**Diário de um Homem**
Há tempestades que apenas cobrem as cidades de silêncio, e outras que reescrevem destinos, engolindo caminhos familiares num manto branco, obrigando pessoas comuns a fazerem coisas extraordinárias. No meio de uma noite de inverno implacável nas montanhas da Serra da Estrela, a vida decidiu testar a coragem da forma mais inesperada—um teste que cairia não sobre os mais fortes ou experientes, mas sobre uma criança com um coração grande demais para o medo vencer.
**A Noite em que Tudo Deu Errado**
O Agente Rodrigo Martins sempre fora o mais calmo em meio ao caos. Durante sete anos, servira na unidade de busca canina da GNR, e ao seu lado todos os dias estava Loki, um Pastor Alemão leal, com instintos afiados e uma compreensão quase humana das emoções.
O turno daquela noite não devia ser dramático. Uma simples missão de busca. Um suspeito doméstico em fuga a pé em direção à floresta—nada incomum, nada que sugerisse que a noite se transformaria em desespero e luta pela sobrevivência. Mas a floresta no inverno não perdoa, e criminosos raramente jogam limpo.
O suspeito preparara uma armadilha.
Um fio esticado.
Uma cova escondida.
Um momento de pânico.
Rodrigo caiu com força no chão gelado, a cabeça batendo em algo invisível sob a neve. O frio explodiu no seu corpo, a dor das costelas queimando, o ar escapando num suspiro que se transformou em neblina no ar gélido. Antes que pudesse reagir, um tiro ecoou—tão perto—e um grito ficou preso na sua garganta.
Loki atacou, protetor e furioso, mas outro disparo ressoou, e o cão caiu com um ganido frágil, o sangue manchando a neve que o absorvia avidamente. Rodrigo tentou pedir reforço, mas o rádio estava destruído, os fios partidos, a voz silenciada. As mãos foram amarradas com brutalidade, a corda cortando a pele. O suspeito desapareceu na escuridão da tempestade, deixando apenas pegadas que o vento apagaria em minutos.
O vento uivou como um animal ferido. A neve devorou as provas. E lentamente, dolorosamente, a vida começou a escapar de Rodrigo.
Olhou para Loki, o peito do cão subindo e descendo com dificuldade, os olhos sem brilho mas teimosamente abertos, como se se recusasse a deixá-lo sozinho. “Fica comigo,” sussurrou Rodrigo, enquanto a sua própria consciência vacilava como uma vela a apagar-se. Loki arrastou-se até ele, pressionando o corpo contra o dele para mantê-lo acordado, numa promessa silenciosa.
Ninguém sabia onde estavam.
Nenhum pedido de ajuda foi feito.
E cada minuto significava a morte.
**Entretanto, Não Muito Longe…**
Uma pequena casa resistia ao vento como um navio solitário num mar branco. Dentro, a lareira crepitava, uma sopa cozinhava em lume brando, e a tensão envolvia a sala como um fantasma preocupado. Ana Ferreira, uma mãe a tentar ser forte pelos filhos, caminhava junto à janela, ouvindo a tempestade e desejando que o marido, Pedro, regressasse mais cedo com as provisões antes que as estradas ficassem intransitáveis.
O seu filho de doze anos, Tiago, fingia irritação com o mau tempo, mas os dedos inquietos denunciavam o medo. E depois havia a Leonor, de apenas sete anos, cheia de curiosidade e intuição—o tipo de criança que ouvia o mundo com tanta atenção que percebia o que os adultos ignoravam.
O vento gritava.
A floresta rugia com as rajadas.
Mas Leonor ouviu outra coisa.
Um gemido.
Não humano. Não muito longe.
Um latido suave e desesperado, lutando contra a distância.
Apertou as mãozinhas contra o vidro, o sopro embaçando a janela.
“Mãe… há alguma coisa lá fora,” murmurou.
“É só a tempestade, querida,” respondeu Ana, a voz um pouco rápida demais, como se reconhecer o perigo o tornasse real. O telefone tocou atrás dela, e ela atendeu—era Pedro, preocupado, a avisar que as estradas estavam a fechar mais depressa do que esperavam.
Mas Leonor permaneceu imóvel.
Lá estava outra vez.
Um som a romper o vento, frágil mas suplicante.
Um cão a pedir ajuda.
O coração apertou. Não sabia porquê, não entendia como podia sentir-se responsável por algo escondido naquele nevão, mas algo dentro dela sussurrou que, se não ouvisse agora, alguém poderia nunca ser encontrado.
Calçou as botas, demasiado grandes, o casaco mal abotoado, a cabeça protegida por um gorro desajeitado. Sem hesitar, movida apenas pelo instinto e pela inocência, Leonor abriu a porta.
A tempestade golpeou-a de imediato, roubando-lhe o fôlego, mordendo a pele. Hesitou por um instante, o medo a percorrer-lhe a espinha, mas avançou mesmo assim.
**Uma Criança Contra a Tempestade**
A neve rangia sob as botas, mas desaparecia rapidamente, engolida por novas camadas que caíam sem parar. O mundo tornou-se branco, giratório e sem fim, árvores vergadas como guardiãs a observá-la em silêncio.
“Cãozinho?” chamou, a voz pequena levada pelo vento.
Outro latido respondeu.
Fraco.
Partido.
Urgente.
Os passos aceleraram. As lágrimas queimavam, não de tristeza, mas de frio, cada piscar de olhos custando esforço. Caiu uma, depois duas vezes, arranhando a luva, mas levantou-se novamente—o som estava mais perto, e imaginou alguém a precisar dela.
Não sabia quanto tempo caminhou até avistar algo que não fosse branco.
Uma forma escura.
Depois outra.
O medo e a coragem colidiram no seu peito pequeno.
E se fosse perigoso?
E se não fosse?
Deu mais um passo.
E o mundo tornou-se muito real.
**A Descoberta**
Ali, quase engolido pela neve, jazia um homem de uniforme, a pele pálida como a lua, os lábios azulados, as mãos atadas com corda. E ao seu lado, um Pastor Alemão, ferido mas determinado, os olhos alerta assim que viu Leonor—a cauda movendo-se devagar, como se finalmente visse a esperança com botas pequenas e mãos trémulas.
“Oh não…” sussurrou Leonor.
Ajoelhou-se ao lado do agente, sacudindo-lhe o ombro.
“Senhor? Senhor, acorde…”
Os olhos de Rodrigo abriram-se com dificuldade. Custou-lhe concentrar-se no rosto que via—bochechas coradas pelo frio, lágrimas quase congeladas, cabelo emaranhado pelo vento, inocência vestida de coragem.
“Rádio…” respirou.
Leonor agarrou no aparelho destruído, carregando nos botões sem saber como, chorando quando só ouviu estática.
“Por favor… alguém… ajudem…”
Loki latiu, não com força, mas suficiente.
Nalgum lugar, num veículo da GNR a lutar contra o temporal, uma interferência ganhou vida.
“…cão… homem… socorro…”
A operadora ficou imóvel.
“Repita!”
Só estática.
Depois, um fragmento:
“…menina… neve… agente… sangue…”
O Comandante Vasco Sousa, que já organizara uma busca assim que Pedro comunicou o desaparecimento deO Comandante Vasco Sousa agarrou o rádio e ordenou a todos os veículos que seguissem o sinal, sabendo que cada segundo contava.





