Márcia empurrou a porta da sala onde deixara as filhas e parou, congelada. O bilionário Eduardo Mendes, o homem que nunca sorria, estava ajoelhado no chão com um bolo enorme nas mãos, cantando os parabéns de voz desafinada para as suas filhas gémeas. As meninas gritavam de felicidade e, naquele instante, Márcia percebeu que algo impossível acontecia ali.
O que ela não sabia era que aquele momento seria o primeiro passo para um final capaz de mudar todas as vidas para sempre. Márcia acordava todos os dias às cinco da manhã, café rápido, banho frio, um beijo nas filhas ainda a dormir e saía a correr para apanhar dois autocarros até ao centro do Porto. Era empregada doméstica no escritório de Eduardo Mendes, um magnata das finanças.
Conhecem aquele tipo de patrão que nem olha na vossa direção, que passa por vocês como se fossem invisíveis? Pois, esse era ele. Frio, distante, sempre de fato impecável e expressão séria. O tipo de homem que se respeita, mas não se aproxima.
Márcia tinha duas filhas gémeas, Beatriz e Carolina, de três anos, a alegria da sua vida. Todas as manhãs deixava-as com a Dona Rosa, a vizinha do terceiro andar, que as tomava conta por um preço que cabia no orçamento apertado. Era difícil, mas dava. Até que, num dia de aniversário das meninas, a Dona Rosa ligou de manhã cedo: estava com febre, não podia ficar com elas. Márcia entrou em pânico.
Faltar ao trabalho? Perder o ordenado? Não podia. Precisava daquele emprego mais do que do ar que respirava. Tomou então a decisão mais arriscada da vida: levou Beatriz e Carolina, com uma sacola de brinquedos, bolachas e sumo, e escondeu-as numa salinha no fundo do corredor do escritório, onde ninguém entrava. Arrumou uma mesinha, espalhou os brinquedos e sussurrou: “Meninas, fiquem aqui quietinhas, está bem? A mãe já volta. Não façam barulho, pelo amor de Deus.” As duas aninharam-se, obedientes. Márcia trancou a porta, prendeu a respiração e foi trabalhar.
Tudo ia bem. Até que, pelas três da tarde, Eduardo precisou de uns contratos antigos. E adivinhem onde estavam? Exacto. Naquela sala. Ele abriu a porta, entrou decidido e parou. Duas menininhas idênticas, de vestido vermelho e laço no cabelo, estavam sentadas no chão, rodeadas de bonecas. Olharam para ele com olhos curiosos, e uma delas, Beatriz, levantou-se, aproximou-se e perguntou com voz doce: “Tio, veio para o nosso aniversário?” Eduardo ficou mudo.
Piscou três vezes. De onde tinham saído aquelas crianças? O que faziam ali? Mas antes que pudesse pensar, Carolina já lhe agarrava a mão. “Vem brincar connosco, tio! Hoje é o nosso dia!” E então aconteceu o impossível. Aquele homem sério, carrancudo, dono de uma fortuna incalculável, derreteu. Sentou-se no chão, pegou numa boneca, fez vozes engraçadas. As meninas riram, ele riu também – um riso que nem sabia que ainda tinha.
Meia hora depois, Eduardo saiu da sala e ordenou à recepcionista: “Quero um bolo de aniversário aqui em vinte minutos e balões cor-de-rosa.” A mulher quase caiu da cadeira.
“Mas o senhor tem reunião com a direção!”
“Cancela.”
Quando Márcia subiu a correr para ver as filhas, quase teve um ataque cardíaco. Lá estava Eduardo Mendes, o bilionário mais temido do Porto, de joelhos no chão, segurando um bolo gigante, rodeado de balões, cantando os parabéns desafinado enquanto Beatriz e Carolina batiam palmas e gritavam de alegria. Márcia ficou sem cor.
“Senhor, posso explicar…”
Ele ergueu-se, limpou as mãos nas calças do fato caro e sorriu. Pela primeira vez em dois anos, Márcia via aquele homem sorrir de verdade.
“Não precisa explicar nada. Elas são suas filhas?”
“Sim, senhor. A vizinha ficou doente e não tive com quem as deixar…”
“Respira. Está tudo bem. A partir de hoje, pode trazê-las sempre que precisar.”
Márcia não acreditou. Estaria a sonhar? A partir dali, tudo mudou. Eduardo começou a aparecer na salinha todos os dias. Levava brinquedos novos, perguntava sobre a vida de Márcia. Ela, desconfiada, foi se abrindo aos poucos. Contou que o pai das meninas desaparecera quando soube da gravidez, que trabalhava desde os catorze anos, que sonhava com uma casinha própria, mesmo que pequena.
E Eduardo também falou. Falou da solidão de voltar para uma mansão vazia, do dinheiro que resolvia tudo, menos a ausência que o consumia. As meninas passaram a chamá-lo de “Tio Eduardo”. Ele adorava, trazia livros, doces, até que um dia apareceu com duas bicicletas cor-de-rosa.
Márcia tentou recusar. “Senhor, isto é demasiado.”
“Deixa-me fazer isto, por favor.”
Os meses passaram. Márcia começou a sentir algo novo – um frio na barriga ao vê-lo, um sorriso bobo quando ele elogiava as suas receitas. Reprimia os pensamentos. “Que loucura, Márcia. Ele é o teu patrão. É um bilionário. Acorda para a vida!” Mas o coração não obedece à razão.
Até que um dia a melhor amiga dela, Sofia, lançou-lhe um balde de água fria.
“Cuidado, Márcia. Esse patrão está demasiado próximo das tuas filhas.”
“Como assim?”
“Homens ricos que dão prendas e atenção… conheço casos em que querem ficar com os filhos. A mãe perde a guarda e nunca mais os vê.”
O medo instalou-se. Márcia reparou em coisas: Eduardo perguntava sobre a escola das meninas; uma vez, ouvira-o ao telefone a falar de propinas; noutra, um cartão de visita de uma advogada de família na sua mesa. O pânico tomou conta. Afastou-se, respondeu a monossílabos, evitou que ele estivesse a sós com as filhas.
Ele percebeu. “Márcia, aconteceu alguma coisa?”
“Não, senhor. Está tudo bem.”
Mas não estava. Uma semana depois, ela entregou a carta de demissão. Eduardo ficou estupefacto.
“O quê? Porquê?”
“Preciso de algo diferente.”
Implorou. Ela saiu. Mas ele não desistiu. Foi a sua casa, bateu à porta. Na escadaria do prédio, Márcia explodiu:
“Quer tirar-me as minhas filhas? Está a pesquisar escolas, a falar com advogados, a aproximar-se delas para depois as levar! Não sou parva!”
Ele abriu os olhos como pratos. “O quê? Márcia, enlouqueceste? Nunca faria isso!”
“Então porque tanto interesse?”
Ele respirou fundo. “Porque me importo. Pensei em pagar uma escola melhor, em ser padrinho delas, se me deixasses. Mas nunca, nunca pensei em separá-las de ti.”
Márcia chorou. Talvez tivesse entendido tudo errado. Eduardo aproximou-se.
“Sabe porque me importo tanto? Porque me apaixonei. Por elas e por ti.”
“O quê?”
“Amo-te, Márcia. Amo as tuas filhas. Queria fazer parte das vossas vidas.”
O coração dela desfez-se. “Eu também te amo. Só tive medo… medo deEduardo abraçou-a com força e, num sussurro, prometeu que nunca as separaria, porque o que os unira não era destino, mas amor — e isso, nem o tempo nem o dinheiro poderiam destruir.





