João Matos, de dezassete anos, cresceu a percorrer os passados reluzentes de cristal do Hotel Solar dos Matos com aquela autoridade tranquila que só o filho único de António Matos podia ter. Os hóspedes admiravam-no. A equipa afastava-se quando ele passava. Tinha sido criado para deslizar pelos halls de mármore e corredores de luxo como se todo o edifício fosse uma extensão da sua própria casa. Porém, numa tarde fria na Avenida da Liberdade, tudo o que pensava saber sobre si mesmo parou de repente. Parou quando viu o rapaz sentado contra um sinal de trânsito inclinado.
O rapaz vestia três camisas desajustadas, uma sobre a outra, por baixo de um casaco azul-marinho gasto. O cabelo escuro caía em caracóis desgrenhados sobre a testa, encrespado pelo tempo e pelo abandono. Mas não foi isso que fez João parar no meio do passeio. O rosto do rapaz era como um reflexo que ele não se lembrava de ter projectado. O mesmo queixo angulado, o mesmo nariz direito, os mesmos olhos verdes pálidos. Até a expressão de surpresa era idêntica à sua.
O rapaz pestanejou enquanto João ficava imóvel. O barulho de Lisboa agitava-se à sua volta. Buzinas, vendedores a gritar, autocarros a arrancar. Mas a cidade pareceu desfocar-se num silêncio que se esticou, estranhamente.
—Pareces-te comigo —disse o rapaz, com uma voz rouca, marcada pelas noites ao relento.
O coração de João bateu forte contra as costelas. —Como te chamas? —Tiago. Tiago Vaz.
Vaz. João sentiu um aperto no peito. Esse tinha sido o apelido da sua mãe antes de casar com António Matos. Ela morrera sete anos antes, deixando para trás uma vida de segredos por contar. Raramente falava do passado. João lembrava-se dela a rir, a cozinhar, a cantarolar de manhã. Não se lembrava de ela alguma vez ter mencionado a família.
—Quantos anos tens? —perguntou João. —Dezassete —respondeu Tiago. O olhar dele desviou-se para o casaco de João antes de regressar ao seu rosto, como se temesse ser julgado. —Não te quero enganar. Não é esquema. Há muito que me safo sozinho. Não tem sido fácil.
João engoliu em seco. Quanto mais olhava para Tiago, mais o parecido lhe apertava os pensamentos. —Sabes alguma coisa sobre os teus pais? —perguntou.
Tiago mexeu-se, ajustando a manta em que estava sentado. —A minha mãe era Filipa Vaz. Morreu quando eu era pequeno. O homem com quem ela viveu depois não era o meu pai. Quando me pôs na rua no inverno passado, encontrei uma caixa velha com os seus papéis. Havia a minha certidão de nascimento. Não constava o nome do pai. —Calou-se, olhando para cima com hesitação. —Mas havia fotos dela com dois bebés. Sempre achei que um deles era eu. Agora penso que éramos eu e mais alguém.
Um arrepio percorreu as costas de João. Ele também se lembrava das fotos da mãe, guardadas num álbum de flores que ninguém mais podia tocar. Dois bebés. Um nos seus braços. Outro num berço de hospital ao lado. António dissera-lhe que um dos bebés morrera pouco depois de nascer. Era tudo o que João tinha sabido até então.
Tiago continuou, baixinho: —Procurei quem tinha trabalhado com ela. Num café perto do Marquês. Disseram que ela engravidou de gémeos antes de desaparecer da cidade de repente. Não sabiam o que aconteceu depois.
O estômago de João revirou. O pai nunca mencionara um gémeo abandonado. Nunca insinuara dúvidas. Falara apenas de uma tragédia tão rápida que João não a recordava.
—Conheces o António Matos? —perguntou Tiago, quase num sussurro. João sentiu o ar faltar-lhe. —É meu pai.
O lampejo de medo e esperança no rosto de Tiago fez as pernas de João fraquejarem. O mundo pareceu inclinar-se, como se a cidade tivesse mudado de posição sem aviso.
Ficaram ali, parados, durante segundos que pareceram eternos. Dois rapazes que tinham vivido vidas opostas, feitas de circunstâncias tão distintas, a olhar um para o outro como se vissem um capítulo perdido das suas próprias histórias.
Por fim, João disse: —Vem comigo.
Conduziu Tiago pelas portas giratórias do Solar dos Matos. Os seguranças não disseram nada, mas olharam com clara estranheza. João levou-o para um salão reservado, com cadeiras de veludo e luz suave. Tiago sentou-se à beira de uma poltrona, esfregando as mãos para se aquecer. João pediu sopa, pão, chá e um cobertor limpo ao serviço de quartos. Tiago aceitou-os com gratidão hesitante.
João observou-o a comer, sentindo um nó apertar-lhe o peito. —Acho que temos de falar com o meu pai.
Tiago abanou a cabeça, quase agressivamente. —Se não me quis lá atrás, porque é que me quereria agora? João olhou para as mãos. —Não te posso responder a isso. Mas ele tem de enfrentar isto.
Trinta minutos depois, António Matos entrou na sala com a energia de um homem habituado a controlar todas as situações. Parou em seco ao ver Tiago. Havia algo no seu rosto que João nunca tinha visto antes. Não era raiva. Não era irritE, naquele momento, sob as luzes douradas do salão, os dois irmãos perceberam que o que os unia era mais forte do que tudo o que os separara.





