Expulsa de casa aos 15 por uma mentira, minha vida mudou para sempre6 min de lectura

*Adaptação para a cultura portuguesa, com tom leve e humorístico:*

**”Consegues imaginar estas palavras?”**

Foram as últimas sílabas que o meu pai perdeu comigo antes de me empurrar para os dentes de uma ventania de outubro e trancar a porta atrás de mim.

**”Sai da minha casa. Não preciso de uma filha doente.”**

Eu tinha quinze anos. Nem casaco, nem telemóvel, nem um tostão furado. Tudo o que levava era uma mochila da Sacoor com meia folha de matemática e um embrulho de barra de cereais. A chuva já me encharcava os ténis da Salsa, transformando os dedos dos pés em cubos de gelo.

Três horas depois, a polícia ligou-lhe. Quando ouviu o que o Agente Mendes tinha para dizer, o sangue desapareceu-lhe da cara, deixando-o pálido como papel velho. Mas, nessa altura, o estrago já estava feito na linha do tempo das nossas vidas. Era tarde demais para arrependimentos.

Chamo-me Sara Monteiro. Tenho agora vinte e oito anos, sentada num apartamento num décimo andar em Lisboa, a ver uma tempestade a esfregar-se contra o vidro duplo. Há uma carta em cima do mármore da cozinha, escrita à mão, com letra trémula e papel barato de lar de idosos.

Depois de treze anos de silêncio, o meu pai quer ver-me. Diz que está a morrer. Diz que sente muito.

O engraçado sobre a chuva é que funciona como uma máquina do tempo. O cheiro a alcatrão molhado e ozono arrasta-me sempre de volta àquela noite: 14 de outubro de 2011.

Lembro-me de chegar a casa da escola naquela terça-feira com uma ligeireza nos passos que hoje parece estranha. Tinha tido 20 a matemática. A minha cabeça estava cheia dos dramas banais da adolescência — o jantar, os TPC, o poster dos Xutos & Pontapés que estava a juntar mesada para comprar. Nem fazia ideia de que, em menos de uma hora, estaria a lutar pela vida à beira da autoestrada.

Assim que entrei pela porta, o ar em casa parecia pesado, como a cabine de um avião a cair.

O meu pai estava no meio da sala. Parecia um vulcão prestes a entrar em erupção — trémulo, silencioso, letal. A cara estava vermelha como um bife cru. As mãos sacudiam com violência; numa delas, segurava um maço de notas, na outra, dois frascos de comprimidos vazios.

A minha irmã, Leonor, estava logo atrás dele. Tinha dezanove anos, quatro a mais do que eu, e trazia uma expressão que era uma obra-prima de tristeza falsa. A testa franzida, os lábios entreabertos — o retrato perfeito da irmã mais velha dedicada que acabara de descobrir algo horrível sobre a irmã mais nova.

Mas eu vi-lhe os olhos. Apanhei o microgesto que não conseguiu esconder. Um lampejo de pura satisfação.

A nossa madrasta, Joana, espreitava pela porta da cozinha, os braços cruzados, os lábios apertados numa risca branca. Esse era o talento dela: assistir a atrocidades sem dizer um piu.

O meu pai nem me deixou largar a mochila. Começou a gritar antes de a porta fechar atrás de mim.

**”Andas a roubar-me há meses!”**

Atirou o dinheiro aos meus pés. **”A comprar comprimidos? A escondê-los no quarto como uma viciada?”**

**”Pai, eu não—”**

**”A Leonor encontrou as provas, Sara! Dinheiro escondido na tua gaveta. Frascos no armário. Mensagens num telemóvel descartável a falar com traficantes!”**

Tentei explicar. Tentei dizer-lhe que nunca lhe toquei na carteira, nunca vi aqueles comprimidos, nem sabia o que era um telemóvel descartável. Mas as palavras morreram na minha garganta quando percebi algo horrível:

Ele não estava a ouvir. Não queria a verdade — queria um culpado.

A Leonor passara o dia a prepará-lo, a alimentá-lo com mentiras como veneno envolto em açúcar. Ficou ali, com ar devastado, a dizer que *”tentara ajudar-me”*, que *”não aguentava mais ver a irmã a destruir-se”*.

Foi uma atuação digna de um Óscar. E o meu pai engoliu tudo como se fosse o Evangelho.

Agarrou-me o braço — com força suficiente para deixar nódoas que mais tarde seriam fotografadas pela PJ — e arrastou-me para a porta. A minha mochila estava no chão. Ele apanhou-a e atirou-ma contra o peito.

Depois, abriu a porta.

A temperatura tinha caído quinze graus desde a manhã. A chuva caía a potes, horizontal, cortante. O trovão rolava ao longe como artilharia.

O meu pai olhou-me nos olhos. Não havia amor ali. Só nojo.

**”Sai da minha casa. Não preciso de uma filha doente.”**

Empurrou-me para o alpendre. A porta bateu. A chave girou.

E assim, de repente, estava sem casa.

Fiquei parada naquele alpendre, gelada. Não pelo frio — embora ele já me chegasse aos ossos — mas pelo choque da violência. Olhei para a madeira da porta, à espera que se abrisse. Que alguém risse e dissesse que era um mal-entendido. Que o meu pai se lembrasse que me amava.

Ninguém veio. A luz do alpendre apagou-se.

O meu telemóvel estava em cima da secretária. Não me deixaram levar nada. A mochila tinha livros, uma calculadora TI-83 e uma barra de cereais esmagada. Nada útil para sobreviver a uma noite ao relento.

Era 2011. Ainda havia cabines telefónicas, mas eram espécies em vias de extinção, e quem andava com moedas no bolso? Certamente não uma miúda de quinze anos que gastava o dinheiro em posters. Aluna de 20 valores, zero estrelas em habilidades de sobrevivência.

Então, comecei a andar.

Não decidi conscientemente para onde ir. O meu corpo moveu-se automaticamente para o único porto seguro que conhecia: a casa da minha avó Matilde.

Ficava a onze quilómetros de distância.

Onze quilómetros não são nada de carro — dez minutos com a rádio a tocar. Mas andar onze quilómetros sob chuva gelada, de ténis de lona e sem casaco? Podiam ser mil.

A estrada nacional estendia-se à minha frente, escura e brilhante como o dorso de um monstro. Os carros passavam, cegando-me com os faróis, atirando-me ondas de água suja para as calças. Era só uma sombra à beira da estrada, uma figura que ninguém queria olhar de perto.

Ao fim do primeiro quilómetro, a roupa colava-me à pele. As calças jeans pesavam como chumbo.

Ao fim do segundo, já não sentia os dedos. Meti-os nas axilas, mas os tremores começaram — violentos, convulsivos, como se me quisessem partir os ossos.

Ao fim do terceiro, os dentes batiam com tanta força que tinha medo que se partissem.

Mas continuei. Qual era a alternativa? Voltar e bater à porta do homem que me expulsou? Ele fizera a sua escolha. Só me restava avançar. Um passo dormente de cada vez.

O mais traiçoeiro da hipotermia é que ela mente. Não percebemos que estamos a morrer. O corpo desliga o que não é essencial — dedos, pés, orelhas — para manter o coração quente. O cérebro embacia. As decisões ficam lentas como melaE, no final, enquanto a chuva batia nas vidraças do meu apartamento em Lisboa, percebi que a tempestade já não me assustava, porque agora eu era a casa.

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