Ele me deu uma semana sem ele, mas nunca imaginou o que eu faria4 min de lectura

O som do fecho do carrinho de viagem cortando o silêncio sentiu-se mais alto do que devia.

Mafalda Gonçalves estava no meio da sua cozinha, os balcões de mármore brilhando sob as luzes pendentes, e olhou para o homem a quem chamou marido durante oito anos.

Duarte estava encostado à ilha, com os braços cruzados, aquele sorriso insuportável nos lábios. Vestia um fato cinzento que provavelmente custava mais do que a renda mensal de muitas pessoas, o relógio a captar a luz cada vez que movia o pulso. Tudo nele gritava dinheiro, poder, controlo.

“Então, vais mesmo fazer isto?” perguntou, o tom a pingar de divertimento. “Vais mesmo sair pela porta?”

As mãos de Mafalda estavam firmes quando colocou as chaves de casa em cima do balcão. O metal tilintou contra o mármore, um som de finalidade.

“Sim.”

Ele riu-se—ri mesmo.

“Vai lá. Sai. Dou-te uma semana sem mim, talvez menos. Para onde vais, Mafalda? O que vais fazer? Não trabalhas há anos. Andaste a viver com o meu dinheiro, na minha casa, a conduzir os meus carros.”

Mafalda não disse nada. Apenas tirou o telemóvel da mala e verificou as horas.

23h47.

Em treze minutos, seria um novo dia. Um novo começo.

“Achas que consegues sobreviver sozinha?” Duarte continuou, afastando-se do balcão e aproximando-se dela. “Achas que alguém vai contratar uma mulher que não exerce direito há oito anos? Achas que consegues pagar um apartamento nesta cidade sozinha?”

Mafalda olhou para ele—e viu-o, realmente.

Um dia achara-o atraente. Agora via a crueldade nos seus olhos, a arrogância na postura. Via o homem que andava a traí-la com Sofia Martins do departamento de contabilidade nos últimos três anos. O homem que levava Sofia a jantares caríssimos enquanto ela esperava em casa. O homem que lhe dera joias que ela ajudara a pagar com a herança da sua própria família.

“Vou arranjar-me,” disse calmamente.

“Vais arranjar-te.” Ele imitou o tom dela, depois abanou a cabeça. “Vais voltar de rastos. Elas sempre voltam. Mulheres como tu—não foram feitas para o mundo real. Foram feitas para isto.”

Gesticulou em redor, indicando a cozinha: os armários personalizados, os eletrodomésticos profissionais, o candeeiro de cristal na sala de jantar visível pela porta aberta.

Mafalda pegou no carrinho de viagem. Tinha feito as malas com pouco—uma mala com roupa, produtos de higiene, documentos importantes. Tudo o resto—as roupas de designer, os sapatos caros, as joias que ele lhe comprara—ficava para trás.

Não queria nada daquilo.

“Adeus, Duarte.”

“Vais estar de volta até ao fim da semana,” gritou ele enquanto ela caminhava para a porta da frente. “Não vou trocar as fechaduras porque sei que vais precisar de voltar para casa em breve.”

Ela parou à porta, a mão na maçaneta, e olhou para ele uma última vez.

Ele estava no corredor, tão confiante, tão seguro de si.

Não fazia ideia do que estava para acontecer.

“Não esperes por mim,” disse, e saiu para a noite.

A porta fechou-se atrás dela com um clique suave.

Tinha deixado o seu velho Fiat Punto—o carro que tinha antes de casar com Duarte—estacionado duas ruas mais abaixo. Ele obrigara-a a guardá-lo porque não combinava com a estética da garagem deles. Agora estava grata por ainda o ter em seu nome, pago há anos.

Enquanto conduzia para longe da casa—da vida que conhecera durante oito anos—Mafalda sentiu algo que não sentia há muito tempo.

Liberdade.

O telemóvel vibrou no porta-copos. Num semáforo, ela olhou para o ecrã.

Uma mensagem de Patrícia Guimarães, a sua antiga mentora da faculdade de direito e agora sua empregadora.

“Tudo correu como planeado do meu lado. Os documentos foram entregues. Vejo-te segunda de manhã, advogada Gonçalves.”

Mafalda sorriu.

Advogada Gonçalves.

Ganhara aquele título três meses antes, quando passou noMafalda entrou no seu novo apartamento, respirou fundo e sorriu, sabendo que finalmente a vida que sempre desejara estava apenas começando.

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