Inês trabalhava na Mansão Dourada há quase seis meses.
Seis meses acariciando os móveis de jacarandá polido e o mármore gelado, sentindo o peso de uma fortuna que não era dela.
Vivia num pequeno apartamento no outro lado da cidade, lutando para pagar a universidade da irmã. Aquele emprego era a sua salvação e, por vezes, o seu tormento silencioso.
O Sr. Montenegro, um viúvo de hábitos excêntricos, era conhecido em toda a Lisboa pela sua imensa fortuna, amealhada com impérios imobiliários e projetos tecnológicos ambiciosos, mas nem sempre rentáveis.
A sua mansão era um santuário para o luxo ancestral: tetos artesoados, tapeçarias desbotadas e um cheiro permanente de cera e naftalina no ar.
Naquela tarde, Inês foi chamada para horas extras, algo de que precisava urgentemente. O administrador da propriedade, o severo advogado Diogo Almeida, ordenou-lhe que limpasse a ala leste da mansão, uma área selada há anos.
“Ninguém deve entrar ali, Inês,” Diogo avisou, com a voz rouca, ajustando os óculos de aro dourado. “São documentos e recordações pessoais do Sr. Montenegro. Apenas tire o pó. Não toque em nada.”
A ala leste era um labirinto de sombras. Cortinados pesados bloqueavam a luz do sol, deixando os quartos escuros e sem ventilação. Cada passo de Inês ecoava no soalho de madeira, quebrando um silêncio que parecia ter décadas.
No centro da sala maior, a chamada câmara dos fundos, havia uma pilha de objetos envoltos em lençóis brancos, como fantasmas imóveis.
Inês trabalhou em silêncio por quase uma hora, movendo-se com cuidado.
Até que o viu.
Não era um fantasma, mas algo sólido e inegavelmente real.
Um enorme baú de madeira escura, reforçado com placas de ferro. Era enorme, quase do tamanho de um pequeno caixão.
Enquanto limpava o pó do metal frio, congelou.
Um som.
No início, tão fraco que quase o ignorou. Talvez fossem os canos velhos. A casa a acomodar-se.
Mas ouviu de novo.
Toc. Toc. Toc.
Rítmico. Deliberado.
Demasiado artificial para ser o vento.
O pânico invadiu-a. Estaria algum animal preso lá dentro? Um rato enorme?
Ajoelhou-se e encostou o ouvido ao baú. O cheiro de pó e mofo encheu-lhe as narinas.
Os batimentos pararam.
Mas, em vez disso, ouviu algo pior.
Um som fraco, quase um gemido. Um choro abafado pela madeira grossa.
“Olá?” Inês sussurrou, com o sangue a gelar-se nas veias. “Está alguém aí?”
Nenhuma resposta. Apenas o silêncio opressivo da mansão.
Mas ela sabia. Algo vivo estava lá dentro.
O baú estava trancado com uma fechadura enferrujada. Parecia impossível abri-lo sem ferramentas.
Quando já estava prestes a levantar-se e fugir, o seu olhar caiu sobre uma mesinha auxiliar, cheia de livros amarelados sobre leis de propriedade e testamentos antigos.
E ali, captando um raio de luz que se filtrava por uma fenda na cortina, estava uma chave.
Pequena. Brilhante. Como se tivesse sido ali colocada há pouco.
A dúvida assaltou-a. Se o advogado Diogo descobrisse que ela tinha aberto o baú, perderia o emprego. Perderia o dinheiro de que a irmã dependia.
Mas o som que ouvira era humano.
As mãos tremeram-lhe ao enfiar a chave na fechadura. O mecanismo cedeu com um *clic* seco que ecoou pela sala como um tiro.
Inspirou fundo, fechou os olhos por um instante, murmurou uma desculpa silenciosa a qualquer deus que estivesse a ouvir, e levantou a tampa alguns centímetros.
A escuridão foi invadida pela luz.
O que viu foi um monstro.
Eram três pares de olhos.
Três rostos pequenos, pálidos e esqueléticos fitaram-na, cobertos de pó, cheios de terror e desespero.
Eram crianças.
Trigémeos, pelo que pareciam idênticos. Agachados debaixo de um cobertor sujo, abraçando-se para se aquecerem.
Um deles, um rapaz de cabelo castanho, levantou lentamente uma mão trémula na sua direção.
“Por favor… temos fome,” sussurrou, mal conseguindo falar.
O horror atingiu Inês como um raio.
O Sr. Montenegro, o milionário, tinha-os fechado ali.
Porquê?
Que tipo de homem faria isso?
Abriu o baú completamente, deixando entrar a luz. As crianças eram magras para a idade (deviam ter cinco ou seis anos), embora a decadência as fizesse parecer ainda mais novas.
“Quem são vocês?” Inês perguntou em voz baixa, ajoelhando-se junto ao baú. “Porque estão aqui?”
A de olhos mais abertos, trémula de medo, respondeu: “Somos o Tiago, a Clara e o Miguel. O pai disse que era um jogo… mas já estamos a jogar há muito tempo.”
Pai.
O Sr. Montenegro.
Antes que Inês pudesse perguntar mais, o som de sapatos de couro polido ecoou no corredor principal.
O advogado Diogo Almeida estava a voltar.
O SOM DOS PASSOS APROXIMAVA-SE. A voz de Diogo, seca e autoritária, ressoou do hall principal enquanto chamava por Inês.
“Inês! Já acabou na ala leste? Precisa de assinar o recibo das horas extras!”
O pânico tomou conta dela. Se o advogado a encontrasse ali, com os trigémeos expostos, não só perderia o emprego, como seria arrastada para um pesadelo legal.
Virou-se rapidamente para as crianças.
“Escutem-me,” sussurrou, urgente. “Chamo-me Inês. Não vos vou magoar. Mas têm de ficar em silêncio absoluto. Perceberam? Nem um som.”
Os três fitaram-na com olhos arregalados, cheios de medo.
Inês baixou a tampa do baú com cuidado, certificando-se de que ficava no lugar, mas não a fechou por completo. Depois, endireitou o uniforme, agarrou o balde de limpeza e saiu da câmara, fechando a porta o mais silenciosamente possível.
Quando chegou ao corredor principal, Diogo esperava-a junto à escadaria, de braços cruzados, no seu fato impecável.
“Demorou demasiado,” rosnou. “A ala leste não é tão grande assim.” O olhar era afiado, desconfiado.
“Peço desculpa, senhor advogado,” Inês respondeu, tentando manter a compostura enquanto o coração batia descontroladamente. “Havia muito pó, especialmente nas molduras do teto.”
Diogo estudou-a, os olhos pousando no ligeiro tremor das suas mãos.
“Está bem. Assine aqui e vá-se embora. E lembre-se: o que acontece nesta mansão, fica nesta mansão. O Sr. Montenegro é muito exigente com a sua privacidade.”
Inês rabiscou a assinatura, mal conseguindo concentrar-se.
Quando Diogo lhe entregou o maço de notas, um pensamento gelou-a: Porque é que o advogado protegia tanto a ala leste? E porque é que a chave do baú era nova, se a fechadura estava enferrujada?
“Uma pergunta, Sr. Almeida,” disse, com cuidado, tentando soar despreocupada. “O Sr. Montenegro tem netos? Vi umas fotografias antigas no corredor.”
Diogo crispou-seInês sorriu ao ver os trigémeos brincando no jardim da mansão, agora cheio de vida e luz, sabendo que, por fim, a justiça tinha vencido o medo.





