Esposa médica ajudou um mendigo ferido na rua, e o marido arrogante a expulsou. Um ano depois, ele acabou em sua mesa de cirurgia

O crepúsculo envolvia Lisboa numa névoa úmida e suave, o ar fresco pairava como um véu. As sombras alongadas dos candeeiros dançavam sobre a calçada deserta. Beatriz, cirurgiã, e o marido, Guilherme, regressavam a casa após um jantar com amigos. O silêncio era tão profundo que um gemido baixo, vindo dos densos arbustos de jasmim junto ao caminho, ecoou com estranha clareza.

“Ouviste?” sussurrou Beatriz, parando de repente.

“Ouvi,” resmungou Guilherme, sem diminuir o passo. “Deve ser algum bêbado. Vamos, está a começar a chuviscar.”

Mas Beatriz já se desviava do asfalto, pisando a relva molhada. Anos de instinto médico não permitiam que ignorasse aquilo.

“Tenho de ver,” disse com firmeza. “Pode estar mal.”

“Porque te metes sempre na vida dos outros?” revirou os olhos, sem se virar. “Não estás de serviço. Chega de bancar a heroína. Vamos, estou cansado.”

Ela não respondeu, afastando os ramos. No meio da folhagem, um homem encolhia-se no chão húmido, as mãos pressionadas ao lado. A luz da lua revelava uma mancha escura e pegajosa no casaco. Beatriz ajoelhou-se—os dedos logo se cobriram de sangue quente. O ferimento era grave, provavelmente uma facada.

“Chama uma ambulância!” gritou ao marido, que ficou parado no caminho com uma careta de nojo.

Guilherme aproximou-se com relutância, mas nos seus olhos não havia compaixão—após irritação.

“Pronto, lá te meteste,” rosnou. “Agora vêm as complicações: polícia, interrogatórios, noite perdida! Para quê?”

Sem esperar resposta, virou-lhe as costas e foi-se embora, deixando-a sozinha na escuridão, de joelhos ao lado do moribundo. Naquele instante, abriu-se entre eles um abismo.

“Acalme-se,” disse Beatriz, suave mas firme. “Respire fundo. A ajuda já vem.”

A sua voz, calma e segura, era a mesma que tranquilizara centenas de pacientes antes da cirurgia. O homem parou de gemer, a respiração acalmou. Olhou para ela com gratidão muda. Quando a sirene se ouviu ao longe, Beatriz correu para guiar a ambulância. A equipa agiu rápido. Ao colocá-lo na maca, o médico mais velho perguntou:

“É familiar?”

“Não, encontrei-o. Também sou médica—cirurgiã.”

“Entendido, colega. Ele não tem documentos. Pode passar amanhã no Hospital de Santa Maria? Precisamos do seu relato.”

“Claro,” anuiu.

A ambulância partiu, e ela ficou na quietude da noite. A casa ficava perto, mas caminhou devagar, adiando o regresso. A ação de Guilherme queimava-lhe por dentro.

Lembrou-se do seu primeiro encontro: ele fora seu paciente, partira a perna a cair da bicicleta. Charmoso, brincalhão, conquistou-a com insistência. Lembrou-se também da mãe dele—um olhar glacial, um comentário seco: “O meu filho precisa de uma esposa que cuide da casa, não de correr para o bloco operatório.” Na altura, Beatriz sorrira. Agora, o sorriso parecia ingénuo. Talvez a sogra tivesse razão.

Guilherme esperava-a na cozinha. Acordado, com o rosto crispado de raiva.

“Bem, já heroizaste?” zombou. “Devias ter ficado lá fora. Que esposa és? Nem jantar tens pronto, as camisas por passar, os turnos a sobrepor-te à família! Casei-me com quê?”

Beatriz sentou-se. Não tinha energia para discutir.

“Gui, sou médica. Um homem estava a sangrar.”

“Não quero saber!” rugiu. “Quero uma mulher em casa, não a meter-se em sarilhos! Não suporto o teu trabalho, as tuas noites, as tuas prioridades!”

Cada palavra cortava como lâmina. O ódio na voz dele sufocou-a.

“Estou farto de ti e do teu maldito juramento,” cuspiu, levantando-se. Saiu em passo firme, trancando a porta do quarto.

Naquela noite, Beatriz dormiu no sofá. De manhã, com a cabeça pesada e o peito apertado, fez algo pequeno mas significativo: não preparou o pequeno-almoço. Não passou a ferro. Em vez disso, parou diante do espelho, maquilhou-se ligeiramente—um toque de rímel, brilho nos lábios.

Ao entrar na sala dos médicos, as colegas surpreenderam-se:

“Beatriz, estás radiante! O Guilherme propôs outra vez?” gracejou a enfermeira Mariana.

“Pareces um milhão de euros!” exclamou o anestesista Rui.

Ela sorriu, envergonhada. Tinha-se esquecido de como era ser notada.

Ao almoço, o chefe de cirurgia aproximou-se:

“Lembras-te do homem que encontraste? Trouxeram-no para cá—Santa Maria recusou, sem camas. Acontece que não era sem-abrigo. Acordou, fez uma chamada, e apareceram jipes com seguranças e advogados. É o Duarte, um empresário importante. Foi vítima de um ataque. Salvaste a vida a um milionário.”

Beatriz soltou uma risada fraca. Pensou como seria contar a Guilherme. Mas não houve oportunidade.

Ao voltar para casa, a porta não abriu—a fechadura fora trocada. Bateu. Guilherme abriu, o olhar gelado.

Na entrada, malas amontoadas—as suas, enfiadas às pressas.

“Pensei e decidi,” disse sem emoção. “Não és a mulher certa. Somos diferentes. Leva as tuas coisas e vai.”

Beatriz ficou paralisada. Da suite saiu uma jovem—bonita, no seu roupão de seda. Sob o tecido, um ventre redondo e falso.

“É a Carolina,” apresentou. “Está à espera de um filho meu. Precisa de estabilidade, e eu de uma mulher em casa. Tu és eternamente uma plantonista. Por isso, vai.”

Carolina sorriu timidamente, acariciando a barriga postiça. Aquele teatro ridículo foi o último empurrão.

Beatriz não disse nada. Nenhum grito, nenhuma lágrima. Apenas pegou nas malas e saiu. Dentro dela, só vazio.

Não tinha para onde ir. A família estava longe. As amigas—afastadas pelos anos de trabalho e um casamento consumido por expectativas alheias. O único lugar onde se sentia segura era o hospital.

De táxi, foi para o quarto de serviço, deixou as malas e entrou na sala dos médicos. O chefe de cirurgia, um homem de cabelos grisalhos e olhos perspicazes, olhou para ela—o rosto pálido, as malas—e compreendeu.

“Fica, Beatriz,” disse baixinho. “O sofá está aqui. Não és a primeira, nem serás a última. E, honestamente, há muito que não te via viva ao lado dele. Talvez isto seja um novo começo.”

Ela agradeceu com um aceno. Sem perguntas, sem piedade—apenas compreensão. Isso valia mais que mil palavras.

Deitou-se no sofá velho, mas o sono não veio. Levantou-se, foi até ao pátio do hospital. A noite estava calma. Num banco, apesar da hora tardia, estava um homem de pijama hospitalar—o mesmo que salvara.

Duarte virou-se ao ouvi-la. Viu-lhe o rosto marcado e perguntou, direto:

“Ele estendeu a mão e, pela primeira vez em anos, Beatriz sentiu que o futuro, antes tão incerto, agora brilhava como a madrugada sobre o Tejo.

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