**PARTE 1**
**Capítulo 1: O Fantasma nos Campos de Milho**
Voltei a Portugal para enterrar o passado, não para desenterrar novos fantasmas. Mas o problema tem um jeito de me encontrar, especialmente depois de passar a última década caçando-o em lugares que nem constam nos mapas.
Chamo-me Rui. Pelo menos, é o que diz o meu cartão de cidadão. Nos últimos doze anos, fui apenas um código, uma patente, um número numa placa de identificação. Saí há três meses. Baixa médica. Disseram que foi o joelho, mas todos sabíamos que era o resto. Aquilo que te mantém acordado às 3 da manhã, ensopado em suor, à procura de uma arma que já não tens.
A minha irmã, Inês, acha que estou só a “adaptar-me” à vida civil. Ela é uma mulher forte, desgastada por ser mãe solteira e por turnos duplos no café da esquina. Acha que passo os dias a arranjar o velho Renault na garagem e a beber café puro na varanda, a olhar para os infinitos campos de milho que cercam a nossa vila.
Não sabe que os meus olhos estão sempre a vigiar o perímetro. Não sabe que memorizo as matrículas de todos os carros que passam pela nossa rua sem saída. Não sabe que durmo com um olho aberto, a ouvir os rangidos da casa, a analisá-los em busca de ameaças.
E, definitivamente, não sabia o que estava a acontecer à sua filha, Beatriz.
Beatriz tem dezasseis anos. Costumava ser um furacão—barulhenta, risonha, cheia de vida. Mas desde que voltei, tornou-se um fantasma. Chega a casa, vai direta para o quarto e põe música alta. Inês diz que é “coisa da idade.”
Eu sei melhor. Conheço o olhar de quem vive com medo. É o mesmo que vi nos olhos dos aldeões em missões no estrangeiro. É o olhar de quem sabe que está a ser caçado e acredita que ninguém virá salvá-lo.
Tudo começou numa terça-feira à tarde. O ar estava fresco, com cheiro a folhas secas e ao inverno que se aproximava. Eu estava sentado nos degraus da varanda, a afiar a minha navalha, a aparar um pedaço de madeira até não sobrar nada. O autocarro amarelo parou no fim da estrada de terra batida.
Beatriz saiu. Mas não estava sozinha.
Um Audi vermelho, tão polO Audi vermelho acelerou, deixando para trás uma nuvem de poeira que se dissipou como os meus últimos resquícios de paz, e eu soube, ali mesmo, que a guerra só estava a começar.





