Hoje decidi escrever sobre o dia em que tudo mudou. Fugi do meu casamento abusivo e entrei num avião, sem saber que o homem ao meu lado não era apenas um estranho, mas um poderoso chefe da máfia, preparando o cenário para um encontro perigoso e inesperado.
Levei seis meses a planejar minha fuga. Seis meses de fingir, de sorrir por cima de nódoas negras que ninguém veria, de contar cada cêntimo, cada batida do coração, cada momento como se fosse um aviso final. O tempo tornou-se meu inimigo e meu aliado ao mesmo tempo — marcando cada segundo nas paredes daquela mansão que parecia um paraíso, mas era uma gaiola.
O meu marido, Eduardo Barros, era o tipo de homem que todos admiravam em público: um bilionário filantropo, com um sorriso perfeito e uma reputação impecável. Mas a portas fechadas, ele era uma tempestade, e eu aprendi rápido que tempestades deixam cicatrizes. Os primeiros meses pareciam um conto de fadas — lençóis de seda, champanhe, desculpas infinitas — mas logo a verdade se revelou. O castelo era uma prisão, e cada “desculpa” vinha depois de um soco. Cada “amo-te” era um aviso disfarçado.
Naquela madrugada gelada de novembro, às 4h15, escapei da cama que se tornara minha cela. O corpo doía da última discussão; as marcas roxas latejavam, lembrando-me como a minha vida era frágil. Mas o coração, pela primeira vez em anos, pulsava de esperança.
Juntei meus poucos pertences em silêncio: uma mala de couro gasto com dinheiro escondido, um passaporte enfiado num livro de receitas, uma mochila pequena. Nada de bolsas de luxo. Nada de joias. Só o essencial… e a sobrevivência. O piano de cauda lá em baixo parecia observar-me, uma plateia de fantasmas e memórias. Saí para a noite e senti, pela primeira vez em anos, o que seria a liberdade.
Andando pelas ruas escuras da cidade, parei um táxi com um telemóvel velho e murmurei a primeira mentira que uma sobrevivente aprende: “Só vou visitar uma amiga.” Ao amanhecer, estava no aeroporto, bilhete na mão, o zumbido metálico dos aviões a vibrarem no meu peito. O chamamento para o voo 732 ecoou como uma promessa — ou um desafio.
Quando me sentei no lugar 12D, um homem ocupou o assento ao meu lado. Alto, vestido de preto, olhos escuros como o oceano à meia-noite e uma presença que ocupava espaço sem pedir licença. Por um instante, estudei-o. Ele não falava, não olhava para mim, apenas observava a cabine com atenção, como se lesse cada pensamento ao redor.
O avião enfrentou turbulência. Eu estremeci. O meu casaco deslizou um pouco, revelando as marcas no meu ombro. O homem ao meu lado finalmente falou.
“Está bem?” A voz dele era baixa, calma, cuidadosa — o tipo de tranquilidade que me fazia querer apoiar-me nele sem saber porquê.
“Estou bem,” menti. Mas os meus olhos traíram a verdade.
Ele inclinou-se ligeiramente, oferecendo espaço sem invadi-lo. “Se quiser, pode descansar. Ajuda.”
Descansar. A palavra parecia estranha. Não dormira livremente em anos. Lentamente, encostei-me nele. Ele não se mexeu. Não falou. E, pela primeira vez numa eternidade, adormeci.
Quando acordei, a luz do sol entrava pela janela. Ele lia, calmo e sereno.
“Desculpe,” murmurei, envergonhada.
“Não há nada para desculpar,” respondeu. Depois de uma pausa, acrescentou: “Sou Adriano Monteiro.”
“Leonor,” respondi, hesitante. “Prazer.”
Ele tinha um jeito de tornar o comum em especial. Cada olhar, cada gesto era preciso mas natural. Reparava nos detalhes — o elogio discreto à aeromoça, a maneira subtil como se adaptava à turbulência. Percebi devagar: ele reparava em tudo.
Mais tarde, perguntou-me suavemente: “Está a fugir de alguém… ou a correr para alguém?”
Gelou-me o sangue. A verdade queimava-me na garganta, mas não disse nada. Ele não insistiu. Apenas perguntou, baixinho: “Tem um lugar seguro para ficar?”
“Tenho… um hotel por duas noites. Depois, as manhãs serão minhas,” admiti, a voz a tremer.
“Bom,” disse ele, simplesmente. “As manhãs são um começo.”
Ao aterrarmos, entregou-me um cartão preto fosco com uma única palavra gravada: ADRIANO, e um número. “Se algum dia se sentir em perigo,” disse, “ligue-me. Ou não. A escolha é sua.”
Na recolha de bagagens, dois homens de fato escuro varriam os rostos. O meu coração disparou. Adriano posicionou-se entre nós, como um escudo. “Amigos seus?” murmurou.
“Não. Homens dele,” sussurrei.
Ele tirou uma foto discreta e murmurou algo em italiano. Soou como uma promessa. Minutos depois, um carro preto levou-nos embora.
“Quer ajuda?” perguntou.
“Sim. Mas quero a minha vida de volta, não apenas segurança,” respondi.
“Esse é o plano,” disse Adriano.
Naquela noite, encontrei-me num apartamento seguro com vista para a cidade. O médico tratou das minhas marcas enquanto Adriano ficou em silêncio, uma sentinela na sombra. “Porque está a ajudar-me?” perguntei.
“Porque alguém ajudou a minha irmã quando eu não pude,” respondeu baixinho.
Os dias viraram semanas. As marcas sararam, mas os pesadelos continuaram. Adriano estava sempre presente, nunca exigente, nunca intrometendo-se — a sua presença sozinha transmitia segurança. Depois, chegaram as notícias: Eduardo tinha feito um desaparecimento e oferecido uma recompensa. Estava à minha procura.
“Fugir alimenta o medo,” Adriano disse firme. “Precisamos que ele acredite que desapareceu.”
A equipa dele trabalhou em silêncio. Contas bancárias, documentos escondidos, gravações secretas — todas as mentiras de Eduardo vieram à tona. Investidores retiraram-se. Jornais sussurravam. E uma manhã, as manchetes gritaram:
“Bilionário Eduardo Barros Acusado de Violência Doméstica e Fraude.”
A justiça chegou sem caos. Quando Adriano me entregou um pen drive com todas as provas, disse: “É hora de a sua voz importar.”
Leonor falou publicamente. No lobby de um hotel cheio de câmaras, Eduardo esperava, sorridente. Adriano avançou. “Ela não vai a lado nenhum consigo,” disse. “Pôs as mãos nela. Isso torna-o problema meu.”
Os homens de Eduardo moveram-se. A equipa de Adriano foi mais rápida. A verdade era inegável: as mentiras que Eduardo construíra desmoronavam em tempo real. As sirenes da polígia ecoaram. Eduardo foi levado, impotente.
Naquela noite, a chuva caía, mas não corri. Fiquei na varanda com Adriano, livre, respirando, finalmente viva. “Conseguiu,” disse ele suavemente.
“Não,” respondi, com lágrimas nos olhos. “Nós conseguimos.”
Semanas depois, reconstruí a minha vida, falei publicamente, fundei um abrigo para sobreviventes e recuperei o meu nome. Adriano desapareceu no fundo — alguns diziam que voltou para Itália, outros que vigiava em silêncio, garantindo que os monstros não me caçariam.
Finalmente,E foi assim que, entre o luar de Lisboa e o som das ondas, eu e Adriano encontramos não apenas a paz, mas um amor forte o suficiente para vencer até as sombras do passado.





