Era um dia normal no Pingo Doce quando uma menina agarrou meu braço cheio de tatuagens e sussurrou, antes mesmo que eu visse quem vinha atrás dela: “O papá quer matar a mamã.”
Tenho sessenta e três anos, sou motard, coberto de tatuagens e cicatrizes. Já vi coisas na vida. A guerra colonial. Brigas de bar. Amigos morrendo na estrada. Mas nada me preparou para o terror puro nos olhos daquela menina de seis anos quando se agarrou à minha jaqueta no corredor dos cereais.
“Por favor, senhor,” sussurrou, colada à minha perna. “Finja que é o meu pai. Não deixe ele me levar.”
Olhei para baixo e vi aquela miúda franzina, cabelo castanho desgrenhado, braços cheios de nódoas negras. Depois, levantei os olhos e vi *ele*. Um homem de trinta e poucos anos, vermelho, suado, varrendo os corredores como um predador.
“Leonor!” gritou. “Leonor Filipa, vem cá já!”
A menina — Leonor — tremeu tanto que senti através das minhas calças. “É o meu pai,” murmurou. “Mas ele não está a agir como o meu pai. Magoou a mamã. Havia tanto sangue…”
O meu sangue gelou.
“Quão grave?” perguntei em voz baixa, agachando-me ao nível dela mas sem tirar os olhos do homem que se aproximava.
“Ela não se mexe mais,” a voz de Leonor mal se ouvia. “Está no chão da cozinha, sangue por todo o lado, e o papá disse que se eu contasse a alguém, ele também me faria dormir para sempre.”
Ele viu-nos. Os olhos fixaram-se nela. Depois, em mim. Vi os cálculos na cabeça dele, a ponderar se me conseguia enfrentar, se valia a pena arriscar puxá-la e fugir.
Ergui-me devagar. Todos os meus um metro e noventa, cento e vinte quilos. Deixei-o ver o meu colete. Os emblemas. As cicatrizes nos meus nós dos dedos, de quarenta anos de brigas.
Deixei-o perceber que teria de passar por mim para chegar a ela.
“Leonor, querida, vem cá,” o homem disse, voz tensa, fingindo calma. “O papá esteve à tua procura. Precisamos de ir para casa ver a mamã.”
O aperto dela no meu colete tornou-se mais forte. “Não,” sussurrou. “Não, não, não.”
Coloquei a mão na cabeça dela, suave, protetor. “Ela está bem onde está,” disse ao homem. A minha voz não era suave. “Acho que devíamos chamar alguém para ver a tua mãe. Certificar-mo-nos de que está bem.”
A expressão dele mudou. A falsa calma desapareceu. “É a minha filha. Dê-ma já ou chamo a polícia.”
“Ótima ideia,” retorqui. “Vamos chamá-los. Agora mesmo.”
Puxei o telemóvel com uma mão, a outra ainda na cabeça de Leonor. Ele olhou para o telefone. Para mim. Para ela.
“Leonor, vou contar até três—”
“Não vais contar nada,” cortei, a voz agora fria como aço. “Vais ficar aí parado enquanto eu ligo para o 112. E se deres um passo na direção desta menina, vais descobrir o que acontece quando ameaças uma criança à frente de um motard velho que não tem mais nada a perder.”
Outros clientes pararam. A olhar. Um funcionário aproximou-se. O homem viu a plateia a formar-se.
E fugiu.
Virou-se e disparou para a saída como o cobarde que era. O funcionário, um miúdo de vinte anos, tentou persegui-lo, mas gritei: “Deixa-o! Chama o 112! Diz que há violência doméstica e possível homicídio na—” Olhei para Leonor. “Querida, qual é a tua morada?”
Ela recitou, entre lágrimas: “Rua das Acácias, número 12. A casa amarela com o portão partido.”
O funcionário já estava ao telefone. Clientes ofereciam ajuda. Uma senhora deu-lhe o casaco porque Leonor tremia descontroladamente.
Ajoelhei-me. “Leonor, a polícia está a caminho. Vão ver a tua mãe. E vão apanhar o teu pai. Estás segura agora. Prometo.”
“E se ele voltar?” A voz dela era pequena, quebrada.
“Então terá de passar por mim primeiro.” Olhei-a nos olhos. “Tenho uma filha. Ela tem trinta e cinco agora. Se alguém a magoasse quando era pequena, eu matava-o com as minhas próprias mãos. Entendes? Correste para a pessoa certa. Não vou deixar que te aconteça nada.”
A polícia chegou em seis minutos. Três carros. Luzes a piscar. Enviaram equipas para a morada dela enquanto dois agentes ficaram connosco.
“Sr., pode contar-nos o que aconteceu?” perguntou a agente.
Contei tudo. Cada palavra de Leonor. Cada detalhe. O rosto da agente empalideceu.
“Leonor,” disse ela, ajoelhando-se. “Foste tão, tão corajosa. Podes contar-me da tua mãe? Quando é que o teu pai a magoou?”
“Hoje de manhã. Antes do pequeno-almoço. Eles estavam a gritar sobre dinheiro, e depois o papá agarrou na frigideira e bateu-lhe na cabeça. Ela caiu e não se levantou mais.” Leonor chorava. “Havia tanto sangue… O papá disse-me para ir para o quarto, mas ouvi-o ao telefone. Disse que ia levar-me para longe, onde ninguém nos encontrasse.”
O rádio da agente crepitou. “Unidade 47, estamos na Rua das Acácias, número 12. Vítima feminina inconsciente, traumatismo craniano. Estão a atendê-la. É grave.”
“Está viva?” perguntou a agente.
Estática. Depois: “Por pouco. Estão a reanimá-la.”
Leonor ouviu. “A minha mãe está viva?” Olhou para mim, desesperada por esperança.
“Está viva, menina.” Também chorava. “Está viva e os médicos vão ajudá-la.”
O rádio crepitou de novo. “Viatura do suspeito avistada a norte na Estrada Nacional 2. Unidades em perseguição.”
Apanharam-no vinte minutos depois. Rui Carvalho, trinta e quatro anos, preso por tentativa de homicídio, perigo para a criança e rapto. A mulher, Sofia, sobreviveu mas ficou duas semanas em coma. Fratura no crânio, hemorragia cerebral.
Mas sobreviveu.
Passei quatro horas na esquadra. Leonor não largou a minha mão. Quando o Instituto de Apoio à Criança chegou, ela gritou:
“Por favor, não deixes que me levem! Quero ficar contigo!”
A assistente social, uma senhora de olhos bondosos, perguntou: “Tem família? Alguém que possa ficar com a Leonor enquanto a mãe se recupera?”
“A minha mulher faleceu há três anos,” respondi. “Mas tenho uma filha. Estou reformado. E o meu registo é limpo. Esta menina passou pelo inferno. Se quer ficar com alguém em quem confia, isso não devia contar?”
Depois de papelada e telefonemas, concederam-me custódia temporária. A minha filha Joana veio de duas horas de distância para ajudar. É enfermeira. Sabia lidar com trauma, como ajudar uma criança que viu o impensável.
Leonor ficou em minha casa seis semanas. Seis semanas de pesadelos, de choro, de perguntas se o pai voltaria. De, aos poucos, começar a sentir-se segura.
Joana ficou a primeira semana. Ajudou-a a lavarJoana ajudou-a a lavar-se, a comer, e ficou ao seu lado nos pesadelos, até que, pouco a pouco, Leonor começou a sorrir de novo e a chamar-me “Avô Urso” como um sinal de que, finalmente, sentia-se segura.





