Filho de Riquinho Recebe Prazo Fatal… Até que uma Menina Simples o Banha com ‘Água Misteriosa’6 min de lectura

O corredor do Hospital Infantil de Santa Maria cheirava a lixívia e café queimado—como se o desespero se disfarçasse de limpeza.

Era Lisboa, numa noite de inverno em que o ar parecia fino e as luzes fluorescentes faziam todos parecerem fantasmas. As enfermeiras caminhavam depressa. As máquinas apitavam com uma paciência cruel. De vez em quando, um monitor lembrava a alguém que o tempo ainda passava.

Rodrigo Mendes não conseguia parar de tremer.

Não era o tremor educado dos nervos.

Era o verdadeiro—aquele que começa nos ossos quando o cérebro se recusa a aceitar o que os olhos insistem em ver.

Há três semanas, ele vivia numa cadeira de vinil à frente do Quarto 312, o fato amassado como um casaco alheio, a barba crescendo como uma rendição lenta. O telemóvel colado à mão, como se dinheiro, poder e influência pudessem discar um milagre.

Dentro do quarto, o seu filho, o Pedrinho—apenas três anos—estava ligado a monitores e tubos que pareciam pesados demais para um corpo tão pequeno. A cada dia, a criança ficava mais pálida, mais leve, mais silenciosa, como se a vida lentamente o estivesse a apagar.

Rodrigo construíra toda a sua fortuna numa crença: tudo tem solução.

E agora, ali no corredor do hospital, enfrentava o primeiro problema que o dinheiro não conseguia resolver.

O Dr. Tiago Costa, chefe de Pediatria, pediu-lhe para “conversar calmamente”, daquele jeito que os médicos usam quando estão prestes a arruinar a sua vida.

Rodrigo conhecia aquele olhar.

A voz cuidadosa. A respiração controlada. Os olhos que não querem fitar os seus por muito tempo.

“Sr. Mendes”, começou o médico, escolhendo as palavras como se fossem vidro, “temos de ser honestos.”

A boca de Rodrigo secou. As mãos fecharam-se em punhos.

“Já tentámos tudo”, continuou o Dr. Costa. “Seis protocolos. Especialistas. Consultas internacionais. Exames que não fazemos habitualmente. A condição do seu filho é… extremamente rara. Nos poucos casos registados no mundo…”

O médico parou.

E aquela pausa disse mais do que qualquer frase.

Rodrigo sentiu o corredor inclinar-se.

“Quanto tempo?”, perguntou, a voz quebrada.

O Dr. Costa baixou o olhar.

“Cinco dias”, disse, suavemente. “Talvez uma semana, se… se tivermos sorte. Tudo o que podemos fazer agora é mantê-lo confortável. Evitar o sofrimento.”

Rodrigo olhou para ele como se as palavras fossem uma língua que não entendia.

Cinco dias.

Era um prazo para um contrato.

Um voo agendado.

Uma data de pagamento.

Não a vida de uma criança.

“Tem de haver outra coisa”, disse Rodrigo, agarrando o braço do médico com força desesperada. “O dinheiro não é problema. Trago quem for, de onde for. Diga um valor.”

O Dr. Costa não se afastou. Não hesitou.

“Já consultámos os melhores”, disse, gentilmente. “Aqui e no estrangeiro. Às vezes… a medicina chega ao seu limite.”

Às vezes.

Uma palavra que soava a rendição.

“Lamento”, acrescentou o médico, e o pedido de desculpas caiu como terra num caixão.

Quando o Dr. Costa se afastou, Rodrigo ficou parado até que as pernas, finalmente, o levaram de volta para dentro do quarto.

O Pedrinho estava ali, pequeno sob o cobertor do hospital, olhos fechados, respiração assistida, pele tão pálida que a luz parecia atravessá-lo. Rodrigo pegou na mãozinha fria do filho e pressionou-a contra a testa, como se fosse uma oração.

