresco. Sobras de jantares que mal se lembrava de comer.

Começou a tirar coisas.

“Senhor, não precisa—” começou a Maria.

“Preciso,” disse.

Cozinhou desajeitadamente, como alguém que não o fazia há anos. Ovos mexidos. Torradas. Fruta. Mais do que fruta.

As gémeas observavam-no como se ele estivesse a fazer mágica.

Quando colocou os pratos à frente delas, os olhos delas brilharam.

“Para nós?” perguntou uma.

“Sim,” disse ele, engolindo em seco. “Para vocês.”

Elas não esperaram para ser convidadas.

A Maria tapou a boca com a mão.

“Não sei como agradecer,” sussurrou.

“Já o fez,” disse ele. “Só não tinha reparado até hoje.”

Comeram em silêncio. O tipo de silêncio que não era vazio—mas pesado com coisas não ditas.

Finalmente, a Maria falou.

“O meu marido faleceu o ano passado,” disse baixinho. “Somos só nós agora. Faço o que posso.”

O Sr. Cardoso anuiu.

“Eu também perdi alguém,” admitiu. “Há muito tempo. Enterrei-me no trabalho para não sentir.”

Olhou para as gémeas, migalhas nas bochechas, alegria nos olhos.

“E algures pelo caminho,” acrescentou, “esqueci-me do que importa.”

Quando terminaram de comer, uma das meninas subiu para o seu colo sem pedir. Ele ficou tenso—depois relaxou, pousando uma mão hesitante nas costas dela.

Ninguém o tocava assim há anos.

“Senhor,” disse a Maria, nervosa, “ela não devia—”

“Está tudo bem,” disse. “A sério.”

Naquela tarde, cancelou as reuniões que tinha.

No dia seguinte, arranjou um infantário.

Na semana seguinte, aumentou o salário da Maria—sem alaridos, sem anúncios.

E um mês depois, quando alguém lhe perguntou por que razão agora saía mais cedo do escritório todos os dias, ele sorriu e disse algo que ninguém esperava.

“Tenho planos para o almoço,” disse.

Em casa.

Com família.

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