O eco de malas de rodinhas e anúncios automatizados de voos era o único som que Ricardo Mendes alguma vez realmente ouvia. Era a trilha sonora da sua vida, um ritmo de movimento constante e implacável.
O Aeroporto Humberto Delgado era um borrão de chuva miudinha e rostos estressados, uma cidade inteira espremida numa caixa de cimento. Pessoas de casacos inchados discutiam com comissários de bordo. Crianças arrastavam peluches por poças lamacentas. Um homem de terno gritava ao telemóvel em espanhol acelerado perto da fila de segurança.
Ricardo, quarenta e dois anos, passava por tudo aquilo como se fosse a única pessoa presente.
Cortava a multidão com passadas largas e decididas, uma figura alta num sobretudo de lã que provavelmente custava mais do que o aluguer da maioria das pessoas. Movia-se como um homem acostumado a que todos se afastassem do seu caminho — e assim acontecia. Cabeças viravam-se, olhos espreitavam o relógio caro no pulso, a pasta de couro na mão, a confiança natural na sua postura.
Mas ele não reparava.
Nunca reparava em ninguém.
Era um homem talhado a fria eficiência, o fundador da Mendes Capital, um milionário feito a pulso que oscilava para bilionário, dependendo do humor dos mercados. A sua vida era uma sequência de números e negócios, folhas de cálculo e contratos, aviões e salas de reunião.
Não tinha tempo para atrasos.
“Senhor Engenheiro, a equipa de Londres já está em videochamada, estão a perguntar se já embarcou”, disse o assistente, um jovem nervoso chamado João, ofegante algures atrás dele.
João equilibrava três telemóveis, uma pilha de pastas e um galão de café que ameaçava derramar-se a cada passo apressado. A gravata estava torta. O cabelo despenteado de um lado. Parecia ter dormido na mesma camisa que trajava.
Ricardo não abrandou.
“Diga a Londres para esperar”, respondeu, sem parar.
A voz era tão cortante quanto o ar de dezembro que entrava sempre que as portas deslizantes abriam. Estava focado numa só coisa: a fusão.
Aquele negócio em Londres coroaria o seu ano mais lucrativo — uma aquisição de 1,2 mil milhões de euros que solidificaria o seu legado, calaria os críticos e garantia o seu domínio na próxima década. O conselho chamava-lhe “transformador”. A imprensa financeira dizia ser “agressivo”.
Ricardo chamava-lhe “terça-feira”.
O olhar fixava-se na entrada envidraçada da zona VIP à frente. Para lá daquelas portas, esperavam-no cadeiras de couro, salas silenciosas e um corredor privado onde ninguém ousaria pedir-lhe para tirar os sapatos.
Odiaba o caos das terminais públicas. Um mar de mediania. Atrasos, crianças a chorar, pessoas que andavam devagar demais, que paravam no meio dos corredores sem noção de urgência. Gente que perdia tempo a percorrer lojas *duty-free* como se estivesse num centro comercial e não num ponto de passagem entre onde estavam e onde precisavam de estar.
Ajustou a alça da pasta ao ombro e apertou os olhos para uma família a bloquear o corredor principal. Um carrinho de bebé, três malas inchadas e um pai com ar de quem tinha desistido da vida.
Ricardo virou o corpo para passar por eles, inalando fundo, pronto a ignorá-los sem pedir desculpas.
E então ouviu-a.
Uma voz pequena, fina, cortando o burburinho do aeroporto como um bisturi.
“Mamã, tenho fome.”
Não devia tê-la ouvido.
Não devia importar-se.
Mas Ricardo, por razões que nunca saberia explicar, virou-se.
Ele nunca se virava.
Os passos abrandaram, depois pararam. As pessoas atrás dele contornaram a sua inesperada imobilidade, resmungando. João quase embateu nas suas costas.
E foi então que a viu.
Perto de um dos bancos de plástico riscados, sentava-se uma mulher jovem, encolhida, ombros curvados, agarrando as mãos de duas crianças pequenas — gémeos, um rapaz e uma rapariga, talvez cinco, talvez seis anos.
O primeiro pensamento foi uma avaliação impessoal, automática.
Pobreza.
O cabelo da mulher estava preso num rabo-de-cavalo desalinhado, mechas soltas emoldurando o rosto. O casaco era fino, azul desbotado, daqueles que se compram em segunda mão ou em saldos, totalmente inadequado para o inverno português. Pendia-lhe como se tivesse pertencido a outra pessoa primeiro.
As faces das crianças estavam pálidas, as bochechas gretadas de frio e cansaço. Os pequenos casacos eram tão finos quanto o da mãe. O fecho da rapariga estava partido; alguém o tinha remendado com alfinetes de segurança. Os sapatos do rapaz estavam húmidos na ponta.
Partilhavam um pequeno saco de batatas fritas amassado. Um pegava num pedaço, cuidadosamente, quase cerimoniosamente, e passava-o ao outro. Nenhum cedia mais que o outro.
O segundo pensamento não foi um pensamento, mas um choque.
Impacto físico.
Como se uma corrente elétrica lhe tivesse batido no peito.
Conhecia aquele rosto.
Não da forma casual como “conhecia” pessoas de galas de caridade ou reuniões de acionistas. Não como reconhecia banqueiros, advogados, rivais.
Tinha visto aquele rosto refletido nas janelas do seu duplex enquanto ela limpava o vidro.
Tinha-o visto no mármore brilhante da cozinha enquanto ela esfregava o chão de joelhos.
Tinha-o visto levantado para ele uma noite, olhos arregalados, na noite em que tudo dera errado.
Não o via há seis anos.
O coração deu uma estranha pancada. A boca ficou seca.
Os pés pararam. O ruído do aeroporto desvanecia ao redor, como se alguém tivesse baixado o volume.
João, que tentava deslizar no telemóvel, enviar mensagens e caminhar ao mesmo tempo, quase colidiu com ele.
“Engenheiro Mendes? Está tudo bem?”, a voz de João era aguda, ofegante.
Ricardo não respondeu.
Nem sequer o ouviu.
O mundo tinha-se inclinado, apenas uns graus, mas suficientes para que nada parecesse nivelado. Os sons do aeroporto — as malas de rodinhas, os anúncios, os *beeps* dos carrinhos, o insistente zumbido do telemóvel — esbatiam-se num rugido distante.
“Francisca?”, disse.
O nome mal foi um som. Era mais um sopro que voz. Um fantasma a esgueirar-se entre os dentes.
A cabeça da mulher ergueu-se como se alguém lhe tivesse puxado uma corda invisível.
Os olhos — grandes, avelã, doces e selvagens ao mesmo tempo — fixaram-se nos dele. Aqueles olhos. Deus, lembrava-se daqueles olhos.
Por um instante, talvez dois, a descrença pairou no rosto dela.
Depois, tão rápido como chegara, desapareceu.
Substituída por pânico.
“Engenheiro Mendes?”, sussurrou.
Todo o corpo ficou rígido, como um veado que acabara de ouvir o estalar de um ramo na floresta. As mãos apertaram instintivamente as dos filhos. Um pequeno tremor percorreu-lhe os ombros.
Já lá iam seis anos desde a última vez que a vira.
Francisca.
A sua antiga empregada domE no final, entre cafés mal passados, tardes de futebol no parque e aquele mesmo velho sobretudo azul desbotado que ela nunca quis trocar, Ricardo descobriu que a verdadeira riqueza não estava nos zeros da conta bancária, mas no abraço apertado do Eduardo ao chegar da escola e no sorriso tranquilizador da Francisca quando ele, finalmente, aprendeu a ser apenas Ricardo.





