Libertem a Empregada, a Verdadeira Culpada É Minha Madrasta!7 min de lectura

As portas duplas do tribunal abriram-se de repente com um estrondo que ecoou pela sala toda. Uma menina de 4 anos, vestindo um vestido rosa manchado de lama e descalça, entrou correndo pelo corredor central. “A Carolina não fez nada!”, gritava com toda a força que seus pequenos pulmões permitiam.

O juiz ergueu o martelo, mas ficou paralisado. Os murmúrios cessaram imediatamente. Todos os olhos se voltaram para a pequena figura que tremia no centro da sala, com os cabelos desalinhados e as bochechas vermelhas de tanto correr.

Carolina, sentada no banco dos réus, sentiu o coração parar. As lágrimas que segurava há semanas começaram a escorrer. Não acreditava no que via. “Sofia”, sussurrou. A menina virou-se para ela e por um momento seus olhos se encontraram. Então, com uma determinação que não deveria existir em alguém tão pequeno, Sofia ergueu seu dedo trêmulo e apontou para a primeira fila.

“Foi ela”, disse com voz falha, mas clara. “Foi minha madrastra.”

Valéria Martins permaneceu imóvel em seu assento, vestida de preto, com as mãos perfeitamente colocadas sobre o colo. Seu rosto mantinha a expressão de dor contida que mostrara durante todo o processo, mas algo mudara em seus olhos. O pânico se infiltrava como água através de uma rachadura.

O juiz bateu o martelo três vezes. “Ordem! Ordem na sala!” Sua voz ecoou acima do caos que explodira. Declarou um recesso de 30 minutos. Mas antes que alguém pudesse reagir, Sofia correu para Carolina. Os seguranças moveram-se para detê-la, mas o advogado de defesa ergueu a mão. “É a filha da vítima”, murmurou ao juiz.

Carolina inclinou-se o máximo que as algemas permitiam. Sofia agarrou suas mãos acorrentadas e sussurrou algo que só ela pôde ouvir: “Eu vi tudo, Carolina. Eu vi o que ela fez.”

Seis meses antes, a casa dos Silva era muito diferente. O sol da tarde entrava pelas janelas da sala, iluminando os móveis de jacarandá e os tapetes que Roberto trouxera de uma de suas viagens de negócios. Sofia estava sentada no chão cercada por suas bonecas, mas não brincava.

Observava os adultos conversando no sofá como se fossem atores numa peça que não entendia. “Sofia, meu amor, vem cá”, disse Roberto com aquela voz especial que usava quando queria sua atenção. “Quero que conheças alguém muito especial.”

A mulher sentada ao lado de seu pai era bonita. Tinha cabelo castanho e brilhante como as princesas dos contos, e usava um vestido azul que parecia caro. Quando sorria, seus dentes eram muito brancos. “Olá, pequena”, disse ela, inclinando-se. “Sou a Valéria. Teu pai e eu vamos casar em breve.” Sofia olhou para o pai, confusa.

“Isso significa que não vais mais viajar tanto?”, perguntou. Roberto riu e pegou-a no colo. “Significa que a Valéria vai ser tua nova mãe. Não é maravilhoso?” Sofia não tinha certeza do que deveria sentir. Lembrava-se vagamente de sua mãe verdadeira, que falecera quando ela tinha dois anos.

Mas Carolina sempre estivera lá, cuidando dela, lendo histórias antes de dormir, consolando-a nas pesadelas. Valéria estendeu os braços. “Vem comigo, filhinha. Vamos ser muito felizes juntas.” Quando Sofia se aproximou, Valéria a abraçou, mas algo naquele abraço era estranho. Era como abraçar uma boneca grande e fria. Valéria cheirava a perfume caro, mas por baixo havia algo mais, algo que Sofia não identificava, mas que a fazia querer se afastar.

Da porta da cozinha, Carolina observava a cena. Trabalhava naquela casa há três anos, desde que Dona Helena morrera. Vira Sofia dar os primeiros passos. Estivera lá para suas primeiras palavras após o acidente. Aquela menina era mais que seu trabalho. Era como a filha que nunca tivera. Algo no modo como Valéria olhava para Sofia a deixava inquieta.

