Quando Duarte Mendes saiu do imponente edifício de vidro no coração do Chiado, a única coisa em que pensava era no relatório que precisava enviar antes da meia-noite. Fechara um negócio de trinta milhões de euros, os mercados reagiriam bem, o conselho ficaria satisfeito. Mais um triunfo. Mais um número a somar à sua fortuna de cento e cinquenta milhões.
Até que a viu.
A meio da Rua Garrett, encostada à parede de uma loja de luxo, duas figuras destacavam-se contra o cinzento da tarde. Um coxom velho e roto, um gorro de lã, um carrinho de supermercado com sacos. E, no meio disso tudo, um casaco de cashmere cor de caramelo que Duarte conhecia demasiado bem.
O coração parou-lhe.
—Mãe? —sussurrou, incrédulo.
Maria Mendes, setenta e três anos, a viúva elegante do grande António Mendes, estava sentada no passeio molhado, a tremer. Ao seu lado, quase a segurá-la, um jovem de barba por fazer e olhos escuros, envolto em camadas de roupa suja. Colocara-lhe a própria manta sobre os ombros e protegia-a com o corpo, como um escudo contra o vento cortante.
O frio de Dezembro doía como navalhas. Os primeiros flocos de neve começavam a cair, pousando no cabelo branco de Maria.
Duarte começou a correr.
—Mãe! —ajoelhou-se à sua frente, sem se importar com o fato Armani nem com os sapatos encharcados—. Mãe, o que estás a fazer aqui?
Maria olhou para ele como se custasse a focar a imagem. Os seus olhos, sempre tão firmes, estavam perdidos.
—Du… Duarte? —balbuciou—. Eu… eu perdi-me… ia… eu…
A voz quebrou-se. O jovem sem-abrigo segurou-lhe o cotovelo.
—Calma, senhora, o seu filho já está aqui —disse ele, com uma tranquilidade que contrastava com o seu aspecto.
Duarte olhou para ele pela primeira vez com atenção. Tinha vinte e poucos anos, a barba por fazer, a pele vermelha de frio. Os dedos tremiam-lhe. E, ainda assim, mantinha a manta sobre os ombros de Maria.
—O que aconteceu? —perguntou Duarte, esforçando-se para soar controlado.
—Encontrei-a há meia hora —respondeu o jovem—. Andava pela rua, muito confusa. Não sabia onde morava, nem como se chamava, no início. Estava com muito frio, por isso sentei-a e dei-lhe a manta. Não tenho telemóvel para ligar a ninguém… ia a caminho da polícia.
Duarte engoliu em seco. Chamou o motorista com mãos trémulas, depois os serviços de emergência. Enquanto falava, não conseguia desviar os olhos da cena: a sua mãe, a mulher que organizara jantares de gala e vivera sempre rodeada de luxo, agarrada à manta suja de um estranho.
E esse estranho, com nada mais que um carrinho e uma manta, fizera mais por Maria em meia hora do que ele em meses.
Quando levaram Maria na ambulância, Duarte ficou alguns segundos no passeio, ao lado do jovem.
Puxou da carteira. Notas. Muitas.
—Obrigado pelo que fez pela minha mãe —disse, estendendo o dinheiro—. Isto não paga, mas…
O jovem baixou os olhos para o maço de notas. Duarte esperava ver ganância, urgência. Em vez disso, viu algo parecido com desconforto.
—Não —disse Tiago, abanando a cabeça—. Não o fiz por dinheiro, senhor. Só… —olhou para onde a ambulância desaparecera— não podia deixá-la no chão. Qualquer pessoa com coração teria feito o mesmo.
Qualquer pessoa com coração.
Duarte sentiu a frase trespassar-lhe algo por dentro. Quis insistir, mas o jovem já recolhia a manta, sacudia-a e a colocava no ombro.
—A sério, fique com isso —repetiu Tiago, com um meio sorriso cansado—. Cuide da sua mãe.
Virou-se e afastou-se pela rua nevada, perdendo-se entre a multidão que não o via.
Duarte ficou imóvel, as notas na mão, enquanto o vento gelado lhe batia no rosto.
No Hospital de Santa Maria, o diagnóstico caiu como uma sentença longa e silenciosa.
—Alzheimer em fase inicial —explicou o neurologista, com tom profissional, como quem repete uma frase já dita muitas vezes—. Teve um episódio de desorientação severa. A partir de agora não deve ficar sozinha em momento algum.
Duarte ouvia, mas a única coisa que conseguia ver era a imagem da mãe sentada no passeio ao lado daquele rapaz. Maria, que nunca saía sem motorista, que ainda insistia em pôr flores frescas na mansão de Cascais; Maria, perdida, sem saber sequer quem era.
Naquela noite, sentado na sala de espera enquanto a mãe dormia sedada, Duarte abriu o portátil para tentar distrair-se. O e-mail, os relatórios, os gráficos… pela primeira vez em anos, pareceram-lhe irrelevantes.
Fechou o ecrã.
Na sua mente, uma e outra vez, surgia o rosto do rapaz da manta.
“Qualquer pessoa com coração”.
Percebeu, com um golpe incómodo de lucidez, que não sabia se, no lugar daquele rapaz, teria feito o mesmo.
Passaram três dias.
Três dias a reorganizar a casa, a contratar enfermeiras, a adaptar quartos, a cancelar viagens. Os médicos confirmaram o inevitável: bons dias, maus dias, um declínio lento e irreversível.
A primeira vez que Maria o chamou “António” em vez de “Duarte”, ele trancou-se no escritório e chorou.
E, no meio de tudo, continuava a pensar no rapaz. Tiago.
Na quarta-feira à tarde, voltou à Rua Garrett, agasalhado, mas com o mesmo nó estranho no estômago. Caminhou sem saber exactamente o que procurava. Olhou para os portais, para as caixas multibanco, para os bancos.
Por fim, o cheiro a fumo guiou-o até um beco lateral. Lá, à volta de um contentor aceso, quatro pessoas aqueciam-se. Um deles, com a mesma manta cinzenta, ergueu o olDuarte estendeu a mão e, numa voz que quase se perdeu no vento, disse: “Vem, Tiago, há um lugar quente à tua espera.”
E assim, da escuridão do inverno português, nasceu uma amizade que aqueceria ambas as almas para sempre.