As lágrimas vieram sem permissão.

Como é que eu conto à Catarina?, pensou.

Catarina—a sua mulher—estava no Porto, num congresso médico. Dois dias de distância. Dois dias. E o filho tinha cinco.

Rodrigo continuou a olhar para o rosto do Pedrinho, tentando memorizá-lo, como o cérebro faz quando sente que a perda se aproxima.

Então, a porta abriu-se novamente.

Rodrigo limpou as lágrimas depressa, à espera de uma enfermeira.

Mas não era uma enfermeira.

Era uma menina.

Pequena—talvez seis anos—vestindo um uniforme escolar gastado e um casaco castanho duas vezes maior, como se o tivesse herdado de um primo mais velho. O cabelo escuro desalinhado, como se tivesse corrido, e nas mãos segurava uma garrafa de plástico dourada—daquelas vendidas nas mercearias de bairro.

Rodrigo pestanejou.

“Quem és tu?”, exigiu. “Como entraste aqui?”

A menina não respondeu.

Aproximou-se da cama do Pedrinho com a seriedade de um soldado, subiu num banquinho e olhou para ele como se visse algo que os médicos não conseguiam.

“Eu vou salvá-lo”, disse.

Antes que Rodrigo pudesse reagir, ela destapou a garrafa.

“Ei—espera!” Rodrigo avançou.

Tarde demais.

A menina derramou a água no rosto do Pedrinho.

O líquido escorreu pela face e molhou a almofada. Algumas gotas aproximaram-se do tubo de oxigénio.

Rodrigo arrancou-lhe a garrafa das mãos e puxou-a para trás—cuidado para não a machucar, mas furioso e apavorado.

“O que estás a fazer?”, gritou. “Sai daqui! Sai já!”

Apertou o botão de chamada.

O Pedrinho tossiu uma vez.

Depois ficou quieto novamente.

A menina esticou a mão para a garrafa, como se fosse oxigénio.

“Ele precisa”, insistiu, a voz a tremer. “É água especial. Ele vai melhorar.”

As mãos de Rodrigo tremiam enquanto segurava a garrafa como prova.

“Não percebes nada”, rosnou, o medo a transformar-se em raiva porque o medo precisava de um lugar para ir. “Fora! Antes que chame a segurança!”

Duas enfermeiras entraram a correr.

“O que aconteceu?”, perguntou uma.

“Esta menina entrou e derramou água no meu filho”, disse Rodrigo, erguendo a garrafa.

Do corredor, uma voz feminina ecoou como um trovão.

“Inês! O que fizeste?”

Uma mulher da limpeza entrou no quarto—trinta e poucos anos, cabelo preso, olhos vermelhos de preocupação. O uniforme gasto, como só os dias difíceis conseguem gastar.

“Peço imensa desculpa”, disse, segurando a mão da menina. “Sou a Marina. Ela é minha filha. Não devia estar aqui. Vamos embora.”

A menina começou a chorar.

“Mãe, eu só queria ajudar o Pedrinho!”

Rodrigo congelou.

Franziu a testa. “Espera.”

Marina parou, tensa.

“Como é que a tua filha sabe o nome do meu filho?”, perguntou Rodrigo, devagar.

Marina engoliu em seco. Apertou a mão da Inês.

“Eu… eu trabalho aqui”, disse, rápido. “Talvez ela tenha visto na porta—”

“Não”, interrompeu a menina, soltando-se levemente. “Eu conheço-o. Brincámos juntos no infantário da Tia Lurdes.”

O peito de Rodrigo apertou.

“Que infantário?”, sussurrou.

“O meu filho nunca foi a um infantário”, disse Rodrigo, voz baixa, perigosa. “Tem uma ama em casa.”

A Inês olhou para ele como se fosse ele quem estivesse a mentir e disse: “Ele ia todas as tardes, escondido da ama, porque queria brincar com os outros meninos”.

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