Quando Roberto virava para buscar documentos ou atender uma ligação, o sorriso de Valéria desaparecia completamente. Seus olhos estudavam a menina como se fosse um problema a resolver. “Carolina”, chamou Roberto. “Podes trazer café? Valéria e eu temos muito para planejar.”

“Claro, senhor Roberto.” Enquanto preparava o café, Carolina ouvia as vozes vindas da sala. Roberto falava do casamento, das mudanças que viriam, da felicidade de ter uma família completa novamente. Valéria respondia com palavras perfeitas, mas sua voz soava ensaiada. “Ah, que fofa, minha filhinha”, ouviu Carolina quando Roberto mencionou algo sobre Sofia. “Vamos ser melhores amigas.”

Mas quando Carolina voltou com a bandeja, viu Valéria com a mão no hombro de Sofia, apertando com força demais. A menina estava rígida, olhando para a janela como se quisesse fugir. “O café”, anunciou Carolina, colocando a bandeja na mesa. “Obrigado, Carolina”, disse Roberto sem levantar os olhos dos papéis. “Aliás, tenho que viajar para o Porto na próxima semana. Ficarei fora dez dias.”

Carolina viu os olhos de Valéria brilharem com algo que não parecia tristeza. “Tão cedo?”, disse Valéria. “Mal nos conhecemos, eu e a Sofia.” “É inevitável, meu amor, mas assim terão tempo para se adaptar. A Carolina vai ajudar com tudo.” “Claro”, murmurou Valéria, mas seu olhar para Carolina não era amigável.

Naquela noite, após Valéria ir embora e Roberto ficar no escritório revisando contratos, Carolina ajudou Sofia a tomar banho e vestir o pijama. Era seu momento favorito do dia. “Gostas da Valéria?”, perguntou enquanto penteava seus cabelos. Sofia encolheu os ombros. “Não sei. Ela cheira estranho.” “Estranho como?” “Como… como quando o pai esquece as flores no vaso por muito tempo.”

Carolina franziu a testa. Era uma descrição estranha, mas crianças às vezes percebiam coisas que adultos não notavam. “E como te sentes com ela vindo morar aqui? Tu vais embora?”, perguntou Sofia, virando-se rapidamente com os olhos arregalados. “Não, minha menina, eu não vou a lugar algum.” Sofia abraçou-a com força. “Promete?” “Prometo.”

Mas enquanto cobria Sofia aquela noite, Carolina não conseguia se livrar da sensação de que algo estava prestes a mudar para sempre. Os dias seguintes confirmaram seus temores. Valéria começou a passar mais tempo na casa, “se familiarizando com as rotinas”, dizia. Mas Carolina notava como ela estudava tudo – horários das empregadas, onde guardavam as chaves, quais remédios Roberto tomava.

“Para que é isto?”, perguntou Valéria uma tarde, apontando para um frasco no armário de remédios de Roberto. “Para o coração dele”, respondeu Carolina. “O médico diz que ele deve tomar todo dia. Se esquecer, eu lembro. Tenho um registro.” Valéria assentiu, pensativa, como se memorizasse informações importantes.

Uma semana depois, Roberto partiu para sua viagem. Valéria chegou cedo naquela manhã com duas malas. “Pensei que seria bom eu e Sofia passarmos tempo juntas”, explicou a Roberto, como uma espécie de “lua de mel” entre mãe e filha. Roberto parecia encantado com a ideia. “A Carolina estará aqui para te ajudar com qualquer coisa”, disse a Valéria antes de partir. “E a Esperança também, claro.”

Esperança era a mulher que cuidava da limpeza e trabalhava na casa antes mesmo de Carolina. Era uma senhora calada que aprendera a se tornar invisível em seus anos de serviço. Assim que Roberto saiu, algo mudou no ambiente da casa. Valéria movia-se pelos espaços como se já fossem seus, revE quando o juiz finalmente proferiu a sentença, condenando Valéria por seus crimes, Carolina e Sofia se abraçaram, sabendo que finalmente estariam seguras e livres para recomeçar suas vidas juntas.

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